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Histórias avulso

Excertos

Fevereiro 12, 2019

_ Vamos lá ver o sorriso mais bonito deste hospital! Bom dia, veja quem chegou para o ver!

Cheiro decrépito e peganhento a éter, medo e fé.

Olho-o na cama e lembro-me de um preciso momento, tantas décadas passadas. Já não está ali, como eu não estou aqui, sei que ele me expia por de trás do enorme jornal. Ali sentado na sua poltrona, eu sei que ele me olha enquanto eu, em vão, tento ler o meu livro. Nietzche, desta vez. Procuro em desespero uma razão para tantas outras razões, encharco-me inteira de dúvidas. Ele já não folheia há tempo de mais. Que lerá ele em mim, aqui lendo deitada no chão?

Gott is tot, diz-me o livro.

E ele olhando-me de soslaio por cimas das letras do jornal. Mas Deus não pode estar morto. Decido naquele momento que Deus não pode estar morto, interrompo-lhe o voyerismo, interrompo a minha existência em crise, interrompo o meu mundo inteiro,

Gott is tot,

e decreto-lhe suavemente procurando amainar a tempestade que me habita:

É verdade querido.

Estou grávida.

Ele já não finge ler o jornal, e eu sinto o assassinato de Deus algures no peito, mas, em oposto, a vida pulsando no meu ventre.

Agora sou eu que o espio. Espio-lhe o sono e os sonhos, espio-lhe a vida e impeço-a de me deixar. O meu egoísmo latente até ao último momento. Tenho ainda coisas para dizer.

As máquinas ensurdecedoras contam batimentos e segundos. Marcando a inevitabilidade das coisas e da vida,

da morte,

da tristeza do fim que se prevê perante qualquer início.

O peito dele, outrora forte e saudável, está agora mirrado e pequenino, como o de um passarinho acabado de nascer, respirando tão leve que o movimento

cima, baixo, cima, baixo, ritmo lento da música que faz girar o mundo,

passa impercetível ao comum dos mortais.

Beijo-o na testa. Está tão fria.

Devagar ele abre os olhos e vê-me.

_ Bom dia meu amor – diz-me sorrindo.

_ Chiu. Não fales homem, tens de te poupar,

tens de me poupar.

Ele sorri e fecha novamente os olhos. Sempre me obedecera, chama-me princesa gladiadora. O sono vem então, leve e fugaz, como sombra de presságio que se sente sem se ver. E ele mergulha nele uma vez mais, esgotando os segundos e o ar. Eu ignoro a minha idade e as minhas dores, e ali fico de pé expurgando medos e culpas, de pé ao seu lado, presa à réstia de vida que ainda lhe sai das mãos.

Agarro-lhe os dedos, fecho os olhos, e lentamente mergulho dentro de mim, naquele canto onde mora a esperança e o medo,

tão velhinha e frágil,

tão forte e gigante,

nas palavras que digo como mantra,

_ Avé maria, cheia de graça…

E o hospital inteiro para naquele momento, numa prece que se junta acima do ar, a outras tantas mil preces, de quem pede e promete, jura e suplica, crente e cego pelo pavor da perda,

de um marido, de um filho, de um sonho, de uma vida.

Até a enfermeira, já não sei qual delas, me tocar no ombro,

_ O tempo acabou minha senhora,

E eu lá me conformar com isto do tempo,

ah o tempo,

acabar todos os dias.

Bem sei que o tempo se esgota, e é, no entanto, um projeto inacabado de um qualquer deus morto cedo demais.

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