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Tempo

por Ana sem saltos, em 26.06.18

Tinham passado talvez três anos. Ou seriam quatro?

Pouco importa, também, saber o detalhe do tempo que passou, o tempo, aliás, que deixou de lhe regrar a vida acumulando segundos no tic tac do relógio.

Esta fora a sua decisão quando, há três anos atrás,

ou seriam 4?...

esmagou o relógio de pulso com o salto do sapato, largou tudo,

casa, coisas, pessoas, amores

e foi embora.

 

Os dias de chuva miúda trazem consigo aquele tipo de tristeza perigosa para se tomarem decisões. E foi ao som da chuva dengosa, lambendo-lhe em súplica os vidros da janela, que colocou num saco pertences básicos e aleatórios,

uma camisola, uma moldura encerrando um beijo, um maço de notas, e uma pequena caixa azul que lhe encerrava memórias antigas,

e saiu.

Partiu.

Fugiu.

 

Agora vê vida em jeito de pausa, cantando de novo na janela. E o tempo que, mesmo deixando de badalar nos ponteiros do relógio, continuou batendo-lhe forte no peito. Envolvendo-a, mole e sedutor como lençol de cetim, na inevitabilidade das coisas.

Levanta-se da cadeira e olha a janela.

O mundo fica abstrato olhado pela lente das lágrimas do céu,

ou seriam as suas embaciando-lhe a versão da sua história?

 

É por isso que não se tomam decisões em dias de chuva miúda.

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Caminhadas

por Ana sem saltos, em 25.06.18

Procuro amenizar os meus medos e culpas em caminhadas que faço, regradas, ritmadas, aceleradas.

O que quero é tonificar - mais do que o corpo - a alma e a mente.

Arrumo ideias, ainda que, três pausas depois, a vida mas desordene outra vez.

Sou obra inacabada e padeço, ocasionalmente, da doença de me sentir cega de mim.

 

Espero que com o passar dos anos deixe de precisar de cansar o corpo para extenuar a alma triste que há em mim.

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Bate coração

por Ana sem saltos, em 19.06.18

Bate, bate coração,

Vem devagarinho, anda,

vem e faz-me tua canção.

 

Despe-te de tudo e canta-me,

Faz de mim grito agudo,  

Sonata bonita de antiga paixão.

Quero ser sempre melodia

Cantada, pintada, chorada, sonhada,

borrões de alma

no sonho,

no céu.

 

Mas bate,

Bate-me coração,

Acorda-me do mundo,

Liberta-me de mim.

 

Se deixas de me cantar,

Eu deixo de acreditar.

E eu fico tão só, coração,

quando não consigo sonhar.

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Degustações

por Ana sem saltos, em 14.06.18

Pergunto-me, nas minhas crises líricas, se conhecerei todos os sabores das lágrimas de uma mulher.

Conheço as que sabem a angústia, já provei também as que temperam o desespero. Sei o sabor doce das lágrimas de alegria, e a explosão das lágrimas de emoção. Já conheci o peso das da perda, e a expectativa das da antecipação.

A vida vai-me dando, aqui e ali, provas de degustação de lágrimas. Estou sempre atenta a todas as lições, ávida de aprender o meu cerne.

Para já, continuo convicta da minha verdade.

As lágrimas mais perigosas são as que não conseguimos chorar.

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Ser mãe

por Ana sem saltos, em 12.06.18

Ser mãe trouxe-me muitas surpresas.

Há as óbvias e badaladas, e a descoberta de que de facto são todas verdade verdadeira. Sim, confere, o amor é incondicional e absurdo, dói de tão bom que é. É bruto e instintivo, possante e selvagem. E  assusta, é verdade, porque amores desta envergadura carregam consigo o medo. Medo da dor deles. Medo da perda deles. Medo que o mundo não lhes chegue (e o pior é que não chega). Ter o coração a bater fora do peito é a coisa mais bonita e mais assustadora do mundo.

 

E ainda assim, houve mais, ainda mais, nesta função que a vida me trouxe. Ganhei eu, a compensar qualquer cansaço, medo ou dor.

Dei por mim, mulher adulta, a reencontrar as fadas de menina. O mundo a poder ser mágico, e queda a poder ser estrondosa e dolorosa. A escuridão a impedir-me de ver, e eu a sempre a sonhar mais alto.

Dei por mim a querer ser exemplo para a única coisa que lhes exijo na vida. Que sejam felizes. 

 

Tenho uma nova arma desde que fui mãe. Voltei a acreditar, e acreditar faz-me lutar.

 

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Monstros de dentro

por Ana sem saltos, em 11.06.18

- Conta-me, podes contar.

- Não sei se consigo, o problema é esse.

 

Bebíamos cerveja pelo gargalo, sentadas na areia da praia. Frio gélido e húmido, daqueles que entra corpo adentro, acorda-nos a alma num estalo.

Silêncio de mundo bonito, não há música mais bonita do que a que canta o mundo sem nós. E eu entrego-me apenas ao som da natureza bruta no estrondo das ondas. E ali só nós duas, choro profundo dentro de mim, e a voz dela ao meu lado abrindo portas,

Podes contar-me.

 

O problema do mundo instantâneo e partilhado em que vivemos, da beleza e perfeição espelhada nos likes e loves dos outros, online e offline, é que se criam monstros soberbos dentro das pessoas.

Ficamos ilhas afogadas na solidão de milhões de oceanos vazios de mar.

Então disse-lhe baixinho, enfiando o nó mais lá para o fundo de mim com um golo grande de cerveja,

 

- Tenho um monstro dentro de mim.

 

Ela não me ouviu. Rebentou o sete furioso à nossa frente. Embrulhamos as duas as pernas na manta, cheiramos de olhos fechados o pulverizar das lágrimas do mar à nossa frente.

Deixei o monstro cá dentro. Tranquei-o de novo, encostei a minha cabeça no ombro dela e disse-lhe,

 

- Está tudo bem. Está tudo bem querida amiga.

 

Ela encostou a cabeça na minha e respondeu,

 

- Está certo. Vou fingir que acredito. Bebe sua mula, quando quiseres chorar avisa.

 

Sorrio por dentro.

A solidão acompanhada sabe a mar zangado.

Está tudo certo. Está tudo certíssimo.

 

(sobre músicas que são histórias. E neste caso, clássicos que cantam sobre silêncios que crescem como cancro. Em memória dos Bourdains desta vida, que vivem com monstros às escondidas do mundo)

 

 

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...

por Ana sem saltos, em 10.06.18
Amo-te. 
Amo os teus recantos, as rugas que nos contam, amo o teu sorriso, amo o teu coração, grande grande, soberbo como o mar. 
Amo a forma como te dás, mais ainda como recebes. 
Amo que me ames, amo que me abraces, amo que me procures e mais ainda que me encontres.
És a minha metade melhor. 
És o meu projeto de vida.
E mesmo que erremos, mesmo que soframos, mesmo que nem sempre tudo seja paixão, eu amo-te, amo mesmo, amo por amor. 
Ergue-me no teu abraço, é lá que me encontro.
 
Até velhinhos.
 

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Danças para mim?

por Ana sem saltos, em 07.06.18

– Danças para mim?
Não sei se me lembro do que tenho de ser para voltar a amar-lhe a música. Mas tento, agarro a saia e enrolo o mundo na minha mão. E ele chora, vejo-lhe as lágrimas de macho ferido, e eu solto o cabelo como dantes, quando não sonhava com as garras imundas dos franquistas.
E a guitarra chora também, lamento quente que me embala, e eu danço, novamente, lavando a boca e as pernas das mil patas que me tentaram domar.
Sou cigana de alma indomável, e danço, amor, claro que danço. E tu, tocas para mim?

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Horizontes

por Ana sem saltos, em 06.06.18

- Éramos uns miúdos, lembras-te?

Sorris olhando o horizonte ao fundo. O horizonte rasgando o mundo em dois: o mar que existe porque se sente no mergulho, e o ar que se imagina porque não se vê. E o teu sorriso continua tão bonito.

- Lembro-me sim.

E como o horizonte rasga o mundo em dois, o que existe e o que se respira, também nós nos rasgamos, algures na vida que andou. A sobreposição dos segundos em histórias sempre me apaixonou e apavorou.

- Éramos um lembras-te?

E o teu sorriso desfaz-se, como floco de neve na minha mão. E no horizonte, ao fundo, o sol mergulha escaldante, despede-se da metade do mundo que tem sonhos, para mergulhar ma metade que tem cor e sabor.

- Ás vezes não sei se és fria, ou se simplesmente não és deste mundo, juro.

Olho-te a cara que não me olha e percebo a faca que enterras no meu

nosso

coração.

Dói de morte, dói tanto, dor lancinante que se propaga em ondas por toda eu. Dor que assumo, que é minha por direito, conquistei-a sozinha.

E então faço o que sempre fiz quando o mundo me esmaga, e eu sou pequena demais para a alma que há em mim. Desfaço-a em mar e liberto-a de mim.

Continuas olhando em frente, parece que ainda consegues ver um sol que já se despediu. E eu apaixono-me perdidamente por ti outra vez.

Agarras a minha mão com a esperança do sol ao fundo. Procuras-me no limbo da luz que já se foi, do escuro que ainda não chegou.

E eu choro a vida, choro o sol, choro o mar.

E tu, limpas-me as lágrimas sem me olhar.

 

Vida rasgada ao meio, como o mundo feito em duas metades.

Aquela que sonhamos e respiramos, e aquela que existe, e que, ainda que seja fria

gélida, tão gélida que dói,

é nela que mergulhamos.

 

 

(soubre músicas que são histórias)

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