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Histórias avulso

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Janeiro 31, 2019

Vejo pela porta da entrada, uma chuva miúda que é açoitada com violência pelo vento. O Inverno carrega-me sempre com uma nostalgia semelhante a estas pobres gotas. Dispersas, minúsculas, sovadas, até parecem assustadas. Só que juntas formam um manto capaz de ensopar o mundo.

Vale-me a lareira quente, e o chá ao lume. Vale-me o riso dos meus filhos que correm descalços ignorando o frio. Vale-me a música que sai do telemóvel pousado na bancada da cozinha. Vale-me que sejas sempre sopro de primavera que, de mansinho, me vai secando a casa.

Dor

Janeiro 29, 2019

- Então, o que a traz por cá hoje?

Na verdade, não sei bem o que lhe diga. Há anos e anos que é este bom e velho médico que me cura todas as maleitas do corpo com benurons, chás de especiarias, e um sorriso que, não sabendo ele porque nunca lhe confessei, acaba por ser o melhor paracetamol para esta indigestão crónica de alma que me acompanha desde que me sei gente. Atribuo-lhe todo o mérito da minha saúde "de ferro", mas a verdade é que sei tenho uma sorte absurda, esta coisa da genética é francamente injusta. 

_ Aquela dor, doutor, é aquela dor...

Ele sorri-me, muito jovem de novo por detrás daquele manto imenso de rugas, escrevendo uma rubrica mais na minha extensa ficha de paciente.

_ E fez os exames que lhe pedi da última vez? - pergunta-me ele sem tirar os olhos do que escreve. E eu rio-me, mesmo sabendo que não conseguirei jamais transparecer a mesma juventude alegre que aquele homem verte dos olhos.

_ E eu lá sou mulher de exames doutor. 

Ele encolhe os ombros, sempre sorrindo sem me olhar, e eu, vou-me sentindo melhor a cada letra escrevinhada.

_ Mas devia. Olhe que devia. Não abuse da sua sorte.

Ora e aí está a questão. Já me lembro o que me trouxe cá, ao consultório do meu bom e velho médico. Que deverei fazer eu, sabendo-me já com milhas a mais na estrada da vida, para inverter esta bênção genética e que é agora a minha secreta maldição? É que estou só, tão só neste quadro de vida. Vi a retirada de todas as personagens, uma a uma, impávida e serenamente, e agora eis-me aqui, sozinha num imenso e extenso quadro, largado a um canto pelo pintor de destinos.

_ Estou cansada, sabe?

Ele pousa a caneta, retira os óculos, e olha-me no fundo dos olhos. Quero pedir-lhe que não pare de escrever, que continue sorrindo, céus, como odeio piedade. Mas não sou capaz, ciente que, num ligeiro ápice, poderei cair num espalhafatoso trambolhão deste pedestal imenso onde me encontro pousada.

_ Cansada de quê, conte-me lá?

De viver. 

_ Esta dor doutor. Já lhe tinha dito. Dê-me lá qualquer coisinha mais forte.

Rescrever Eça de Queirós - Última parte

Janeiro 25, 2019

(Parte I)

(Parte II)

(Parte III)

(Parte IV)

(Parte V)

(Parte VI)

 "Foi neste ritmo morno e colorido que eu e Lúcia, agora formalmente noivos, passeávamos pela Baixa. Tarde alegre, a condizer com o estado de espírito leve e feliz que me encontrava mergulhado. Caminhamos em passo lento e vamos olhando as lojas, até que Lúcia para em frente à entrada de uma ourivesaria olhando fixa e séria o ourives que nos sorri do lado de lá do balcão. Entramos e Lúcia pede para ver algumas peças que eram de seu agrado. Eu, com uma vontade imensa de a fazer a mais feliz das mulheres, digo-lhe que vá vendo e saio para ir levantar dinheiro ao banco para a surpreender com um presente de noivado. No regresso, o surpreendido afinal sou eu. Foram milésimos de segundos, ali passando à minha frente em câmara lenta, mas sei que o ourives tinha o braço em redor da cintura de Lúcia, inclinada sobre o balcão olhando um amontoado de peças. À minha entrada o ourives retira o braço, e sorri-me, exatamente com o mesmo sorriso comercial de anfitrião com que nos recebera à entrada. Apenas Lúcia, ainda fixa nas jóias espalhadas à sua frente, cora. O mesmo corar que me fez perder de amores na primeira vez que a vi. Avanço para o balcão, coloco-me ao seu lado, e peço-lhe que escolha o que quer. Sinto-me a sufocar, só quero desaparecer dali para fora. Sair das paredes daquela estranha miragem.

Lúcia escolhe finalmente, e volta-se para mim com o mesmo riso fugaz que sempre oferecera a tudo, mostrando-me o anel de esmeraldas que colocara no dedo. Entrega-o ao ourives para um ligeiro ajuste, e eu ofereço-lhe o braço para sairmos juntos."

Todo carregado de pressentimento, Raul apressa o passo para sair da ourivesaria. E é, nesse momento, bem antes de atravessar a porta, que é interpelado pelo ourives, 

_ Falta apenas pagar, senhor.

_ Pagarei no ato de entrega. - afirma Raul, mantendo o passo para a saída da loja.

Mas o ourives ignora a pressa do jovem casal, e insiste.

_ Com certeza senhor, mas não é a essa peça que me refiro. O anel que a senhora leva agora deverá, também, ser pago agora.

Raul trava a fundo. Volta-se primeiro para o ourives que mantém o seu sorriso, e de seguida para Lúcia, que, visivelmente atrapalhada, balbucia que deve ser um engano. Raul mantem-se olhando a noiva, depois o ourives, novamente a noiva. Lúcia afasta-se do balcão, e segreda a Raul,

_ Desculpa.

Raul endireita-se, volta-se e imita o ourives oferecendo-lhe o seu melhor sorriso.

_ Que enorme confusão, as minhas desculpas, a pressa leva a enganos. E quanto lhe devo então?

Raul paga uma quantia absurda pelo anel levado ao engano, e avança para, finalmente, sair da loja. Lúcia olha o ourives, e depois retoma o seu posto ao lado de Raúl. Saem juntos da loja, e caminham novamente pelo Chiado.

O grito do não dito torna imperador um silêncio que se sobrepõe ao mundo que continua, indiferente, a correr na baixa lisboeta. São minutos estendidos ao infinito,

ao fundo um senhor cego repete num timbre monocórdico "Tenha a bondade de me auxiliar", o elétrico toca a campainha mesmo antes de virar, e os carros travam no sinal encarnado cedendo passagem aos peões.

E Raul mantendo o passo junto a Lúcia, de forma mecânica e automática, como se todo ele fosse apenas de uma reação motora. Imune aos sons de fora, pairando como se tudo aquilo fosse um estranho e bizarro sonho.

É a rapariga loira que quebra o silêncio.

_ Raul, há outra pessoa, desculpa. Tem sido tudo muito precipitado, mas mais vale ser honesta e acabar de vez com esta farsa. Faço questão de te pagar o anel até ao último tostão, não quero mais confusões.

Raul cai a pique da miragem que o envolve deste a entrada na ourivesaria. Olha embasbacado Lúcia, vê-lhe a curva do pescoço, a mesma que o perdeu três séculos antes numa janela da Graça, vê-lhe a boca movendo-se, dizendo-lhe aquelas palavras, partindo-lhe em estilhaços a promessa selada lá atrás. O sorrir a tudo agora ausente naquele presente aguçado. A pele de pêssego, provada, amada, lambuzada, profanada. O búzio perdido, o relógio concertado, o sorriso à janela, a vontade em excesso, África em suor e lágrimas, o retorno, a esperança, Altino Afonso e o seu tio Francisco,

“No amor espera-se traição, mas na amizade, ah, na amizade não”.

Lúcia tenta falar na sua direção, mas Raul, mesmo antes de rodar os calcanhares para seguir, diz-lhe seco calando-lhe a voz,

_ Ladra imunda.

Segue então o seu caminho, virando numa transversal, e a imagem de Lúcia, ex-noiva de sabor a verão, é extinta da sua vida. Nessa mesma tarde Raul regressa à ribeira da sua aldeia. Até hoje.

_ Até hoje... - repete-me no escuro.

Eu encolho o estômago para dentro, talvez o estufado do jantar não me tenha caído muito bem. Oiço Raul respirar de forma mais lenta, denunciando-lhe uma possível entrada no mundo dos sonhos. Como pano de fundo à noite que finalmente se instala, o relógio de Raúl pousado na mesa de cabeceira, canta mecânico, tictaquiando os segundos.

 

(E quem conta um conto, aumenta um ponto. Ou dois. Ou três, nesta aventura que foi rescrever "Singularidades de uma rapariga loira")

Rescrever Eça de Queirós. Parte VI

Janeiro 25, 2019

(Parte I)

(Parte II)

(Parte III)

(Parte IV)

(Parte VI)

"Quando ficamos sem chão, creio que o sentimento primeiro que nos invade, e por mais absurdo que possa parecer, é o da vergonha. Vergonha de voltar a encarar o mundo cá de baixo. A expectativa nos píncaros tem este risco, a queda acontece de forma trágica. Andei a deambular pelas ruas de Lisboa, sem pensar em destino algum, caminhando apenas para controlar a angústia. Depois de passar do tudo para o nada, contar os passos pareceu-me a única coisa controlável na minha vida naquele momento. Neste passeio aleatório, sem partida nem chegada anunciada, acabo por ir parar à rua do meu tio Francisco. Olho a antiga janelinha onde me perdi de amores por Lúcia, relembro o coração aos pulos com aquele vago vislumbrar de um sonho. Olho a porta do meu tio e vejo o seu vulto na janela, por de trás da cortina." 

Talvez por estar demasiado embriagado de desespero, invadido pela nostalgia daquele momento, Raul age num impulso instintivo e toca à porta do tio Francisco, sem pensar duas vezes.

"Quando ele me abriu a porta fui, na verdade, surpreendido. Achei que não o faria, depois de me ver pela janela. Não tinha propriamente um discurso preparado, saiu-me apenas,

- Vim para me despedir, tio.

Ele não me respondeu, altivo no seu tamanho e saudade de um presente que não mora no hoje, mas abriu mais a porta e encostou-se do lado esquerdo oferecendo-me passagem para entrar. Entrei então, seguindo-lhe os passos até à sala. Ele sentou-se no seu cadeirão, e só então pôs os óculos. Sei que me olhava por cima deles, apesar de eu apenas o ver de soslaio, incapaz de o encarar de frente.

- Grandessíssimo filho de uma égua esse teu amigo Atino, heim Raul?

Fico estupefacto, e agora sim, olho-o de frente, provavelmente de boca aberta.

- No amor espera-se sempre traição. Agora na amizade... Ah na amizade não.

Sinto vontade de chorar, sobretudo porque lhe vislumbro um brilho nos olhos fora do comum naquele homem. A situação deixa-me num misto de alívio e desconforto, tenho uma súbita vontade de o abraçar. Não o fiz, evidentemente, o porte do meu tio não dava a permissões para grandes manifestações de afeto. Então ele levanta-se, abre um Porto, e serve-nos dois copos.

- Brindemos ao teu casamento. Volta para a relojoaria rapaz, não quero que a tua mulher seja casada com um desempregado que não tem onde cair morto.

Daí à felicidade suprema foi um tiro. O casamento pode manter-se de pé, eu voltei a uma arte que me apaixonou junto do meu tio Francisco, Altino passou a passado morto e enterrado na minha cabeça. Estava francamente mergulhado na expectativa de um futuro promissor e seguro: casado com a mulher dos meus sonhos, emprego seguro e uma tonelada de páginas em branco para preencher a partir daí.”

(Quem conta um conto, aumenta um ponto)

Rescrever - Eça de Queirós. Parte V

Janeiro 24, 2019

(Parte I)

(Parte II)

(Parte III)

(Parte IV)

Quando me falava do seu tio Francisco, Raul ganhava um novo timbre na voz. Sentia-lhe o erguer dos músculos, como se se endireitasse inteiro por debaixo dos lençóis. Era dominado por algo possante e antigo, misturando respeito e medo. Descreveu-mo desta vez mais acauteladamente,

“Homem de porte grande e forte, sabe, daqueles à antiga, molde que creio já não haver nas fábricas de pessoas de hoje. Embora fosse evidente a sua grande estatura, havia algo que o encurvava ligeiramente para a frente, não por vassalagem, mas por… creio que um cansaço grande. Tinha o cabelo grisalho, crespo e forte, mas que ele domava bem, penteando para trás. Usava uns óculos de armações douradas, sempre pousados na ponta do nariz. Quando nos falava espreitava por cima deles, quando trabalhava na relojoaria olhava as suas artes através deles. Tinha barba, sempre bem aparada, e tinha o costume de a pentear com a mão sempre que se sentia nervoso, pensativo ou entediado. Havia algo que o desencaixava irremediavelmente dos dias de hoje. Consigo ainda vê-lo chegar mais cedo dos fornecedores. Cansado, sempre cansado, sedento de se apoderar do seu canto e rotinas, fechando o mundo do lado de lá da porta da entrada. Fechou-a com cautela, suponho eu, porque não a ouvi. Estava perdido algures noutro mundo, que não era nem aquele nem o do lado de lá da porta.

Não vi mas é como se tivesse visto, os seus gestos eram uma repetição eterna e incansável. Subiu as escadas, retirou os óculos, prendeu-os na abertura da camisa e abriu a porta do quarto, para se descalçar e colocar os sapatos de casa. Mas ao invés de mais uma repetição de rotinas, deparou-se comigo e com Lúcia numa manifestação de amor demasiado explicita para aqueles olhos cansados de presente. Ficamos os dois, como deve imaginar, perdidos de palavras ou desculpas, escondendo a nudez com o que nos aparecia na frente. Tentei dizer qualquer coisa, mas ali se encravou a fala do tio Francisco, naquele tom cavernoso e grosso, como rugido feroz de quem não precisa de gritar,

_ Daqui para fora.

E eu tentando explicar, o amor, e as intenções, e o eterno que provara naquela pele de pêssego, cheio de mases e desculpes. Mas ele mantem-se implacável, colocando de volta os óculos.

_ Daqui para fora. Daqui para fora. Daqui para fora.

E lá fui eu, dali para fora. Sem emprego, sem teto, mas cheio de amor no entanto. Conseguira juntar alguns tostões nos meus tempos na alçada do tio Francisco, e com eles aluguei um quartinho pago à noite numa pensão. Apesar da queda da minha estrutura inicial em Lisboa sentia-me relativamente tranquilo. Não é em vão que se apregoa por aí que o amor cega. Mas a verdade é que bati de porta em porta procurando emprego, só que, para além de rapazito do campo, a única coisa que verdadeiramente me havia especializado fora em relógios. E por isso o emprego teimava em aparecer. Penhorei assim os meus poucos pertences, tentando fazer face aos custos. Acabei por ter de passar para um quarto mais barato. Escondia com vergonha o meu aspeto miserável de Lúcia, com quem me encontrava todas as noites no patamar. A luz morna atenuava assim os buracos no casaco, o rasgão nas calças, a sola descolada nos sapatos. Se no início nos amamos com a sofreguidão de um platonismo esfomeado, aos poucos a carne habituou-se a luxúrias, e a magia do não provado foi sendo devorada pela angústia da rotina. Bebíamos vinho na cama, amávamo-nos, ela sempre rindo de tudo, sempre assentindo que sim a tudo para depois adormecer, deixando-me ali entregue a uma insónia teimosa.”

Começo a sentir pena do pobre Raul. Rapidamente se afigura na minha mente o decrépito daquela fase, a pensão demasiado barata albergando para além de almas penadas como Raul, pulgas e percevejos abrigados numa cama de lençóis velhos e amassados. Aos pés dela, um copo entornado no chão. E ele, bom rapaz, ali de repente a estoirar do nunca provado, desvirginado rápido demais nos caprichos da carne, olhando da janela as ruas vazias nas madrugadas alfacinhas.

“Certa noite, encontro o meu amigo Altino. Pergunta-me pelas coisas, mas por mais que eu tentasse disfarçar, todo o meu aspeto denunciava a minha situação financeira. Propõe-me então uma ida para Angola. “É lá que está o dinheiro homem, só falta quem não tema trabalhar”. E eu prometo-lhe pensar, e dar-lhe resposta depois de falar com Lúcia. Com ela a conversa discorre rapidamente. Mantem-se rindo, e diz-me, uma vez mais, que sim a tudo. “Acho que fazes bem. Talvez ganhes dinheiro”. Sinto novamente esperança lançando-me de cabeça nessa missão. Ando pela primeira vez de avião e calha-me como estreia uma companhia barata dona de aviões velhos e barulhentos, onde volto a acreditar em Deus rezando cerca de 1200 aves marias, de olhos fechados e punhos cerrados. A chegada a África, esse quente continente, acontece de forma estrondosa. Não estou habituado ao calor, nem à humidade, nem aquelas gentes escuras e grotescas por vezes. Mas trabalho de forma afinca, lembrando-me sempre do fresco que um pêssego pode ser. Esse era o meu norte, e foi com ele bem cravado dentro de mim que me mantive afinco na minha missão, pondo de lado os desconfortos, penúrias, doenças, medos, e uma solidão imensa. Volto novo, com dinheiro para investir na minha própria relojoaria. As Vilaças recebem-me com brilho nos olhos, e o beijo de Lúcia retorna-me a mim mesmo, depois de tanto tempo longe de tudo. O casamento marca-se então para daí a um ano. O meu amigo Altino recebe-me também com um enorme abraço, dá-me os parabéns pelo conseguido em Angola, e propõe-me que continuemos juntos como parceiros de negócios, passando eu a ser o seu fiador.

Entro aqui numa fase cheia de fortuna. Sentia-me realizado, apaixonado, capaz de tudo.”

E como que caindo de uma núvem sonhada tempo de mais, Raul depara-se de súbito com um enorme contratempo. Seu grande amigo e companheiro de negócios Altino Afonso desaparece de um dia para o outro com a mulher de um imobiliário Angolano. Quando sabe da notícia, Raul é confrontado com uma retirada de tapete de baixo dos pés brusca de mais, estatelando-o ao comprido no chão.

E é pálido e lívido como um morto que se vê obrigado a pagar as dívidas do amigo, voltando novamente à estaca zero.

 

(Quem conta um conto, aumenta um ponto)

Rescrever - Eça de Queirós. Parte IV

Janeiro 23, 2019

(Parte I)

(Parte II)

(Parte III)

 

_ E conhece-las?

_ Sim.

_ Bem?

_ Bem como?

_ Sei lá, costumas estar com elas…

_ Sim, costumo vê-las naqueles encontros que já te falei no agrupamento biológico da Sé.

_ Ah…

Sábado seguinte lá vai o bom Raul para um encontro de pessoas amigas da cultura e ambiente que acontecia todos os primeiros sábados do mês. Tratava-se de um pequeno armazém ali posto na colina do castelo, e tinha como pano de fundo uma vista belíssima da beira-rio alfacinha. Ali se fazia uma verdadeira ode à mãe terra, ao singular da alma, ao intestino como condutor de sentimentos e saúdes. Foi recebido pela velha Dona Maria da Graça, uma senhora com os seus 60 anos, trajada como uma hippie: luvas nas mãos com a ponta dos dedos à vista, calças largas, fluidas e coloridas decoradas com desenhos pitorescos que tanto podiam ser indianos, como africanos, e um longo lenço debotado nas pontas enrolado à volta do pescoço. Encontravam-se todo o tipo de gentes, poetas de alma, vegans revolucionários contra os crimes da carne, jovens voluntárias e pequenos agricultores de vasos de varandas. E lá estavam elas também, a imponente mãe Vilaça, toda vestida de preto, e a jovem, sabia-o agora Raul, Lúcia, sua filha loira e de pele de pêssego.

O ambiente de cheiro a incenso e cigarro biológico, era semi-escuro, semi-iluminado. Ouviam-se vozes e uma guitarra tocada por um jovem que parecia uma atual e pobre versão de Cristo. De súbito, todos se calam para ouvir Ricardo, um aspirante a poeta de óculos escuros, todo trajado de preto, descalço, cabelo apanhado atrás num minúsculo e oleoso rabo-de-cavalo. Tremendamente preocupado com a conspiração das tecnologias e dos poderosos, o jovem recitava três palavras escolhidas de forma aparentemente aleatória, a oferecia à audiência uma pausa de largos segundos, para então continuar a declamar mais três ou quatro.

_ Vejo que trazes o relógio posto.

Raul aproveita o momento para interpelar a jovem loira que trazia no pulso fino o relógio concertado por ele. Trazia um vestido leve de algodão, branco e de saia rodada comprida tocando-lhe os pés.

_ Sim. Agora funciona na perfeição.

Quando o jovem termina o seu poema, inclina a cabeça para trás talvez fechando os olhos por de trás das lentes escuras, e abre a boca numa espécie de sorriso que lhe denuncia um dente podre no maxilar inferior. Neste momento, o jovem da guitarra faz soar uma nota, depois outra, e começa então a tocar uma melodia barulhenta que tanto podia ser fado, como reaggie, como uma aula de principiantes nas artes das cordas. Raul sai do armazém para o pequeno pátio, e passeia entre os imensos vasos, velas e espanta espíritos. Quando se prepara para voltar, vê a jovem Lúcia à janela. Sorri-lhe todo ele muito acordado de repente, contendo o espasmo alucinante do coração que lhe parecia querer saltar boca fora, e ela demora-se primeiro no olhar, devolvendo-lhe então um sorriso tão imaculado como o branco do vestido que trazia. Raul soube nesse momento que estava destinado ao para sempre.

Momentos passados e todos se juntam para lançar os Búzios. A anfitriã mostrava-se sabedora dessa arte brasileira, e pede que um dos convidados os lance ao acaso. Raul pega nas peças, pequenas, brancas e polidas, e lança-as na mesa. Uma delas salta mais alto do que as outras e tomba precisamente no decote do vestido branco de Lúcia, que estava à sua frente na roda de pessoas.

_ Falta uma peça,

Diz a anfitriã, e todos se debruçam procurando no chão a peça em falta para um destino previsto como deve de ser.

Apenas Raul e Lúcia, agora de face ruborizada como morango de verão, sabem do pouso da peça, mas ambos empenham-se também na busca do búzio perdido.

O jovem poeta retira os óculos para ver melhor debaixo da mesa, e o músico pousa a guitarra que até então não largara para procurar debaixo do sofá.

_ Ora essa, esta casa não tem dentes, tem de estar em algum lugar! – diz a mãe de Lúcia também buscando em vão o búzio.

Está escuro e silencioso no nosso pequeno quarto da estalagem. Raul cala-se nesta fase da história, e inspira fundo. Eu espero-lhe o resto refastelado na minha cama.

_ Bom, saltando motivos caro amigo, decidi tomar Lúcia como minha mulher.

_ Então e o búzio? Na volta foi ele que lhe ditou esse destino… - respondo-lhe sorrindo no escuro.

_ Sei lá eu do raio do búzio. Não foi essa palhaçada que me ditou o destino, mas sim um beijo, amigo, um beijo como já não se dão nos dias de hoje, agora que tudo é instantâneo e momentâneo. Um beijo daqueles que nos perdem fatalmente.

Fatal com o destino, ditado impiedosamente por de trás do vidro de janelas, e eu controlo o riso para não interromper o bom Raul.

 

(Quem conta um conto, aumenta um ponto)

Rescrever - Eça de Queirós. Parte III

Janeiro 21, 2019

(Parte I)

(Parte II)

“Sou do Porto, na verdade, das beirinhas rurais da cidade do Porto, mas fui bastante novo, logo depois de acabar o liceu, para Lisboa. A chegada a essa cidade, tenho de lhe dizer, foi como um murro no estômago que acabou por se mostrar prazeroso. O movimento das ruas, os elétricos, o comércio, as nacionalidades imensas, ali mesmo no meio da praça do Martim Moniz, tudo aquilo era uma novidade impressionante e assustadora. Foi para ali perto do Martim Moniz que fui trabalhar, para a relojoaria do meu tio Francisco. Levei nesses primeiros tempos uma vida bastante calma e circunscrita ao trabalho. Tudo aquilo me fascinava e assustava, sentia-me literalmente um pequeno burro olhando um palácio que a qualquer momento podia ganhar dentes e devorar-me vivo. Não deixava de ser lindíssimo, por isso contemplava-o o mais que conseguia. O meu momento preferido era o da hora de almoço. Levava a minha marmita de casa e sentava-me no Terreiro do Paço, o mais longe que conseguia das pessoas, para as poder observar naquela vida a correr, e ao mesmo tempo, contemplar aquele imenso rio, miragem aumentada da ribeira da minha aldeia. “

Consigo imaginar aquele pequeno e sério homem, ali jovem e de faces ainda rosadas do ar do campo, embasbacado com as entradas seculares de Lisboa.

Contou-me então que teria sido o seu tio Francisco a traze-lo menino e moço para a grande cidade de Lisboa, a falou-me desse familiar sempre todo carregado de respeito na voz:

“Um homem daqueles à antiga, sabe o amigo? Muito sério e honesto, todo feito de seriedade no corpo e feitio.”

O objetivo desse acolhimento era ter alguém da família o mais honesto possível, a ajuda-lo no atendimento das pessoas, mas acima de tudo, na organização da papelada da sua pequena relojoaria. E, de facto, nada melhor do que um jovem inocente roubado à paz do campo para o fazer. Depressa percebeu o tio Francisco que o jovem Raul para pessoas não tinha muito jeito, todo feito gaguez a cada relance humano na entrada da loja, mas para lhe afinar os relógios… ah, ali estava uma vocação de encaixe perfeito, e também um descanso para os olhos do velho tio, que já se via grego com aquelas tarefas microscópicas. Sentavam-se os dois, o velho grave e sério aconselhando as pessoas, e Raul um pouco mais atrás do balcão de vidro, de binóculo colado ao olho, afinando o cantar dos segundos.

 “Ora a casa do meu tio, onde fiquei nesse tempo, era no primeiro andar do prédio da relojoaria. Naquela zona já a chegar à Graça, os prédios são muito juntos e tortos, cada um com o seu tamanho e feitio.”

Assento-lhe que sim, como se não conhecesse eu também o tosco maravilhoso da velha Lisboa. Conta-me então que, um dia, estava a abrir a loja de manhã, quando vê uma mulher, toda vestida de negro, entrar no prédio em frente. A mulher tinha um porte altivo e indomável, apesar da cor que trazia vestida, denunciando talvez uma viuvez recente. Muito esguia e direita, pele absurdamente branca, que contrastava com o seu traje. Os olhos eram igualmente escuros e profundos, emoldurados numas fartas sobrancelhas, e continham um brilho que os denunciava, na sua fantasia de jovem provinciano, como muito sábios das artes da vida. Também escuro era o seu cabelo,

“fazia lembrar a crina de um cavalo selvagem”

mas com a sua rebeldia bem controlada num grosso e elegante carrapito mesmo acima da nuca.

Raul cala-se neste momento, como que ganhando folego após a descrição da mulher brava e mais velha. Mas agora quero saber o resto, entusiasmado pela inocência picante da história que aquele relojoeiro me conta.

_ E conhecia-a? À bela viúva?

“Bom, não, naquele momento não, e também não lhe sei dizer exatamente o que me fascinou naquela miragem de mulher, num relance de poucos segundos, ela claramente mais velha que eu, e ainda por cima de luto.”

Mas a verdade é que se gerou todo um palpitar por dentro do jovem aprendiz relojoeiro, que parecia encher-se de calor, apenas de a imaginar jovem de novo, sorrindo para ele.

“Eu pressentia-lhe uma rebeldia por debaixo das vestes de mulher agora sem o homem que a teria ensinado a amar.”

Toda aquela imagem encheu o pobre Raul de desconhecimento, curiosidade, e fantasia. Foi no trabalho que arranjou forma de controlar todo aquele turbilhão, dedicando-se mais afincadamente às suas funções na loja do tio. Imagino que não houvesse nessa altura um único relógio daquela loja que não tivesse o mesmo preciso bater de minutos. Era a única forma que o jovem conseguia desfocar a mente daquela imensa fantasia com uma mulher grave e direita na entrada de um prédio, que, sem se quer saber da existência do jovem Raul, já lhe morava na cabeça feita 20 anos mais jovem, sem o carrapito contendo-lhe o ondular selvagem daqueles negros e crespos cabelos.

“Um dia, lembro-me que era verão pelo calor que se sentia logo pela manhã naquela rua de Lisboa, eu saio para a rua, num momento em que a loja estava sem ninguém e em que o meu tio teria saído para um qualquer afazer. Não ia a lugar nenhum, queria apenas sentir o verão em estrondo lá fora, e, claro, dar uma espreitadela à janela do prédio da frente.”

Mas quando o faz, Raul depara-se não com a fantasia de luto mas com uma visão de primavera. Já não era crina escura e rebelde que via lá em cima, mas um longo e macio cabelo loiro, de uma jovem rapariga, essa sim, talvez da sua idade.

“Acho que deixei de respirar por largos segundos, aspirando cada pormenor da visão por de trás do vidro da janela.”

A pele dela, mesmo apenas espiada da rua, tinha toda a promessa de um pêssego de verão. Trazia os ombros descobertos por um decote de um vestido fluido e branco, todo sarapintado de pequenas flores. Aquilo deveria ser a visão de uma ninfa, talvez daquele imenso Tejo poucos metros abaixo da pequena relojoaria, e Raul ficou paralisado de surpresa e vontade. Pior foi quando ela, talvez pressentindo o seu olhar nada disfarçado lá em baixo, abre a janela, e se coloca metade de fora, com os braços nus apoiados no beiral, olhando não na direção de Raul, mas três graus ao lado. Como se estivesse à procura de alguma coisa. Cruzaram o olhar por brevíssimos segundos, e nesse instante, conta-me Raul no escuro, teve a clara impressão de lhe ver as maçãs do rosto, salientes e sardentas, ganharem cor de sangue.

“Acho que fiquei condenado naquele segundo a perder completamente a cabeça por aquela mulher, ali feita princesa intemporal corando à janela.”

Nos dias que se seguiram a essa visão, Raul, até então no comando da sua própria fantasia, perde totalmente o controlo sob si mesmo. De dois em dois minutos saía da loja para espiar a janela da frente, para, de vez em quando, a encontrar sentada  devorando sol enquanto fingia olhar uma revista. Desgraçado Raul, enganava-se a arquivar as faturas e, para cúmulo dos cúmulos, confundia o ponteiros dos segundos com o dos minutos, e deste com o das horas. O tio, muito sério e trabalhador, observava o desleixe do seu novo ajudante, mas ainda sem compreender o porquê de tão súbita confusão.

“Um dia, estou eu sentado substituindo o meu tio ao balcão da relojoaria, quando as vejo, viúva de negro, e jovem loira, aproximarem-se da entrada da loja.”

Raul, nesse momento aparentemente calmo da loja, precipita-se para a entrada para lhes abrir a porta. Entram as duas olhando os relógios expostos na vitrina.

- Esse relógio que olham, o…, bom, não me lembro do nome, é intemporal, segundo dizem.

Era um belíssimo Timex, óbvio para qualquer relojoeiro. Levanta-se para lhes abrir a vitrina e mostrar o relógio, mas bate com força com o joelho no balcão. Nesse momento, entra o tio Francisco na loja que, normalmente incumbido ele de atender as pessoas, empurra com as palavras o jovem e trapalhão sobrinho para dentro.

_ Deixa Raul, que eu atendo as senhoras. E em que as posso ajudar?

A viúva coloca a mão na carteira e retira um relógio antigo.

_ Este relógio é uma herança para a minha filha. Tenho-lhe muita estima. Mas não funciona há muito tempo, ora dá as horas, ora se cansa de as contar.

Raul ouve estático a conversa e então aproxima-se do balcão de binóculo enfiado no olho, para ver o relógio. É então presenteado com um sorriso da jovem loira que, logo depois, volta a baixar o olhar para a peça que a mãe tem na mão. Raul tem a clara impressão de ter acabado de saborear o paraíso.

_ Não se preocupe que veremos com a maior atenção, minha senhora. Passe cá no final da semana.

“Eu mal podia esperar pelo fim da semana, mas concentrei-me como se fosse a última missão da minha vida em descobrir que doença teria o relógio da rapariga loira. Queria devolver-lhe a herança concertada e com os segundos precisamente afinados”

É então que, à saída para almoçar, Raul descobre que o seu único amigo de Lisboa, Altino Afonso, conhece as duas mulheres do prédio da frente.

“ Eu ia com pressa e quando o vejo de relance ao fundo da rua, penso para mim que não tinha muito tempo para me por ali a conversa com o meu amigo. Mas as duas mulheres, mãe e filha, saem ao mesmo tempo que eu para a varanda de casa, e, cá de baixo, vejo o meu bom amigo cumprimentar-lhes com um “bom dia, como vão hoje”?.”

Abriu-se ali a caixinha de Pandora e Raul mal pode esperar por indagar o amigo sobre as duas mulheres.

“Mas não queria nada ser óbvio. Era, na verdade, a última coisa que eu queria, que Afonso percebesse a mínima faísca, e por isso tentei parecer o mais casual possível quando lhe perguntei, ainda antes de o cumprimentar,

_ Queres vir almoçar?”

Contou-lhe então, o amigo Afonso, que eram as duas mulheres mãe e filha, de sobrenome Vilaça, e que estavam na cidade em casa de uns familiares a passar uma temporada.

 

"Quem conta um conto, aumenta um ponto."

 

Rescrever Eça de Queirós. Parte II

Janeiro 19, 2019

(Parte I aqui)

_ Por favor, não se importa de me indicar o meu quarto?

Depois de um dia que parecia ter ultrapassado largamente as 24 horas que contam os relógios, só queria estender as pernas na cama e entregar-me ao sono. A empregada conduz-me então apressadamente pelo corredor.

_ Já tem um hóspede no seu quarto. Decerto saberá que alguns dos nossos quartos são partilhados.

Estes pequenos albergues rurais são dotados de uma ousadia que faz lembrar a que mora nas crianças. Mas assento afirmativamente, só quero dormir.

Ela aponta-me então para o número 26, e volta para os seus afazeres. Toco na porta e aguardo o “sim” que finalmente vem do lado de lá. Entro com o meu saco na mão. Do lado esquerdo vejo uma cama ainda - ou já - desfeita, com um amontoado de roupa atirado aos pés; do lado direito, uma outra cama – a minha –coberta com uma colcha de chita. Quando levanto o olhar para cumprimentar o meu companheiro de quarto, vejo que se trata de Raul, a minha companhia de jantar. Sorrio em jeito de novo olá ao homem que já se encontrava de pijama.

_ Ora, bom, olá de novo. Peço-lhe que não repare nesta confusão, estava agora mesmo a tentar dar um jeito.

Raul agarra apressadamente o monte de roupa fazendo uma enorme bola de peças entre os braços. Olha à volta e decide pousar o amontoado de roupa assim mesmo, em cima da cadeira de apoio.

Fecho a porta atrás de mim, pouso a minha mala no chão e retiro o casaco, como se tivesse acabado de entrar em casa.

Já deitados, de luz apagada, as pernas finalmente ganhando aquela moleza inerte de um cansaço que parece transcender os caprichos da carne, não saberei dizer que razões terão levado Raul, agora de relógio de pulso pousado na mesinha de cabeceira, a contar-me a sua história. Dizem que um anónimo no escuro é o melhor ouvinte de segredos indizíveis. Talvez seja por isso mesmo que os padres se escondem em confessionários. E a sua história, ainda que de certa forma comum, não deixou de me entrar de forma terrível alma a dentro, dando corpo esta vaga agonia que me acompanhava desde a chegada ao Minho.

_ Conhecerá o Raul a família Borges, já que também é do Porto? - pergunto-lhe ainda antes da confissão e de forma a criar espaço para dizer as boas noites com simpatia.

No escuro Raul responde-me:

_ O amigo conhece? Conheço sim, família abastada, dizem que fizeram a sua fortuna à conta de muitos segredos. Eu cá não sei. Sei que é uma família muito bonita e indiscutivelmente elegante.

 

Quem conta um conto, aumenta um ponto.

Reescrever - Eça de Queirós. Parte I

Janeiro 18, 2019

Agora que penso bem, lembro-me que foi no Minho que conheci Raul Cardoso. Na
estalagem velha do centro da vila, para ser mais exato. Homem nem alto, nem baixo,
cabelo grisalho apesar de parecer novo, ou, pelo menos, mais novo do que a idade
que deveria ter. Mas tinha umas olheiras marcadas, cinzentas e fundas, ali bem
desenhadas, como se fossem a moldura de um quadro sorridente mas triste. Usava
uma barba bem aparada, também ela a despontar cinzento. Todo bem-posto dentro do
seu fato cinzento, olhava a horas no relógio de pulso algumas 3 vezes a cada 4
minutos. Cada vez que puxava o pulso para perto dos olhos para se certificar que
passara cerca de um minuto e meio desde a última vez, eu espantava-me com
aquelas mãos, pálidas e com dedos finos e compridos. Mãos quase tão belas como as
de uma donzela pianista.
Ora e isto era setembro. E setembro, no Norte, cheira a vindíma. No Minho, para além
do cheiro a uva, sente-se nas narinas o sal do mar. Os dias ainda são mornos, já não
se sufoca com o braseiro de verão, mas as manhãs declaram-se já bem frescas.
A viagem até ao cume de Portugal é uma prova dos diabos à resistência de um
homem. Horas e horas com curvas e contra curvas, em estradas e estradinhas, apesar
de ser um verdadeiro repasto para a alma de qualquer apreciador de vida, com um
extenso panorama de paisagens até lá se chegar. Tinha o estômago colado nas
costas, e os braços e as pernas padeciam exaustos de tanto tempo inertes. Os olhos,
esses, ardiam-me de forma feroz, depois de devorarem sofregamente mil e uma
paisagens. Já tinha desistido de me deliciar com aquelas vistas quando me deparo
com um velho convento abandonado, ali padecendo de abandono à beira da estrada.
As ruínas daquele antigo albergue de devotos de cristo ali plantado, sem almas para
lhe encher as paredes de rezas, fazem despontar no peito uma memória milenar de
algo que nunca chegou a acontecer. Vejo-me de repente, ali mexendo as terras
vestido de monge, procurando batatas e fé debaixo das pedras.
O sol já se começa a pôr mais cedo, fazendo prever a nostalgia dos dias pequenos de
inverno. E com a sua partida, cai um manto de orvalho por cima daquelas terras,
humedecendo as ervas e as folhas caídas. Agora, para além de uva e mar, cheira
também a terra recém regada.
Na estalagem jantamos os dois, eu e o Raul Cardoso. Eu, procurando satisfazer uma
fome antiga, depois de tamanha viagem, de comida e de conversa, e ele francamente
entretido com a novidade de uma companhia ao jantar. Enquanto molho os cubos de
carne estufada no molho, pergunto-lhe se é do Porto.
_ Sou do Porto sim, vejo que o meu sotaque me denuncia descaradamente!
_ Ah, o Porto. Bela cidade, lindíssimas mulheres!
A frase entra de rompante entre nós, interrompendo uma conversa casual e
moderadamente alegre. O meu companheiro de jantar perde nesse momento o sorriso
bem-disposto dos lábios, e encarna, momentaneamente, a figura de uma estátua
antiga cristalizada algures no tempo.
_ Sempre que lá vou faço sempre questão de visitar a sé, lindíssima a vossa sé. E
claro, passear a pé no porto é uma franca e asseadíssima lavagem das vistas.
Enfio neste momento a última garfada do estufado na boca. Termino o meu jantar
alguns minutos depois do Raul, que só então de se retira da sala de jantar desejando-
me uma boa estadia.

 

(Quem conta um conto aumenta um ponto)

Alma de lava

Janeiro 14, 2019

Sai de manhã bem cedo. Janeiro entranhado no mundo inteiro, o janeiro dali, da sua aldeia,  dias de céu limpo e frio feroz, geada virgem cobrindo os campos. Indiferentes ao gelo que se põe como manta no chão, os pássaros madrugam e pintam o ar com notas de música.

Puxa as golas do casaco para cima, procura afastar o frio do corpo caminhando depressa. O ar entra em flocos peito a dentro, as mãos encolhidas nos bolsos geram uma sombra de calor no abraçar dos dedos.

Mas por dentro tudo ferve numa ebolição imortal, de vida, de dor, de som e amor.

Pode gelar o universo inteiro.

Não há janeiro que valha à sua alma de lava.

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