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Portas

por Ana sem saltos, em 13.07.18

Sai de casa. Mesma hora, mesma rota, mesmo destino. Sai trazendo consigo a lista de afazeres, tudo pensado e cronometrado, tudo apontado ao mais infimo pormenor na cabeça.

Ah, vida badalada, prevista, ritmada,

dois passos, vira à esquerda, dá mais doze… talvez treze, avança, põe já a mão na carteira, antecipa os segundos, terei trazido as chaves, sim, ei-las aqui, abre a porta do carro.

Senta-te.

Respira.

Olha-se no espelho retrovisor, retângulo perfeito que lhe enquadra os olhos.

Podias ser um quadro, trancado para sempre nas pinceladas de um alguém apaixonado.

E na garganta aperta-se meia tonelada de alma. Tudo controlado. Cabe lá ainda mais meia.

Mão nas mudanças, pé na embraiagem, primeira, arranca.

Caminho que se estende na frente, estrada em baixo, coisas dos lados, céu em cima. E está tudo perfeito, o ar entra e sai, conforme dita a regra, e os metros a ficarem para trás, transformando-se em quilómetros e horas, tudo alinhado na conjugação perfeita do verbo ser.

Ser naquela alma enlatada numa garganta sufocante e, ainda assim, grande de mais.

E então a cabeça a manda-la seguir em frente, mas os braços ganhando vida própria inclinando o volante para a direita. Num ápice já não está na rota, virou, e o rumo é novo.

E o coração dispara na expectativa de um novo destino. Dispara também o alarme dentro de si, nada está programado, nada foi pensado, nada é igual ao que foi no ontem, que precede o anteontem, que precede o antes de anteontem.

Acelera na emoção assustada do desconhecido. Sente uma satisfação absoluta no medo. E a alma perdida ali, algures entre a traqueia e o esófago, mistura de vómito e ar, libertando-se, sem pudor, pelos poros.

Para o carro e olha a janela da pequena casa à sua frente. Há muito que sonhava com aquela precisa janela, e toda a história encerrada por de trás daquelas precisas paredes.

Abre a porta do carro e sai. Volta a regrar os passos, procura em desespero um porto seguro, algo que possa dominar, prever, regrar.

Eleva a perna esquerda,

isso,

pousa,

agora faz o mesmo à direita.

Respira por favor.

Isso.

Avança.

E de repente a porta abre-se e o mundo para, congelando um inteiro infinito num só segundo.

E ela relembra-lhe as mãos, os olhos, o riso, a voz. Mergulha de cabeça num passado que nunca viveu, atira-se para a frente num amor que nunca foi. Engole o coração em estrondo no peito, ajoelha-se no chão, atira a cara nas mãos em concha. Como se quisesse toda ela caber ali, entre duas mãos que a escondem do mundo.

_ Posso ajuda-la?

A voz.

Acalma-se. Retira-se do mundo encerrado nas palmas e lança o olhar ao mundo do lado de fora de si.

A voz.

Ele olha-a com um pé ainda dentro de casa, mistura de curiosidade e susto na imagem que se projeta à sua frente.

_ Não, nada, peço desculpa, eu, bem, achava que era aqui, enganei-me,

Controla-te.

Sacode os joelhos com as mãos, e constrói um imenso e bonito sorriso.

_ Peço desculpa. Enganei-me no destino.

Ele vira as costas para fechar a porta. Ela relembra-lhe os braços que nunca abraçou. Relembra o calor que nunca sentiu. E a alma de novo grande de mais.

_ Acha que podia fazer-me apenas um favor?

Ele volta-se de novo e olha-a de frente sorrindo, oferecendo-lhe a brecha necessária para ela poder entrar.

_ Acha que me pode amar para sempre?

Ele desmancha o sorriso, coloca-se todo dentro de casa, do lado de lá das paredes que ela criou mas nunca visitou, e, num estrondo, fecha-lhe a porta

e os sonhos,

na cara.

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2 comentários

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De Piaf a 13.07.2018 às 17:11

Vicio em forma de letras.
Parabéns Ana!
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De Ana sem saltos a 16.07.2018 às 08:31

😊 obrigada piaf!

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