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Todo

por Ana sem saltos, em 16.03.18

- É o fim, então?

Pergunta-me com aquele olhar meio morto, meio triste, meio ausente. Tudo meio.

Esta necessidade de rotular as coisas da vida e da alma acaba comigo.

Olho-o de volta e suspiro impaciente. Cheiro-lhe a suplica por uma qualquer palavra, é tão visível, tão densa e palpável, que quase lhe toco com as pontas dos dedos.

Tento travar a ânsia que me invade, a vontade indescritível de lhe bater pela sua incapacidade de leitura toda uma vida. E logo eu, que sou um amontoado de letras sedento de ser lido. Mas não aguento e cuspo-lhe,

- Toda uma vida, eu do teu lado esquerdo, e tu olhando para a direita...

E de repente, não sei bem explicar em que segundo isto aconteceu, algures no meio do silêncio gritante da nossa sala, das fotografias que nos trancavam sorrindo em molduras, algures, ali, aquele meio que me perdeu é engolido por um gigante todo, e eu vejo-lhe de volta o homem inteiro, nos ombros direitos, no olhar de frente, fundo, bem fundo de mim, e, zangado? Sim, furioso. Vejo o meu homem de volta nas mãos novamente pulsantes de vida.

Encosto-me para trás sem fôlego, surpreendida com a minha surpresa.

- Como te atreves a dizer isso?

Não lhe respondo. Não era com ele que estava a falar, caramba,  não era com ele.

Ele levanta-se e eu agarro-lhe a mão.

- Espera...

Ele para de costas para mim e espera.

O tempo para com ele, já não me lembrava do seu poder. Oiço-lhe o respirar acelerado, no silêncio imenso que nos rodeia, e eu quero-o com todas as minhas forças. Quero-lhe a alma, o olhar, as mãos, o ar. Quero-o todo, por inteiro, cansada de tanto tempo a meias metades.

- Desculpa-me

digo-lhe por fim,

ele não se move, espera de costas para mim,

- desculpa-me

e eu não me controlo e choro por fim, numa explosão de tudo e nada vendo-me à beira do fim,

- desculpa-me

ele volta-se, então, e eu vejo-o de novo, ainda que não me olhe, cerrando com força os olhos, como se quisesse reter o mundo inteiro lá dentro.

Levanto-me sem lhe largar a mão, aproximo-me chorando, junto a minha boca à dele, e digo-lhe bem para dentro dele, sussurrando um segredo só nosso, longe do mundo que existe para além nos nossos olhos fechados,

- desculpa-me.

 

E ele abre os olhos, liberta a alma toda no estrondo que sempre nos fez, e entrega-ma de novo, nas mãos, na boca, nos ombros, no ventre.

E eu faço-me inteira, finalmente toda também, e recebo-o com fome e vontade, não só do todo que lhe vejo de novo,

mas da minha metade perdida com o meio dele.

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De Ana a 20.03.2018 às 15:10

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