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Histórias avulso

Mentira

Novembro 21, 2018

Passaram-se muito anos. O presente mostra-se, implacável, como réplica barata do que foi sonhado no passado. Tem a casa, a família, o nome, o estatuto. Já não tem mulher.

Já não tenho mulher.

Levanta-se do cadeirão da sala, esperguiça-se. Os músculos, cansado e mirrados, erguem-se, um a um, das costas soa um estalo. Dirige-se à cozinha e serve-se de um copo de água. Bebe toda de um trago. Faltam poucos minutos para todos chegarem. A mesa está posta com requinte: os talheres de prata antiga e robusta reluzindo, os copos de cristal milimetricamente colocados em frente aos pratos, estes de fina porcelada e debroados a ouro. Tomba das beiras da mesa uma enorme toalha de linho creme, impecavelmente engomada.

Volta para a sala e senta-se no cadeirão. Tem na garganta uma comichão persistente, a água não ajudou a secar a angústia de dentro. Mas chegou o momento, ele sabe. 

Nunca é tarde de mais para repor a verdade.

Abre o seu diário antigo, toca com as pontas dos dedos as folhas de papel. Escritas, rescritas, lambidas, choradas.  

Quis tudo e agora sou um valente nada.

Frases e frases contendo a memória da culpa, sombra omnipresente numa vida tão bonita de se ver de fora.

Sorri de escárnio de si mesmo. 

Rídiculo. Sou rídiculo.

A porta abre e os filhos entram um a um. 

_ Como vai pai?

Beijam a testa do pai, instalam-se na sala trazendo consigo um caos familiar e morno. Da sua cadeira ele observa a fotografia da sua vida, ali posta em mais duas gerações. Homens e mulheres feitos, já erguidos ao estatuto de pais e mães, falando, sorrindo, abraçando, contando. Ele vai respondendo, um a um, às questões que lhe vão fazendo.

Sim tem-se aguentado bem sozinho. Sim a tensão baixou. Sim tem dormido razoavelmente.

Mais um pequeno amontoado de mentiras, a darem mais volume à mentira mãe que lhe habita no peito, na lágrima, na história, na carne.

_ Vamos para a mesa?

E vão, sentam-se todos na enorme mesa da casa de jantar. Ele observa o seu legado todo junto, e não deixa de sentir uma ternura grande por de trás da camada triste que lhe cobre o coração .

A refeição toma-se demoradamente. Há brindes e risos, há histórias passadas, há uma intimidade que ele, por mais que tente, não consegue fazer parte. Excluído do seu prórprio projeto de vida. 

Terminada a sobremesa, levanta-se a custo do seu lugar. Apoia as mãos na mesa e olha os filhos, um por um. Estes, percebendo a postura do pai, vão-se calando, um por um. E ele, uma por uma, começa a cuspir palavras.

_ Chamei-vos aqui para vos falar de um crime que cometi.

Eles sorriem primeiro. Esperam um discurso inflamado de humor e ironia do pai, era bom senti-lo de volta.

_ A vossa mãe morreu, e fui eu que a matei. 

O sorriso derrete. O silêncio entra de rompante, ignorando a ausência de convite.

_ Matei-a sim, eu mesmo, matei a vossa mãe de desgosto. Encobri uma mentira toda uma vida. Encobri-a por cobardia, cometi-a por fraqueza de coração, quando, num dado momento da nossa vida, amei outra mulher para além dela. Todos os dias pensei em contar-lhe. Todos os dias deixei escapar o momento. Por medo, por insegurança, por culpa, por cobardia. Sou um cobarde, meus filhos, e agora, para além de cobarde, sou também assassino do grande amor da minha vida.

Os filhos já não olham o pai. Olham para os copos, para a janela, para o colo. Ao fundo, a filha mais nova chora.

E ele, volta a sentar-se, erguendo o copo em jeito de brinde,

_ Ao cobarde e grandessíssimo filho da puta do vosso pai,

Bebe um golo de vinho, pousa o copo, tira do bolso uma pistola antiga, pequena, e de cabo de marfim. Encosta o cano na tempora esquerda,

_ Pai!

e, depois de fechar os olhos espremendo para fora de si duas grossas e pesadas lágrimas, faz pressão com o indicador, 

e dispara.

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