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Monstros de dentro

por Ana sem saltos, em 11.06.18

- Conta-me, podes contar.

- Não sei se consigo, o problema é esse.

 

Bebíamos cerveja pelo gargalo, sentadas na areia da praia. Frio gélido e húmido, daqueles que entra corpo adentro, acorda-nos a alma num estalo.

Silêncio de mundo bonito, não há música mais bonita do que a que canta o mundo sem nós. E eu entrego-me apenas ao som da natureza bruta no estrondo das ondas. E ali só nós duas, choro profundo dentro de mim, e a voz dela ao meu lado abrindo portas,

Podes contar-me.

 

O problema do mundo instantâneo e partilhado em que vivemos, da beleza e perfeição espelhada nos likes e loves dos outros, online e offline, é que se criam monstros soberbos dentro das pessoas.

Ficamos ilhas afogadas na solidão de milhões de oceanos vazios de mar.

Então disse-lhe baixinho, enfiando o nó mais lá para o fundo de mim com um golo grande de cerveja,

 

- Tenho um monstro dentro de mim.

 

Ela não me ouviu. Rebentou o sete furioso à nossa frente. Embrulhamos as duas as pernas na manta, cheiramos de olhos fechados o pulverizar das lágrimas do mar à nossa frente.

Deixei o monstro cá dentro. Tranquei-o de novo, encostei a minha cabeça no ombro dela e disse-lhe,

 

- Está tudo bem. Está tudo bem querida amiga.

 

Ela encostou a cabeça na minha e respondeu,

 

- Está certo. Vou fingir que acredito. Bebe sua mula, quando quiseres chorar avisa.

 

Sorrio por dentro.

A solidão acompanhada sabe a mar zangado.

Está tudo certo. Está tudo certíssimo.

 

(sobre músicas que são histórias. E neste caso, clássicos que cantam sobre silêncios que crescem como cancro. Em memória dos Bourdains desta vida, que vivem com monstros às escondidas do mundo)

 

 

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Horizontes

por Ana sem saltos, em 06.06.18

- Éramos uns miúdos, lembras-te?

Sorris olhando o horizonte ao fundo. O horizonte rasgando o mundo em dois: o mar que existe porque se sente no mergulho, e o ar que se imagina porque não se vê. E o teu sorriso continua tão bonito.

- Lembro-me sim.

E como o horizonte rasga o mundo em dois, o que existe e o que se respira, também nós nos rasgamos, algures na vida que andou. A sobreposição dos segundos em histórias sempre me apaixonou e apavorou.

- Éramos um lembras-te?

E o teu sorriso desfaz-se, como floco de neve na minha mão. E no horizonte, ao fundo, o sol mergulha escaldante, despede-se da metade do mundo que tem sonhos, para mergulhar ma metade que tem cor e sabor.

- Ás vezes não sei se és fria, ou se simplesmente não és deste mundo, juro.

Olho-te a cara que não me olha e percebo a faca que enterras no meu

nosso

coração.

Dói de morte, dói tanto, dor lancinante que se propaga em ondas por toda eu. Dor que assumo, que é minha por direito, conquistei-a sozinha.

E então faço o que sempre fiz quando o mundo me esmaga, e eu sou pequena demais para a alma que há em mim. Desfaço-a em mar e liberto-a de mim.

Continuas olhando em frente, parece que ainda consegues ver um sol que já se despediu. E eu apaixono-me perdidamente por ti outra vez.

Agarras a minha mão com a esperança do sol ao fundo. Procuras-me no limbo da luz que já se foi, do escuro que ainda não chegou.

E eu choro a vida, choro o sol, choro o mar.

E tu, limpas-me as lágrimas sem me olhar.

 

Vida rasgada ao meio, como o mundo feito em duas metades.

Aquela que sonhamos e respiramos, e aquela que existe, e que, ainda que seja fria

gélida, tão gélida que dói,

é nela que mergulhamos.

 

 

(soubre músicas que são histórias)

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