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Histórias avulso

Reescrever - Eça de Queirós. Parte I

Janeiro 18, 2019

Agora que penso bem, lembro-me que foi no Minho que conheci Raul Cardoso. Na
estalagem velha do centro da vila, para ser mais exato. Homem nem alto, nem baixo,
cabelo grisalho apesar de parecer novo, ou, pelo menos, mais novo do que a idade
que deveria ter. Mas tinha umas olheiras marcadas, cinzentas e fundas, ali bem
desenhadas, como se fossem a moldura de um quadro sorridente mas triste. Usava
uma barba bem aparada, também ela a despontar cinzento. Todo bem-posto dentro do
seu fato cinzento, olhava a horas no relógio de pulso algumas 3 vezes a cada 4
minutos. Cada vez que puxava o pulso para perto dos olhos para se certificar que
passara cerca de um minuto e meio desde a última vez, eu espantava-me com
aquelas mãos, pálidas e com dedos finos e compridos. Mãos quase tão belas como as
de uma donzela pianista.
Ora e isto era setembro. E setembro, no Norte, cheira a vindíma. No Minho, para além
do cheiro a uva, sente-se nas narinas o sal do mar. Os dias ainda são mornos, já não
se sufoca com o braseiro de verão, mas as manhãs declaram-se já bem frescas.
A viagem até ao cume de Portugal é uma prova dos diabos à resistência de um
homem. Horas e horas com curvas e contra curvas, em estradas e estradinhas, apesar
de ser um verdadeiro repasto para a alma de qualquer apreciador de vida, com um
extenso panorama de paisagens até lá se chegar. Tinha o estômago colado nas
costas, e os braços e as pernas padeciam exaustos de tanto tempo inertes. Os olhos,
esses, ardiam-me de forma feroz, depois de devorarem sofregamente mil e uma
paisagens. Já tinha desistido de me deliciar com aquelas vistas quando me deparo
com um velho convento abandonado, ali padecendo de abandono à beira da estrada.
As ruínas daquele antigo albergue de devotos de cristo ali plantado, sem almas para
lhe encher as paredes de rezas, fazem despontar no peito uma memória milenar de
algo que nunca chegou a acontecer. Vejo-me de repente, ali mexendo as terras
vestido de monge, procurando batatas e fé debaixo das pedras.
O sol já se começa a pôr mais cedo, fazendo prever a nostalgia dos dias pequenos de
inverno. E com a sua partida, cai um manto de orvalho por cima daquelas terras,
humedecendo as ervas e as folhas caídas. Agora, para além de uva e mar, cheira
também a terra recém regada.
Na estalagem jantamos os dois, eu e o Raul Cardoso. Eu, procurando satisfazer uma
fome antiga, depois de tamanha viagem, de comida e de conversa, e ele francamente
entretido com a novidade de uma companhia ao jantar. Enquanto molho os cubos de
carne estufada no molho, pergunto-lhe se é do Porto.
_ Sou do Porto sim, vejo que o meu sotaque me denuncia descaradamente!
_ Ah, o Porto. Bela cidade, lindíssimas mulheres!
A frase entra de rompante entre nós, interrompendo uma conversa casual e
moderadamente alegre. O meu companheiro de jantar perde nesse momento o sorriso
bem-disposto dos lábios, e encarna, momentaneamente, a figura de uma estátua
antiga cristalizada algures no tempo.
_ Sempre que lá vou faço sempre questão de visitar a sé, lindíssima a vossa sé. E
claro, passear a pé no porto é uma franca e asseadíssima lavagem das vistas.
Enfio neste momento a última garfada do estufado na boca. Termino o meu jantar
alguns minutos depois do Raul, que só então de se retira da sala de jantar desejando-
me uma boa estadia.

 

(Quem conta um conto aumenta um ponto)

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