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Histórias avulso

Frio é falta de (D)deus

Janeiro 12, 2018

Há poesia nos recantos mais escondidos do mundo. Há poesia cantada, roçada em silêncio, em sonho moles e mornos, há tanta coisa escondida, ali, mesmo em frente aos teus olhos. Vês, querida? É aí que está Deus.

 

Sento-me, em frente ao fogo da minha lareira, e fecho os olhos. Preciso mesmo de saber o laranja das labaredas, preciso, mais do que tudo na vida, saber a que sabe a cor do fogo.

A escuridão, muitas vezes, é a única forma de ver, e quando só há um caminho possível, as coisas tornam-se irremediáveis.

Mas, por mais densa e negra que seja a minha escuridão, o laranja não se deixa provar. E, então, sinto na espinha uma espécie de golpe de frio,

e, então, outra vez, todo o ar do mundo não me chega para meio pulmão.

Levanto-me, subo as escadas, para ver a minha neta dormir. Bonita menina cigana, que me questiona tudo e não se satisfaz com respostas óbvias. Sinto uma melancolia milenar nos ossos, sei que o tempo é inevitável e os segundos vão fazê-la adulta.

Entalo-lhe as cobertas, mesmo sabendo que ela se voltará a destapar e abraçar o cobertor com as pernas.

Saio do quarto, volto a descer, encho o copo de vinho. Bebo de um trago, até sentir o calor da euforia na garganta. Encaro novamente o fogo de frente, mas tenho medo de fechar os olhos.

Queima-me, arde-me por dentro, mas tenho tanto frio. A velhice é gélida, e, há milhares de anos atrás, quando eu era criança por dentro e por fora, a minha avó dizia-me que o frio é a melhor explicação para a falta de fé.

A minha maior tristeza é a minha falta de inspiração. E todos sabemos que a inspiração inventa a fé, e sabe fazer  a chuva cantar poesia.

O tempo passou e agora sou menos que velho, reduzido a existência sem criança. Afogou-se, creio.

 

Mentira. Ah, que enorme mentira que sou.

 

Repugno-me, mas não posso morrer, porque há uma outra criança lá em cima, que dorme confiando na minha explicação de Deus.

E, no entanto, se eu fosse Deus... ah! faria, certamente, melhor. Faria, sem duvida, muito melhor.

Atiro o copo ao fogo, e bebo tudo diretamente do gargalo. 

A existência cansa-me, estoira-me, mata-me, mas o frio não me deixa morrer, e muito menos dormir.

 

sobre músicas que são histórias 

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