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Histórias avulso

Fome

Abril 12, 2018

Eis-me aqui sentada no cume do sonho, linha ao fundo que se estende até o fim que eu quiser.

Aqui sou rainha sem trono do meu destino.

E agora? Faço o quê?

Ignoro os sinais do tempo que me atravessam e rasgam, não a carne, honestamente, e perdoem-me a bestialidade, que se foda a carne.

É a alma que me atormenta, é dela que vivo, que respiro, a cima de tudo, é-me tão palpável,

a alma bruta que há em mim,

que posso toca-la, trinca-la, mordê-la. É alma aquilo que sou, e este é o grande tormento dos meus pesadelos.

Então agora, aqui sentada no topo do mundo feita onda no mar, destino ao fundo acenando-me em vénia, elevo as mãos no ar, agarro com força o céu inteiro, e engulo-o.

Assim.

Todo por inteiro num só trago.

Nesta era que vivemos, tão rápida e instantânea, tão fora de prazo findo o segundo, preciso imensamente de um pouco de céu. E como não sou de meias medidas, agarro-o com as minhas duas mãos e tomo-o todo,

num só enorme beijo

para mim.

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