Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Vês-me? (II Parte)

por Ana sem saltos, em 26.02.18

Não me lembro bem dos segundos que ocuparam o tempo até àquele momento. Nem sei bem onde estamos, creio que o mundo desapareceu. Sou eu, e ele, e 34 anos, tudo fechado num quarto morno iluminado com três velas quase no fim . 

Não falamos, não respiramos, não existimos, qualquer gesto será um excesso e poderá quebrar o desenrolar dos segundos.
E ele olha-me, e eu sei que está nervoso, ainda que me sorria daquela forma que só ele me soube sorrir, como se eu fosse a única estrela no céu.
E eu olho-o e estou nervosa, mas isso é evidente em qualquer traço, não tenho qualquer sabedoria na arte de esconder o coração. Por isso choro imóvel, olhando-o nos olhos. E pergunto-lhe em silêncio onde foi que nos perdemos, porque foi que nos perdemos, e as palavras que trocamos com a boca na boca, e o coração que lhe entreguei desfeita em mole paixão, e as juras que não proferimos mas selamos?
E se chorava só com a água expulsa da alma, começo, então, a soluçar de joelhos no chão.
Lá fora, do outro lado da janela, o mundo acontece, ainda que ali, na luz morna do quarto, o mundo e os tempos tenham parado exatamente há 34 anos atrás. Antes do fosso que se abriu, antes da fuga, da mentira, antes de tudo, quando eu era somente esperança e o beijei na boca esmurrando-lhe o peito.
Ele deixa-me chorar, dá-me o espaço que preciso para ser alma e coração em suor voz e lágrimas, e eu odeio-o por isso. Não odeio não. Nunca odiei, também não sei o que amei naquele homem que viveu sempre somente nas minhas histórias. Nem sei o que lhe faça agora que é real e está algures à minha frente, esperando por mim.
- Não fiques aí a olhar para mim, por favor... vai-te embora...
E ele não fica, e lá fora oiço música, creio, e ele não vai embora, e oiço também vozes de pessoas na rua, e chove a cântaros mas está calor, está tanto calor que acho que vou morrer sufocada ali.
E já não estou de joelhos chorando sozinha no chão, estou elevada no ar,segura no seu abraço, mas continuo compulsivamente a chorar. E lá fora uma mulher ri muito alto, e sinto de repente, um cheiro intenso a bolo de canela. E o trovão que precede a luz acontece, e eu já não estou num abraço, estou deitada, e ele já não está nas minhas histórias, está ali, aqui, está em todo lado em mim. E estoira o céu e o calor que me engole, e eu já não choro mas canto em suspiro a musica que há tanto tempo ficou presa em mim. E ele não é miragem de sonho revivido vezes sem conta, é homem e é carne querendo, tendo, porque sou toda coração não só na boca, mas principalmente nas suas mãos, e bem sei, avó querida, bem sei, uma senhora não se mostra, mas como se existe com tudo isto fechado cá dentro? Como se é, ainda que não senhora, com a vida que me corre o corpo e me atira naquele salto vertiginoso?

Silêncio de súbito lá fora, e cá dentro morremos os dois, certamente, ainda cheira a canela, mas as velas derreteram-se por fim.
Quando me embrulho no silêncio escuro do quarto, oiço-o então a chorar. E abraço-o no meu peito para lhe beber as lágrimas todas, uma por uma.
Só paro quando tiver bebido toda a sua versão da nossa história.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor



Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D