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Histórias avulso

Excertos (II)

Fevereiro 17, 2019

_ Estás bem Maria?

Estamos os dois sentados no terraço de casa. O sol põe-se ao longe nas montanhas, oferecendo ao ar e às coisas um tom morno e suave de acolhimento. As andorinhas esvoaçam pelo ar, em bando, devorando pequenos insetos que se juntam no topo do lago. As rãs começam a desbravar os sons noturnos, tímida e lentamente. Lá dentro a nossa filha dorme uma sesta tardia.

Estendo-lhe o copo pedindo mais um pouco de vinho branco. Depenico uma azeitona.

_ É bom ter-te de volta querido.

Dou mais um golo de vinho. Encho o peito dos odores desse fim de dia morno de primavera, do cheiro frutado do vinho fresco. A minha cabeça rodopia num frenesim imparável de palavras, sensações, tudo povoado pela saudade e pelo medo.

_ Conta-me sobre África,

Digo-lhe por fim.

Ele serve-se também de mais um pouco de vinho. Cruza a perna e encosta-se para trás fechando os olhos. Observo-o demoradamente. Vinha mais forte das terras africanas, e a pele estalava ainda o sol daquele continente. Trazia também consigo uma calma invejável. Estou certa do amor profundo que sinto por aquele homem, mas atravessa-me como raio cortante uma sensação de dever.

_ África tem o teu cheiro, minha princesa gladiadora. Mas faltaste-me tu. Diz-me primeiro se estás bem.

Pousa um melro no muro ao fundo do jardim, canta-nos alto, sobrepondo o seu canto a todos os outros sons.

_ Não sei se estou. Não sei se estou.

A voz treme-me, não a controlo, quero parecer límpida e segura, quero fazer o correto, mas a voz treme denunciando-me, a voz treme apesar do vinho, da calma, do ar ameno, das andorinhas no ar, dele finamente de volta, disposto a ouvir-me.

Ele desencosta-se da cadeira, inclina-se para a frente para mais perto de mim. Agarra-me as duas mãos, leva-as à boca, e beija-as olhando-me nos olhos. Não resisto à verdade do seu olhar e baixo o meu, e fixando-o nas nossas quatro mãos enlaçadas.

_ Eu sei que não estás.

Levanta-se e puxa-me para si. Toma-me nos braços e abraça-me com força, muita força, como se me quisesse tomar por inteiro para dentro de si, como se me quisesse devorar todas as dores. Eu fico primeiro tensa no abraço,

a minha dor seria a sua dor, seria a sua grande dor, e ficam coisas por dizer, ficam sempre coisas por dizer,

mas derreto por fim, languida e mole nos seus braços, deixo-me embalar, deixo-me cheirar, deixo-me provar, ainda que por dentro, me grite estridente,

Tive medo de não te amar, mas não é desamor, não é desamor, meu amor.

Ele não me ouve a voz de dentro, mas sente-me o desarmar, pressente-me a súplica do corpo e da mudez na boca e encosta o nariz na curva do meu pescoço. Murmura-me baixinho que cheiro a flor e a mar, que cheiro a saudade imensa, que cheiro a mim sendo sua.

Entramos os dois em casa, ele guia-me pela mão. Eu deixo-me levar, na valsa do momento. Conto os passos, calando a voz de dentro,

Fala.

Conto-os,

um, dois, três,

não me permito pensamentos, quero ser só sentimento. Não o mereço, mas quero-o com desespero, e por isso conto os passos,

quatro, cinco, seis,

que me levam para o quarto, que me erguem e a estendem na cama, que me despem, peça a peça, lágrima a lágrima, medo a medo,

e deixo-me amar.

Amo e deixo-me amar, desmoronando inteira num desejo chorado, numa voz calada de palavras, ali apenas soluçada e suspirada.

Deixo o desmerecimento para depois, há um bem-querer

egoísta e forte de mais

que me mora naquele agora.

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