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Vénus

por Ana sem saltos, em 30.05.18


A  verdade é que era apenas um dia de primavera, bonito e fresco como se faz prever a esperança brilhante desta meia estação, e eu, particularmente calmo nesse dia, esperava o meu café sentado na esplanada. A manhã era tão jovem e virgem ainda, prenuncio também ela de paixão desvairada e eterna. E eu, julgando-me sozinho a estrear a primeira chávena de café do dia, espantei-me com a súbita urgência,

vejo agora,

mil anos depois,

a maior que senti na vida,

quando obedeci à ordem de cá de dentro, mandatária e inevitável:

 

segue-a.

 

E eu levantei-me e segui-a.

 

Segui-a durante largos minutos e continuo sem saber explicar exatamente o que foi que me levou a seguir aquela mulher que passou voando por mim na esplanada. Talvez o abismo seco que senti na sua passagem, talvez o seu perfume, cheiro a mar e flor, talvez a brisa chorada que deixou para trás. Os passos que a levavam não pareciam rápidos. Aliás, olhando-a de trás, parecia apenas um anjo a levitar no ar, passeando calmo e indiferente à vida que passa matando segundos. Mas, eu, mero humano,  dei por mim sem ponta de ar, vendo-me a correr para conseguir acompanhar os passos daquela estranha mulher.

E se no início a tentei chamar,

 

Desculpe, menina, está tudo bem? Posso ajuda-la?

 

o tempo e o espaço, e o perfume a segredo embrenhado no ar, transformaram-me num enorme querer. E eu quis muito, quis tanto, passar a átomo invisível para descobrir tudo sobre aquela mulher.

 

Passamos pinhais e dunas, mundos e nuvens, caminhamos anos e anos, séculos em minutos, ela à frente,

 

dançando em frente,

 

eu atrás, perseguindo um segredo, até a vista se rasgar, de súbito, num inteiro mundo anunciado para nós. Arriba de milhões de quilómetros,  a cima de milhões de oceanos.

E eu que sou homem mundano, crente no visível e tocável, ali me vejo feito matéria etérea, olhando escondido um anjo a querer sobrevoar o mar.

 

- Pare.

 

Achei que a assustaria irremediavelmente, mas ela olhou-me como se sempre me soubesse ali.

 

 - Por favor, podemos falar?

 

Ela sorriu-me de frente, como se sempre me conhecesse , e com a mão direita prendeu uma madeixa de cabelo atrás da orelha. Estava descalça, vi agora, e com um pé em pontas, elevava o outro em direção à falésia. 

Tive a certeza que morreria se aquela mulher me morresse ali.

 

- Por favor? Dê-me a mão e vamos conversar.

 

Mas ao invés de o fazer, aquela estranha mulher rodopia sobre si, e de um só gesto despe-se para mim. 

Olho-a surpreso e inquieto, percebo então a urgência em segui-la, percebo, aliás, tudo naquele momento. A origem das coisas e do mundo, do universo e do amor. E então, ela lança-se nos meus braços, e leva-me, para sempre, para dentro dela. Passei a ser, naquele instante, matéria eterna de paixão, carne feita lágrima e desejo, derramados e entregues na areia de uma falésia.

Mas o para sempre é tempo demais, como o nunca é eterno demais, e assim como se lançou nos meus braços para me ensinar a arte do amor, saltou de seguida, nua e inteira, linda e leve, para o cume da arriba.

Sem me dar um segundo se quer para poder reagir,

agarra-la,

sentar-me,

compor-me, porra,

para, pelo menos, lhe perguntar,

 

Menina bonita, e o teu nome? Um homem não pode amar uma mulher sem nome,

 

ela olha-me nos olhos, bem lá para dentro, como se nunca tivesse sentido medo,

e dá-me o maior, mais bonito e mais triste sorriso que vi na vida.

 

E então diz-me, mesmo antes de saltar e se fazer espuma de onda para sempre,

 

- Sou Vênus e vou-te contar um segredo. Afinal sou eu que não sei amar.

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