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Histórias avulso

Desilusões

Junho 18, 2019

_ Porque chora menina?

Assusto-me com a voz afável do velho pescador. O susto vem pela quebra do loop em que me encontro, ali sentada na areia molhada, decidida a verter todo o meu sal no mar.

Que não se desperdice mais nada em mim.

_ Assustei-a, desculpe.

Ele olha diretamente para o mar, acende uma ponta de um cigarro, e atira a linha bem para longe, para depois da rebentação. Depois senta-se ao meu lado esperando o puxão da linha.

Incomoda-me um pouco a leveza com que ele se aproxima de mim, ainda para mais sabendo-me... só. Limpo as lágrimas da cara e procuro algo na carteira para quebrar o desconforto.

Acabo por desistir e abraço os meus joelhos olhando também o mar. Depressa me esqueço de mim mesma, deste enorme embaraço que trago por dentro, das razões que me levam a não gostar mais de mim. Quero muito ver um grande robalo roubado ao meu sal.

_ Muitos acham que o segredo da pesca é o isco.

Eu nada sei de pesca, nem de iscos, nem de segredos. Segredos de pesca. Não lhe respondo uma vez mais, deixo o mar fazer o seu trabalho na oferenda de um sacrifício ao homem. 

_ Mas não é menina. O segredo da pesca é o silêncio e a paciência. Só assim ouvimos o mar.

Aceno-lhe que sim com a cabeça e sinto novamente vontade de chorar, mas há um pudor grande em verter lágrimas ao lado de estranhos. Mais pudor houvesse em verter dor em corações alheios.

De repente o fio estica muito e ele levanta-se de um salto, parece uma jovem bailarina no corpo de um lobo do mar. Morde a beata do cigarro, e franze o sobrolho lutando com perícia contra o desespero da fuga. Mantenho-me imóvel, quase sustenho a respiração, observando a luta entre quem quer fugir e quem tem a arte de não o deixar fazer. Quando a linha mostra finalmente o início, deparamos-nos os dois com um enorme emaranhado de algas, parece que acabamos de decapitar a bruxa do mar. Vejo-lhe a desilusão por detrás do sorriso debaixo do bigode.

E então volto mesmo a chorar.

Ele nada me diz, desembaraçando a linha e retirando aquele amontoado de algas. Não consegue salvar o anzol.

_ Acho que apenas choramos por desilusão. - digo-lhe entre soluços.

Ele coloca um novo anzol na linha, retira de uma pequena embalagem uma minhoca ainda viva, e enterra-a cruelmente na ponta afiada. Antes de voltar a lançar a linha ao mar, levanta-se, e diz-me olhando-me pela primeira vez.

_ A desilusão não existe menina, isso é crença de gente fraca.

Sinto-me ofendida, agora. Acabei de o ver desiludido com o mar, quem se julga aquele velho para me chamar de fraca? 

Levanto-me sacudindo a areia das pernas.

Ele lança novamente a linha para depois da rebentação.

_ Só se desilude o burro que espera que sejam os outros a dar-lhe o que ele não consegue lutar para si.

A linha estica, desta vez foi bastante rápido. Ele puxa com destreza, enrolando rápido o carreto. Da linha de água sai um enorme sargo contorcendo-se no desespero de quem luta pela vida. Ele enterra bem a cana na areia e uma vez elevado no ar o grande peixe, aproxima-se dele e retira-o com uma delicadeza inesperada da armadilha.

Depois beija-lhe as escamas e lança-o novamente ao mar. 

Levanto-me e vou-me embora virando costas ao mar. Estou assumidamente farta de pescar as minhas próprias desilusões.

 

pescador.jpg

 

 

 

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