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Danças para mim?

por Ana sem saltos, em 07.06.18

– Danças para mim?
Não sei se me lembro do que tenho de ser para voltar a amar-lhe a música. Mas tento, agarro a saia e enrolo o mundo na minha mão. E ele chora, vejo-lhe as lágrimas de macho ferido, e eu solto o cabelo como dantes, quando não sonhava com as garras imundas dos franquistas.
E a guitarra chora também, lamento quente que me embala, e eu danço, novamente, lavando a boca e as pernas das mil patas que me tentaram domar.
Sou cigana de alma indomável, e danço, amor, claro que danço. E tu, tocas para mim?

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Horizontes

por Ana sem saltos, em 06.06.18

- Éramos uns miúdos, lembras-te?

Sorris olhando o horizonte ao fundo. O horizonte rasgando o mundo em dois: o mar que existe porque se sente no mergulho, e o ar que se imagina porque não se vê. E o teu sorriso continua tão bonito.

- Lembro-me sim.

E como o horizonte rasga o mundo em dois, o que existe e o que se respira, também nós nos rasgamos, algures na vida que andou. A sobreposição dos segundos em histórias sempre me apaixonou e apavorou.

- Éramos um lembras-te?

E o teu sorriso desfaz-se, como floco de neve na minha mão. E no horizonte, ao fundo, o sol mergulha escaldante, despede-se da metade do mundo que tem sonhos, para mergulhar ma metade que tem cor e sabor.

- Ás vezes não sei se és fria, ou se simplesmente não és deste mundo, juro.

Olho-te a cara que não me olha e percebo a faca que enterras no meu

nosso

coração.

Dói de morte, dói tanto, dor lancinante que se propaga em ondas por toda eu. Dor que assumo, que é minha por direito, conquistei-a sozinha.

E então faço o que sempre fiz quando o mundo me esmaga, e eu sou pequena demais para a alma que há em mim. Desfaço-a em mar e liberto-a de mim.

Continuas olhando em frente, parece que ainda consegues ver um sol que já se despediu. E eu apaixono-me perdidamente por ti outra vez.

Agarras a minha mão com a esperança do sol ao fundo. Procuras-me no limbo da luz que já se foi, do escuro que ainda não chegou.

E eu choro a vida, choro o sol, choro o mar.

E tu, limpas-me as lágrimas sem me olhar.

 

Vida rasgada ao meio, como o mundo feito em duas metades.

Aquela que sonhamos e respiramos, e aquela que existe, e que, ainda que seja fria

gélida, tão gélida que dói,

é nela que mergulhamos.

 

 

(soubre músicas que são histórias)

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Vénus

por Ana sem saltos, em 30.05.18


A  verdade é que era apenas um dia de primavera, bonito e fresco como se faz prever a esperança brilhante desta meia estação, e eu, particularmente calmo nesse dia, esperava o meu café sentado na esplanada. A manhã era tão jovem e virgem ainda, prenuncio também ela de paixão desvairada e eterna. E eu, julgando-me sozinho a estrear a primeira chávena de café do dia, espantei-me com a súbita urgência,

vejo agora,

mil anos depois,

a maior que senti na vida,

quando obedeci à ordem de cá de dentro, mandatária e inevitável:

 

segue-a.

 

E eu levantei-me e segui-a.

 

Segui-a durante largos minutos e continuo sem saber explicar exatamente o que foi que me levou a seguir aquela mulher que passou voando por mim na esplanada. Talvez o abismo seco que senti na sua passagem, talvez o seu perfume, cheiro a mar e flor, talvez a brisa chorada que deixou para trás. Os passos que a levavam não pareciam rápidos. Aliás, olhando-a de trás, parecia apenas um anjo a levitar no ar, passeando calmo e indiferente à vida que passa matando segundos. Mas, eu, mero humano,  dei por mim sem ponta de ar, vendo-me a correr para conseguir acompanhar os passos daquela estranha mulher.

E se no início a tentei chamar,

 

Desculpe, menina, está tudo bem? Posso ajuda-la?

 

o tempo e o espaço, e o perfume a segredo embrenhado no ar, transformaram-me num enorme querer. E eu quis muito, quis tanto, passar a átomo invisível para descobrir tudo sobre aquela mulher.

 

Passamos pinhais e dunas, mundos e nuvens, caminhamos anos e anos, séculos em minutos, ela à frente,

 

dançando em frente,

 

eu atrás, perseguindo um segredo, até a vista se rasgar, de súbito, num inteiro mundo anunciado para nós. Arriba de milhões de quilómetros,  a cima de milhões de oceanos.

E eu que sou homem mundano, crente no visível e tocável, ali me vejo feito matéria etérea, olhando escondido um anjo a querer sobrevoar o mar.

 

- Pare.

 

Achei que a assustaria irremediavelmente, mas ela olhou-me como se sempre me soubesse ali.

 

 - Por favor, podemos falar?

 

Ela sorriu-me de frente, como se sempre me conhecesse , e com a mão direita prendeu uma madeixa de cabelo atrás da orelha. Estava descalça, vi agora, e com um pé em pontas, elevava o outro em direção à falésia. 

Tive a certeza que morreria se aquela mulher me morresse ali.

 

- Por favor? Dê-me a mão e vamos conversar.

 

Mas ao invés de o fazer, aquela estranha mulher rodopia sobre si, e de um só gesto despe-se para mim. 

Olho-a surpreso e inquieto, percebo então a urgência em segui-la, percebo, aliás, tudo naquele momento. A origem das coisas e do mundo, do universo e do amor. E então, ela lança-se nos meus braços, e leva-me, para sempre, para dentro dela. Passei a ser, naquele instante, matéria eterna de paixão, carne feita lágrima e desejo, derramados e entregues na areia de uma falésia.

Mas o para sempre é tempo demais, como o nunca é eterno demais, e assim como se lançou nos meus braços para me ensinar a arte do amor, saltou de seguida, nua e inteira, linda e leve, para o cume da arriba.

Sem me dar um segundo se quer para poder reagir,

agarra-la,

sentar-me,

compor-me, porra,

para, pelo menos, lhe perguntar,

 

Menina bonita, e o teu nome? Um homem não pode amar uma mulher sem nome,

 

ela olha-me nos olhos, bem lá para dentro, como se nunca tivesse sentido medo,

e dá-me o maior, mais bonito e mais triste sorriso que vi na vida.

 

E então diz-me, mesmo antes de saltar e se fazer espuma de onda para sempre,

 

- Sou Vênus e vou-te contar um segredo. Afinal sou eu que não sei amar.

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Sabores

por Ana sem saltos, em 25.05.18


- Podia dizer-te tanta coisa agora. Mas por mais incrível que pareça, ainda está para nascer o Camões capaz de criar as palavras que te digam tudo aquilo que te podia dizer.

 

- Bem sei minha querida.

- Vamos então não falar?

- Vamos sim.

- E dás-me a tua mão?

 

Abre-se no céu escuro uma brecha absurda de luz. O sol derrete o ar, a nuvem, a ânsia. Cai estatelado na mão que não me dás.

 

Ficamos assim, então. 
Sorris-me.

 

Eu levanto-me e trago cá dentro um tumulto inteiro, revolução suprema de ser, sentir e querer. Mas tenho esperança, a cima de tudo, e a esperança sempre foi o meu norte.

Levantas-te também. Baixas-me o olhar em jeito de adeus e esperas que eu saia.

Junto todas as minhas forças, todas as minhas lágrimas e sorrisos, alma que sou, e tu sabes que sou. 
Faço enorme cordilheira de toda a minha vontade, de toda a minha pessoa inteira. 
Sigo, então, o meu caminho. 
Uma perna depois da outra.
Nos passos que me levam. 
Daqui. Para ali. 
Direita. 
Senhora de mim. 
Impecável.

Desmorona-se um mundo de medos e receios, sou senhora do meu destino, bem sei, mas à noite viro menina perdida .

Vale-me a minha ursa maior, agregado de estrelas, Vênus e Martes, centenas deles alinhados só para mim. E ali está ela, a luz sagrada da esperança que me guia.

A vida vem aí, pressinto-a. Sabe a sol, sal e amor. E esse será também o teu sabor.

 

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Conversas de dentro

por Ana sem saltos, em 10.05.18

- Encontrei-te no fim da linha, lembras-te?

- Lembro sim.

 

Fins de tarde que pedem conversa à desgarrada,  tertúlias mornas de palavras soltas. E as memórias que nos abraçam forte, ali entre o corpo e o sonho.

Sorris-me de frente, e enches-me o copo de vinho.

Bebo um golo grande.

Quero vinho, sol em despedida, e um beijo teu.

 

- A vida fez-te mais bonita, sabes?

Sorrio-te de volta. Ainda sinto embaraço de menina com a tua ousadia.

- Vejo que a ti a vida fez-te mais destemido.

- E isso é bom ou mau?

 

Passa um bando de andorinhas. E o vinho escorrega quente dentro de mim.

 

- Diria que é bom, sim.

 

Sorris-me de novo.

 

- E conta-me princesa. Foste feliz?

 

Agora sorrio-te eu, e espanto-me com o teu baixar de olhos. Volto atrás em breves segundos e relembro a minha vida. Procuro-lhe a música e a cor, mordo com força os lábios para sentir o sabor das minhas memórias.

E o vinho escorrega quente em mim.

E naquele exato momento, faz sentido o medo e o sol e a vida.

Não consigo encontrar palavras ao que sinto, mas tenho vontade de chorar a sorrir, como quando olhamos pela primeira vez um primeiro filho acabado de sair de nós.

 

- Fui sim. Fui muito feliz.

 

Procuro no teu olhar a tua história. E ainda que julgues que te escondes, mesmo não sendo eu corajosa o suficiente para te perguntar, vejo-te inteiro. E a minha felicidade parece, de repente, névoa húmida de dia de verão.

Acabo o copo de vinho de um trago.

Decidimos sem palavras que a conversa vai continuar assim, na franqueza bruta sem as palavras faladas. E é então que começamos, finalmente, a falar. Estendes a mão e agarras a minha. O calor em fúria que sinto gela-me os dedos, deixo de saber as regras mais básicas da vida, e o ar deixa de entrar e de sair, está ali todo preso no meu peito. E então o mundo rebenta em mim e eu conto-te nas minhas milhões de lágrimas. Conto-te, conto-me, conto-nos, o que fomos, o que somos, e o que não seremos.

E como no mergulho quente na lembrança das minhas memórias, olho-te para dentro, choro-te por dentro, sorrindo-te,

todo tu, 

toda eu,

por, para e de dentro.

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Eu maior

por Ana sem saltos, em 08.05.18

Posso viver mil anos,

ou evaporar amanhã,

não há rasgão ou trovão

risco, fúria ou imensidão

que desmanche os traços de ti

cravados em fome, calor e suor,

aqui,

bem dentro de mim.

E em mim és mais do que em ti,

porque nas letras da nossa história,

fiz-te sopro eterno, longo e baixo,

eu a dar tudo,

e tu em alma, carne e coração,

sempre capaz de receber.

E depois em ti sou mais do que em mim,

porque me transformas, elevas, relevas,

quando me fazes labareda mãe de fogo quente,

Suspiro gritado,

Gigante querer.

E assim sou mais do que me vejo,

Conjugada maior na tua voz

Eu maior, sempre maior,

que o presente perfeito do verbo ser.

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Caminhos

por Ana sem saltos, em 07.05.18

Aquilo que me pergunto com frequência, não é o destino do meu caminho.

Já desisti de me fazer essa pergunta,

 

então agora para onde vou?

 

fazia-o antes, antigamente, há muitos milhões de anos atrás, quando me invadia a angústia e a pressão de ter a vida definida, alinhavada, pronta a ser cozinhada.

 

Interessa-me, isso sim, saber como vou. E é nessa grande questão que concentro as minhas energias, é nela que atiro toda a minha verdade.

De mim para mim, eu comigo mesma, ali no segredo do jardim que mora entre o sonho e a vida, eu fecho os olhos e pergunto-me:

 

És feliz?

 

Não me interessa mais o destino, quero beber, sorver, viver cada passo do meu caminho.

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Antes de mim

por Ana sem saltos, em 02.05.18

São coisas que se aprendem com o tempo.

Quando o amor nasce, normalmente vem e invade tudo de forma impetuosa e estrondosa. Há uma paixão absurda que prende os movimentos, os pensamentos, a vontade, o querer. Tolda-nos a mente, invade-nos o ser.

Mas depois há coisas que se aperfeiçoam com o tempo. E o sufoco que nos encerra no eu, mais, no querer tirano e implacável do eu, o tempo vem e transforma. Não o amor, ou se quer a paixão, esse fogo bonito que aquece e esfria no desenrolar da vida. Aquilo que o tempo nos muda, quando o amor vem e corre em cascata em nós, é o querer que sai do meu para o teu.

É neste momento que se eterniza o amor. Não é no calor da carne a chorar por mais, nem nas juras seladas num para sempre impossível de se prometer.

É eterno o meu amor por ti, porque te quero, sinto, prevejo, sempre antes de mim. E assim será, prometo-te. Eterno e por ti antes de mim, enquanto o nosso para sempre durar.

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Lágrimas de céu, rainha sem destino

por Ana sem saltos, em 24.04.18

Olho a janela.

Montanha imensa ao fundo,

Atrás do vidro lambido pelas lágrimas dos anjos.

Penso no ontem desdobrado em música,

Timbre de mim em tons de infinito.

Ah amontoado de momentos e tempos

Perdidos na minha existência,

Acaso bruto sem início nem fim.

 

E deixo o céu chorar,

feita rainha benevolente,

chora, chora céu meu,

guardião de sonhos antigos,

protetor da fé e da esperança

pinta-me a história de vida

em quadros de aguarela chorada.

 

E do nada cresce uma raiva absurda,

e então não deixo,

ordeno, antes, que o céu chore.

Passo de benevolente a tirana,

Ciente e crente nas minhas vontades.

E agora chora, vamos,

chora em soluços e solavancos,

chora mundos e fundos,

despe-te de pudor, e chora,

despeja-me em fúria e gemidos

dilúvios de lágrimas de amor.

Mas chora, céu,

chora-me toda,

grita o mais escuro silêncio,

berra o mais gritante vazio,

e mostra-me,

sem vergonhas,

não a tua,

mas a minha dor.

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Canção

por Ana sem saltos, em 18.04.18

Sinto em mim a força do mundo,

Rebenta cá dentro a mais doce esperança,

E sei que caio, mas ergo-me,

Sei que choro, mas lavo-me.

 

Sei também a música que sinto nesta dança.

E canto, ah se canto,

Quando me elevas em sonho maior.

E nos intervalos de ti, amor,

Sonho, salto, voo e encanto.

 

Se te perguntar baixinho,

O porquê deste amor,

Promete-me, sela-me, jura-me,

Que me falas no nosso sabor.

 

Não há lágrima que nos valha,

Maresia imensa de antiga paixão,

Quero beber o mundo inteiro,

Ser nota eterna da tua canção.

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