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Lágrimas de céu, rainha sem destino

por Ana sem saltos, em 24.04.18

Olho a janela.

Montanha imensa ao fundo,

Atrás do vidro lambido pelas lágrimas dos anjos.

Penso no ontem desdobrado em música,

Timbre de mim em tons de infinito.

Ah amontoado de momentos e tempos

Perdidos na minha existência,

Acaso bruto sem início nem fim.

 

E deixo o céu chorar,

feita rainha benevolente,

chora, chora céu meu,

guardião de sonhos antigos,

protetor da fé e da esperança

pinta-me a história de vida

em quadros de aguarela chorada.

 

E do nada cresce uma raiva absurda,

e então não deixo,

ordeno, antes, que o céu chore.

Passo de benevolente a tirana,

Ciente e crente nas minhas vontades.

E agora chora, vamos,

chora em soluços e solavancos,

chora mundos e fundos,

despe-te de pudor, e chora,

despeja-me em fúria e gemidos

dilúvios de lágrimas de amor.

Mas chora, céu,

chora-me toda,

grita o mais escuro silêncio,

berra o mais gritante vazio,

e mostra-me,

sem vergonhas,

não a tua,

mas a minha dor.

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Canção

por Ana sem saltos, em 18.04.18

Sinto em mim a força do mundo,

Rebenta cá dentro a mais doce esperança,

E sei que caio, mas ergo-me,

Sei que choro, mas lavo-me.

 

Sei também a música que sinto nesta dança.

E canto, ah se canto,

Quando me elevas em sonho maior.

E nos intervalos de ti, amor,

Sonho, salto, voo e encanto.

 

Se te perguntar baixinho,

O porquê deste amor,

Promete-me, sela-me, jura-me,

Que me falas no nosso sabor.

 

Não há lágrima que nos valha,

Maresia imensa de antiga paixão,

Quero beber o mundo inteiro,

Ser nota eterna da tua canção.

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Fome

por Ana sem saltos, em 12.04.18

Eis-me aqui sentada no cume do sonho, linha ao fundo que se estende até o fim que eu quiser.

Aqui sou rainha sem trono do meu destino.

E agora? Faço o quê?

Ignoro os sinais do tempo que me atravessam e rasgam, não a carne, honestamente, e perdoem-me a bestialidade, que se foda a carne.

É a alma que me atormenta, é dela que vivo, que respiro, a cima de tudo, é-me tão palpável,

a alma bruta que há em mim,

que posso toca-la, trinca-la, mordê-la. É alma aquilo que sou, e este é o grande tormento dos meus pesadelos.

Então agora, aqui sentada no topo do mundo feita onda no mar, destino ao fundo acenando-me em vénia, elevo as mãos no ar, agarro com força o céu inteiro, e engulo-o.

Assim.

Todo por inteiro num só trago.

Nesta era que vivemos, tão rápida e instantânea, tão fora de prazo findo o segundo, preciso imensamente de um pouco de céu. E como não sou de meias medidas, agarro-o com as minhas duas mãos e tomo-o todo,

num só enorme beijo

para mim.

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Asas

por Ana sem saltos, em 09.04.18

Sentir em mim mais do que o medo,

e se eu sou sopro de pavor,

pressinto o mundo que chora nas sombras,

e então,

ah então,

sou alma, suspiro e coração,

e canto-te, tomo-te, grito-te

na vertigem escura da noite.

 

És meu, amor,

ainda que a posse que te sinto,

seja sombra leve de uma bonita miragem.

Só te quero com asas

e por isso és meu, sim,

alma, carne, boca e canção,

mas jura-me, amor,

jura-me que não deixas de voar.

 

 

Alma que me bate cá dentro,

mar imenso este que me habita,

onda em espuma branca me enche e vaza.

Marés de imenso.

Marés de nada.

Valem-me as tuas asas,

abrigo de sonho e lágrima nesta longa viagem.

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Sahara

por Ana sem saltos, em 04.04.18

São tantas palavras, tantos desenhos e empenhos, tanto os minutos que se alinharam até me atirar aqui, rendida, entregue, prostrada aos Teus pés.

E pergunto-Te apenas,

Porquê?

 

E a raiva que me invade é maior que os maiores tamanhos,

pobre e ridícula galáxia, reduzida a menos de nada,

da inércia perante o óbvio, da paralisia perante o medo.

E grito para dentro, entrego-me por inteiro, assumo-me perante o mundo,

sou eu sim, mulher humana e pequenina,

tenho medo e caio,

erro,

hesito,

recuo.

E agora, vais fazer o quê? Vais fazer o quê mundo cretino?

 

Mas nada faz o mundo, mantêm a sua rota repetida até ao infinito. E o meu rugido perde-se, evapora-se, dissipa-se no ar.  Até porque não sou leão alfa reclamando fêmea na savana.

 

[Não resisto ao esboço de um sorriso]

 

Quão triste é a ilusão de tamanho se mais não somos do que grão de areia atirado em areal?

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