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Histórias avulso

...

Novembro 24, 2018

Se ao menos o sol não se pusesse nunca,

e o céu fosse sempre como pedra turquesa,

pois a lua não me chega para sossegar o espírito,

nem as corujas piando no seu despertar.

Poderia eu ser e sentir apenas luz,

livre da escuridão que me assombra no breu da noite?

Mentira

Novembro 21, 2018

Passaram-se muito anos. O presente mostra-se, implacável, como réplica barata do que foi sonhado no passado. Tem a casa, a família, o nome, o estatuto. Já não tem mulher.

Já não tenho mulher.

Levanta-se do cadeirão da sala, esperguiça-se. Os músculos, cansado e mirrados, erguem-se, um a um, das costas soa um estalo. Dirige-se à cozinha e serve-se de um copo de água. Bebe toda de um trago. Faltam poucos minutos para todos chegarem. A mesa está posta com requinte: os talheres de prata antiga e robusta reluzindo, os copos de cristal milimetricamente colocados em frente aos pratos, estes de fina porcelada e debroados a ouro. Tomba das beiras da mesa uma enorme toalha de linho creme, impecavelmente engomada.

Volta para a sala e senta-se no cadeirão. Tem na garganta uma comichão persistente, a água não ajudou a secar a angústia de dentro. Mas chegou o momento, ele sabe. 

Nunca é tarde de mais para repor a verdade.

Abre o seu diário antigo, toca com as pontas dos dedos as folhas de papel. Escritas, rescritas, lambidas, choradas.  

Quis tudo e agora sou um valente nada.

Frases e frases contendo a memória da culpa, sombra omnipresente numa vida tão bonita de se ver de fora.

Sorri de escárnio de si mesmo. 

Rídiculo. Sou rídiculo.

A porta abre e os filhos entram um a um. 

_ Como vai pai?

Beijam a testa do pai, instalam-se na sala trazendo consigo um caos familiar e morno. Da sua cadeira ele observa a fotografia da sua vida, ali posta em mais duas gerações. Homens e mulheres feitos, já erguidos ao estatuto de pais e mães, falando, sorrindo, abraçando, contando. Ele vai respondendo, um a um, às questões que lhe vão fazendo.

Sim tem-se aguentado bem sozinho. Sim a tensão baixou. Sim tem dormido razoavelmente.

Mais um pequeno amontoado de mentiras, a darem mais volume à mentira mãe que lhe habita no peito, na lágrima, na história, na carne.

_ Vamos para a mesa?

E vão, sentam-se todos na enorme mesa da casa de jantar. Ele observa o seu legado todo junto, e não deixa de sentir uma ternura grande por de trás da camada triste que lhe cobre o coração .

A refeição toma-se demoradamente. Há brindes e risos, há histórias passadas, há uma intimidade que ele, por mais que tente, não consegue fazer parte. Excluído do seu prórprio projeto de vida. 

Terminada a sobremesa, levanta-se a custo do seu lugar. Apoia as mãos na mesa e olha os filhos, um por um. Estes, percebendo a postura do pai, vão-se calando, um por um. E ele, uma por uma, começa a cuspir palavras.

_ Chamei-vos aqui para vos falar de um crime que cometi.

Eles sorriem primeiro. Esperam um discurso inflamado de humor e ironia do pai, era bom senti-lo de volta.

_ A vossa mãe morreu, e fui eu que a matei. 

O sorriso derrete. O silêncio entra de rompante, ignorando a ausência de convite.

_ Matei-a sim, eu mesmo, matei a vossa mãe de desgosto. Encobri uma mentira toda uma vida. Encobri-a por cobardia, cometi-a por fraqueza de coração, quando, num dado momento da nossa vida, amei outra mulher para além dela. Todos os dias pensei em contar-lhe. Todos os dias deixei escapar o momento. Por medo, por insegurança, por culpa, por cobardia. Sou um cobarde, meus filhos, e agora, para além de cobarde, sou também assassino do grande amor da minha vida.

Os filhos já não olham o pai. Olham para os copos, para a janela, para o colo. Ao fundo, a filha mais nova chora.

E ele, volta a sentar-se, erguendo o copo em jeito de brinde,

_ Ao cobarde e grandessíssimo filho da puta do vosso pai,

Bebe um golo de vinho, pousa o copo, tira do bolso uma pistola antiga, pequena, e de cabo de marfim. Encosta o cano na tempora esquerda,

_ Pai!

e, depois de fechar os olhos espremendo para fora de si duas grossas e pesadas lágrimas, faz pressão com o indicador, 

e dispara.

Palcos

Novembro 16, 2018

_ A vida é um gigante palco.

Diz-me o senhor emigrante, agora cá pousado feito andorinha, para gozar os seus próximos meses de encanto luso de maresia e chouriço na grelha. Observo-lhe o sorriso das rugas, gosto sinceramente da sua sabedoria vivida.

_ Isso nem parece vindo de si, sr. J.

Ele ri-se com a boca muito aberta, e ajeita o boné que outrora foi vermelho. Coça o topo da testa, como que ajeitando os pensamentos.

_ Talvez, menina, talvez.

Deixo-me ficar em silêncio, dando-lhe espaço para continuar. Ele retira do saco um pedaço grande de pão velho, esmaga-o os dedos – grossos, grandes e de pele curtida pela terra e pelo sol –  e atira-o ao rio. Lá em baixo um amontoado de patos e pardais luta para alcançar as migalhas dispersas na água.

_ Mas é. Olhe que é. É um palco de um enorme teatro, às vezes cheio de audiência, às vezes com os lugares todos por preencher.

É uma visão triste da vida, penso para mim, essa de nos encararmos como atores de múltiplos papéis.

_ Desta vez não posso concordar consigo. Não há nada mais triste do que termos de fingir o que não somos.

Ele sorri.

_ Então e um palco é só feito de atores, menina? Há quem queira estar na ribalta, e há quem prefira o trabalho dos bastidores, criando a atmosfera necessária para os atores brilharem.

Surpreende-me sempre, velho emigrante analfabeto doutorado na arte da vida. Volto para casa com a alma refastelada,

Estarei no palco ou nos bastidores?

Quando a primavera rebentar de novo, tenho de lhe perguntar quem é o realizador desta incrível peça de teatro que é viver.

Confissões

Novembro 08, 2018

Perguntei-te baixinho enquanto dormias, 

o que é que amavas mais,
Se um beijo roubado à lareira,
Se uma lágrima liberta à beira mar.
Falei-te do que sinto quando chegas,
E do que me invade quando te vais.
Disse-te que é do sol que me alimento,
Mas que é na chuva que me encontro.
Confessei-te as minhas incertezas,
E do que encontro quando procuro.
Procurei-te quando sonhei menina,
E encontrei-te quando me fiz mulher.
Então chorei-te baixinho,
Porque agradecer e amar 
também se faz a chorar.
 
E Tu, meu homem dormindo,
respondeste-me cantando em sonho,
É de ti minha princesa,
É de ti que eu gosto mais.

Foge

Novembro 06, 2018

Apressa o passo. Por dentro consome-o uma sensação alucinante de fuga, uma ordem que lhe vem do estômago de forma indiscutivelmente autoritária,

foge,

e ele tem de fugir, andar depressa, não sabe do quê, mas tem de fugir. A urgência deste comando atira-o num abismo seco, os passos alinham-se, um por um, num caminho que se estende infinito à sua frente.

Há árvores, muitas árvores, há uma manhã imaculada e gélida, há um mar que ruge ao fundo, por de trás do manto de montanhas. Há muita coisa e não há ninguém. Só ele e a ordem de dentro,

foge.

Nos passos, um a um, forma-se um caminho. Nas pegadas, uma a uma, um amontoado de legados.

E então, quando o ar parece não chegar ao peito, por mais que inspire, por mais que expire,

toneladas de ar que não saciam fome alguma

quando do corpo sai água, sal de si, suor de alma, cansaço eterno expurgado pelos poros,

ele para.

Lá dentro a ordem cala-se. 

Gira o corpo sobre si, inspira bem fundo, o ar instala-se agora no peito, o coração acalma, bate, bate, bate devagar, e então,

ele volta seguindo as pegadas,

legados,

uma a uma,

pelo caminho que o devolve ao início.

"Olho por olho e o mundo acabará cego"*

Novembro 02, 2018

bolsonaro.jpg

Visto do lado de cá do atlântico, neste pequeno e pacífico país à beira mar plantado, é muito fácil julgarmos as decisões que um povo inteiro toma do lado de lá do oceano. Na minha pequena e segura realidade, não consigo conceber a ideia de uma criança saber disparar uma arma. Ando na rua e não tenho medo o fazer apenas por ser mulher.

Há muitas coisas que eu não sei e, por isso, e com a devida prudência, procuro abster-me de julgamentos. Até porque, e vejamos o que nos conta a história, o medo, o orgulho ferido, a destruição de uma nação, conseguiram eleger um Hitler. Oiçam os discursos dele e a reação do povo às suas palavras. Caramba era só um homenzinho baixo e dono de um bigode ridículo aos berros, e ainda assim, mergulhadas na desesperança de um pós guerra, as pessoas transformavam-se embebidas numa histeria coletiva. Assustadora vista aos olho de hoje, porque acredito que naquele momento o que as pessoas sentiam dentro de si, era esperança outra vez.

O medo e a derrota transformam-nos.

O que sei, ou pelo menos quero acreditar, e é nesse pressuposto que tento educar os meus filhos, é que a violência não se cura com violência. E um discurso que inflame ódios, que vá aos receios e preconceitos de cada um,

Como ouvi dizer, num circulo bastante próximo, agora é que vai ser, o brasil vai ficar limpinho de paneleiros. 

um discurso que provoque nas pessoas a revolta, o ódio, o olho por olho, dente por dente, só agoira coisas tristes.

Acabar com a bandidagem parece-me um princípio correto. O problema é o que é que Bolsonaro considera bandido. E o que é que é bandido para cada um daqueles brasileiros, que aparentemente, poderão vir a ter licença para usar armas.

A alma humana é uma manto infinito e imprevisível, e ignorante é aquele que acha que sabe sempre como reagiria perante as adversidades da vida. Olhando para a repetição dos factos é fácil perceber a força das massas quando espicaçadas pelas razões erradas.

Aflige-me algumas das barbaridades que já ouvi de pessoas que sei que são boas, aflige-me o que o cansaço e a desesperança provocam, e mais me aflige que essas pessoas - cansadas, desiludidas e à procura de uma nova esperança -  se unam e procurem acabar com essa desespero de alma de forma cega. A crueldade nasce no coração de um homem num minúsculo ápice, principalmente quando a individualidade se perde numa enorme massa zangada.

Bem sei que sou romântica,

há dores que não provei e que não quero vir a provar,

mas porque será que não vemos mais vezes a repetição de um Gandhi, ou de um Cristo – cristianismos à parte?

Porque é que é tão mais fácil seguir um

_ Mata.

Em vez de um

_Ama. ?

Não sei. E isto é apenas um blogue de histórias. Voltemos a elas que lá fora chove a cântaros.

 

*Mahatma Gandhi

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