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Histórias avulso

Talvez

Janeiro 10, 2018

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Naquela manhã, o sol resolveu lamber a terra com outra cor. Notei logo, ainda deitada na cama, olhando para a nesga de sol que aos poucos me entrou no quarto rasgando o mundo em dois.

 

Há luzes que rasgam o escuro, sabes?

 

Olho lentamente à volta. Tudo igual a ontem, graças a Deus.

 

Penso muitas vezes na repetição das coisas, e aí sou invadida por uma angústia miudinha e impertinente, que me devora a alma em medos e monstros. Nem sempre tenho força para segurar a rédea que lhe ponho, às vezes cedo, largo as rédeas aos meus monstros, que se foda, agora comam-se vivos.

 

Levanto-me, abro as cortinas, e a nesga de sol desaba-me, quebra-me, parte-me em onda de luz.

Lembro-me do nada da minha avó.

 

Às vezes penso de que são feitas as memórias... Decidi que não são filmes, nem fotografias, nem se quer quadros do que passou. São antes um soberbo e empoeirado livro, cheio de palavras que fazem guerras e amor.

 

- Oh avó é feliz?

- Talvez, querida, talvez...

 

Respondia-me sempre a tudo com um talvez, sábia senhora,

 

- Tem fome avó?

- Talvez, querida, talvez.

 

Quando era miúda sentia-me desamparada com esta resposta que deixa em aberto todas as possibilidades do mundo.

Agora, feitas as contas à vida que fui somando, acho que a entendo.

 

Talvez, sim. Talvez a entenda.

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