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Conversas de dentro

por Ana sem saltos, em 10.05.18

- Encontrei-te no fim da linha, lembras-te?

- Lembro sim.

 

Fins de tarde que pedem conversa à desgarrada,  tertúlias mornas de palavras soltas. E as memórias que nos abraçam forte, ali entre o corpo e o sonho.

Sorris-me de frente, e enches-me o copo de vinho.

Bebo um golo grande.

Quero vinho, sol em despedida, e um beijo teu.

 

- A vida fez-te mais bonita, sabes?

Sorrio-te de volta. Ainda sinto embaraço de menina com a tua ousadia.

- Vejo que a ti a vida fez-te mais destemido.

- E isso é bom ou mau?

 

Passa um bando de andorinhas. E o vinho escorrega quente dentro de mim.

 

- Diria que é bom, sim.

 

Sorris-me de novo.

 

- E conta-me princesa. Foste feliz?

 

Agora sorrio-te eu, e espanto-me com o teu baixar de olhos. Volto atrás em breves segundos e relembro a minha vida. Procuro-lhe a música e a cor, mordo com força os lábios para sentir o sabor das minhas memórias.

E o vinho escorrega quente em mim.

E naquele exato momento, faz sentido o medo e o sol e a vida.

Não consigo encontrar palavras ao que sinto, mas tenho vontade de chorar a sorrir, como quando olhamos pela primeira vez um primeiro filho acabado de sair de nós.

 

- Fui sim. Fui muito feliz.

 

Procuro no teu olhar a tua história. E ainda que julgues que te escondes, mesmo não sendo eu corajosa o suficiente para te perguntar, vejo-te inteiro. E a minha felicidade parece, de repente, névoa húmida de dia de verão.

Acabo o copo de vinho de um trago.

Decidimos sem palavras que a conversa vai continuar assim, na franqueza bruta sem as palavras faladas. E é então que começamos, finalmente, a falar. Estendes a mão e agarras a minha. O calor em fúria que sinto gela-me os dedos, deixo de saber as regras mais básicas da vida, e o ar deixa de entrar e de sair, está ali todo preso no meu peito. E então o mundo rebenta em mim e eu conto-te nas minhas milhões de lágrimas. Conto-te, conto-me, conto-nos, o que fomos, o que somos, e o que não seremos.

E como no mergulho quente na lembrança das minhas memórias, olho-te para dentro, choro-te por dentro, sorrindo-te,

todo tu, 

toda eu,

por, para e de dentro.

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6 comentários

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De A 3ª face a 10.05.2018 às 16:19

Uau!
Tão leve. Tão profundo!
E tão lindo
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De Piaf a 10.05.2018 às 21:35

Pela primeira vez à janela a olhar o céu a ouvir historias em melodia, acompanhado pelo que me aquece também em trago, assim fico...sem palavras. Ana escreve mesmo muito bem sinto que vivo as histórias e isso é muito bom! Uma vénia sem reservas.
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De Ana sem saltos a 11.05.2018 às 09:53

Feliz por isso Piaf. Esse é o meu desejo quando escrevo, fazer nascer e viver uma história em quem me lê. Obrigada!
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De António B. a 14.05.2018 às 13:18

Muito bom Ana. A cumplicidade entre as personagens revela-me uma lindíssima história que não chegou a ser. Parabéns pelos últimos textos.
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De Ana sem saltos a 15.05.2018 às 09:37

Muito obrigada António!

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