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Histórias avulso

Sinfonia de grito

Dezembro 18, 2017

Abre a janela do quarto. A noite caiu, já, escura e profunda, em onda de luz que se apaga. Entra em rio o frio janela a dentro,

 

alma a dentro,

 

inundando, promiscuamente, o quarto.

 

Há quanto tempo não te ouves?

 

No preto da noite, na casa, no quarto, ela senta-se no chão olhando o céu emoldurado na janela. Ao fundo as estrelas contam-lhe histórias. Ao fundo o mundo, alheio a si e às suas vontades

 

que vontades?

 

acontece. A vida e os dias, o amor e o calor, a terra que gira, o mar que sobe e vaza. Acontece tudo, numa sequência maravilhosamente drástica, excluindo, quase propositadamente, aquele canto de si que parou. Parou estagnando os segundos, parou parando-lhe a alma

 

parada?

 

Estagnada. Quieta. Irremediavelmente quieta.

Olha as mãos, antigas e sabidas, conta as manchas que lhe falam do tempo que passou. Beija os dedos, um por um, lambe-os, por fim, numa procura inglória de se amar a si mesma.

A vida passa, e é bruta e brutal no seu comando. Avança mesmo que caias. Corre mesmo que peças que pare.

E lá fora a noite imponente, impondo-se, também, indiferente, ao seu desejo de luz.

O frio de fora, reflexo de dentro, é então lambido por uma chuva que cai pequenina e miúda, limpando o ar e o chão e o céu e o mundo. Cai, cantando-lhe em breve sonata,

 

Ergue-te senhora.

 

E ela ergue-se, altiva na sua perfeita imperfeição, antiga, tão antiga na sua meninez.

 

Lava-te.

 

Abre os olhos.  Ignora as dores e desamores, sobe a janela, e sai, mergulhando na música da chuva. Sente a lama nos pés descalços. Sente a água, que primeiro lhe toca em jeito tímido que primeiras núpcias, para logo depois a inundar sem aviso nem permissão. Cai de joelhos no chão, confusa com a água quente que liberta de dentro, e mergulha as mãos na lama, bem fundo naquela terra impregnada de água, rebentando de vida.

E chora sorrindo o céu, e chora chorando a senhora, numa canção perdidamente intima.

 

Lava-me céu. Lava-me de mim. O tempo não é meu e eu já me perdi.

 

Mas o céu, como o tempo e o mundo e a vida, ignora-lhe o pedido e para, causticamente, de chorar. E então ela ergue-se, de punhos cerrados, zangada com a nuvem que lhe mora por dentro e que se atreveu a parar de chorar por fora, e grita. Grita alto e de forma contínua, grita zangada, grita desesperada. Sai-lhe a voz em jorro de alma, sai-lhe com a força de um ventre que expulsa vida, sai-lhe da boca a sua história, os segundos, a culpa, a vida que viveu mas não bebeu.

 

Tive filhos, tive amor, tive vida, terra e calor. Tive medo, tive saúde, tive dúvidas e tive certezas. Tive tudo, tive até o tempo, mas eis-me aqui, de joelhos no chão, enlameada, suja, velha e gelada, porque o que nunca soube ter, dar e receber foi o perdão.

 

 

E então o céu chora de novo, em milhões de cascatas brutas de água, em estrondos de raios e trovões, acompanhando-lhe a sinceridade da sua sinfonia de grito.

Mostrando-lhe que não está sozinho aquele que se consegue,

finalmente,

desculpar.

2 comentários

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    Ana sem saltos 19.12.2017

    Obrigada J.campião. Muito feliz por saber isso!
  • Comentar:

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