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Vês-me?

por Ana sem saltos, em 26.02.18

- Estás igual,

disse-me ele, olhando-me 30 anos depois, 34 para ser mais exata, e eu, olhando-o de volta, nada vi de igual ao tempo em que por de trás do azul escuro dos seus olhos, havia uma voz que me puxava para dentro, como se eu fosse peixe minúsculo em remoinho gigante. Fitei-o, procurando de volta a vida que havia. Devo ter falado sem dar conta das palavras que cuspi, devo ter-me exposto novamente, eu e esta minha mania de ter o coração na boca, já a minha avó me dizia, tão querida, sentada na sua poltrona e bengala milenar na mão,

- Tino na língua, minha querida. Uma senhora não se mostra,

mas eu nunca soube o que era isso do tino, o que era isso de ser senhora. Fui vendaval toda a vida, e aquela situação ali, olhando-o 34 anos depois, uma vida inteira passada à margem de um enorme suspiro, estava a enlouquecer-me. Ele ter desviado o olhar ainda me enfureceu mais.

- Não estou igual não. Nem eu nem tu. Aliás, quanto mais te olho menos te vejo...

E ele encostado na cadeira, braços cruzados no peito, olhando o céu escuro em ameaça de trovão por cima de nós, sorrindo?, talvez, perdido, creio, muito longe dali de onde nos encontrávamos, eu com o coração explodindo na boca, ele algures numa realidade paralela aquela.

E então endireita-se, põe os braços na mesa, chega-se para a frente, e olha-me nos olhos a poucos centímetros de mim.

Engulo o coração de volta, meto-o de novo no peito, entre as costelas, bate aí, sossegado, bate, mantém-me viva, por favor,

e procuro ansiosa o ar que, de súbito, desapareceu num buraco negro denso e profundo.

O mesmo que encerra a nossa historia.

E no ar que não respiro, o mesmo cheiro a tabaco e lavanda, que me faz,

 

sempre fez,

 

recuar aos tempos que era recebida num salto abraçado pelo meu avô.

 

- E agora já me vês?

 

Atrevo-me a encara-lo de frente também, muito embora me sinta perdida, agora, que engoli o coração e não lhe sinto mais o sabor na boca. Fico sem chão sem o meu coração a falar por mim.

E então vejo, sim, por de trás do cinzento que lhe esfumaçou o azul, outrora mar imenso que me engoliu, a réstia da voz que me atirou em doce abismo, naquele último dia em que o vi,

ele sorrindo de braços abertos na beira de um precipício,

- se não me beijas salto,

e eu, claro, beijei-o, meia em lágrima de choro, raiva e amor,

e o mar que rugia ali de baixo de nós, foi de repente todo enfiado naqueles olhos.

E eu afundei-me, afoguei-me, morri e nasci creio que para sempre.

 

- Vejo sim...

Ele sorri e volta a encostar-se na cadeira.

- É como te digo. Estás igual princesa.

 

 

 (Sobre músicas que são histórias. Na verdade inclui a música depois de ter publicado o post, mas foi esta a banda sonora à minha história sobre reencontros. Descoberta no xilre. Um muitíssimo obrigada)

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2 comentários

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De Piaf a 26.02.2018 às 13:59

Belo reencontro 🙂. Assim vale bem que aconteça. Parabéns Ana.
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De Ana sem saltos a 26.02.2018 às 14:24

Muito obrigada caro piaf!

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