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Histórias avulso

Atos e omissões

Janeiro 24, 2018

- Traí-te.

 

Ela olhava-o esborrachada na frieza da conjugação daquele verbo. Depois ele falou e falou, mas devagar ela deixou de o ouvir observando-lhe o movimento dos lábios cuspindo palavras e palavras, tantas palavras.

Fica assim, imóvel, vendo o mundo e os segundos passar em câmara lenta, vendo-lhe a vida, de súbito, transformada num trambolhão.

 

Ele chora?

 

Chora sim, fala atabalhoado, pede-lhe a voz também, explica, suplica, justifica. Agarra-lhe com força a mão morta que padece inerte no colo.

 

E então ela vai-se embora, ainda encarnando enorme plateia à sua própria queda, e evapora daquele momento que é presente. Olha para trás daquele cenário dantesco que é ter metade da sua vida, história, alma e coração, falando-lhe da mentira. Está uma luz morna e bonita, que lhe pinta as lágrimas do marido em gotas de arco íris.

 

Presente mais que imperfeito, pintado nas setes cores que escondem tesouros. Mergulha de cabeça para dentro, onde a história é musica e tem juras e gemidos de amor.

 

Olha-o nos olhos. Ele já não fala entregue ao soluço sentido e arrependido.

 

- Eu perdoo-te.

 

Ele olha-a surpreendido. Mais do que o significado da palavra proferida, surpreende-o a voz que sai oposta ao olhar que não voltou.

 

- Perdoas?

 

Ela levanta-se, sacode o vestido com as mãos.

 

- Perdoo sim.

 

Então ela entra em casa, não anda, flutua rasgando o ar em pedaços. Olha as paredes, mais que paredes, olha a vida erguida tijolo a tijolo a quatro mãos. Roda sobre os calcanhares, faz uma vénia, e então, por onde passa, atira ao chão as molduras, os quadros, as velas, os recados de amor. Entra no quarto, abre o armário, e numa coreografia dramática e bonita,

 

que beleza é esta que pinta a tristeza em notas de música?

 

atira toda a vida em coisas pela janela, rasga os lençóis da cama, parte o espelho com o punho. Demora tempo a perceber que ele está à porta do quarto chorando de joelhos no chão. Demora tempo a perceber que lhe sangra a mão. Demora séculos espremidos em segundos a perceber que se desfaz em cinza o coração.

 

E então fala, finalmente conjugando lágrima e voz,

 

- Não me dói o beijo na boca, ou se quer a mão na mão. Dói-me o tempo e o espaço que não morei no teu coração.

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