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Histórias avulso

Dona Rosa

Janeiro 16, 2018

“Larga de ser miolo minino, vai brincar!”

Eu teria poucos anos, a julgar pela forma como me vejo sentado na cozinha, olhando hipnotizado para a Dona Rosa a descascar batatas.
A cozinha da minha infância é enorme. As bancadas de mármore eram inatingíveis e continham segredos doces e picantes, sonhos imensos, ali, temperados às mãos sábias de Dona Rosa.

E eu, era menino mesmo, e ansiava pelo tamanho de as poder ver,
[as bancadas e as mãos que lhes davam magia]
bastando para isso olhar.
Mas não podia, não tinha tamanho suficiente para dar liberdade ao meu olhar, e havia a Dona Rosa, guardiã dos segredos e especiarias, sempre com algum tacho ao lume, e uma colher na mão.

Mulher imensa em carnes e coração, que me gritava de tempos a tempos: “vai, xô, larga de ser miolo minino, vai brincar!”

Por mais que tentasse eu entender o que quereria Dona Rosa dizer com isto, imaginando-me, apavorado, em forma de miolo de noz, largado naquele imenso balcão, foi preciso ter altura suficiente para descobrir que não havia segredo algum naquele velho balcão,

[ah triste e irremediável virar de segundo, em que percebemos que o olhar é o assassino do ver,]

para perceber o que me dizia a mais sábia analfabeta, dona dos meus sonhos de criança, minha boa Dona Rosa.

“Larga de ser miolo menino vai brincar!”

Pena presente virar passado, e eu já não ser mais minino que sonha com os mistérios da bancada de cozinha,
[afinal é só um pequeno e velho balcão]
pena já se ter ido a Dona Rosa da história da minha vida.

Haveria de lhe dizer, lá no tom quente das selvas brasileiras dela:

Deixa de ser besta mulher. Nunca fui miolo não, eu sou mesmo é coração.

2 comentários

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    Ana sem saltos 17.01.2018

    :)
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