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Por amor

por Ana sem saltos, em 22.03.18

- Então que é feito de ti?

Fiquei só a olhar aquele quadro milenar da minha avó sentada, sorrindo, olhando-me bem fundo nos olhos, fingindo na perfeição que me vê, senhora altiva que se recusou desde o início a aceitar a cegueira,

mal seria de mim, eu deixar que me fechassem as portas da alma,

e assim foi.

Deixou de ver a cor e a forma das coisas, mas nós nunca deixamos de a ver vendo-nos, por mais densa que fosse a névoa a cobrir-lhe as pupilas.

E vendo-a olhando-me, mesmo sem me ver a cor e a forma, eu sabia que me via, toda, o fosso por dentro, grande e profundo, e as lágrimas inteiras, milhões delas, guardadas no canto esquerdo do meu ventrículo, e eu tive vontade, tanta vontade, de lhe contar tudo de uma só vez, falar-lhe dos gritos que dou de boca fechada para dentro da minha almofada, do trambolhão absurdo que me derrubou, quando de criança virei adulta, esquecendo-me, no entanto, de deixar amadurecer o coração. E fiquei,

para sempre,

em tudo,

condenada a morrer de paixão.

 

Mas não disse.

Encostei a minha cabeça ao seu colo, braços embrulhando os joelhos, como quando era pequena e chorava a alma inteira por um pequeno arranhão.

- Tudo a andar minha avó, tudo a andar,

disse-lhe pintando o tom de voz com as cores mais alegres possíveis. Mas depois encostei os olhos aos seus joelhos,

- tudo a andar minha avó, tudo a andar,

e deixei desaguar o monstro triste que há em mim, ainda que a voz saísse em tons pastel, notas de música em harpa de anjo, porque por amor,

ah, por amor,

conseguimos erguer sorrisos castelos das cinzas do que ardeu em nós.

 

E ela, como dantes, afagou-me o cabelo, dividiu-o em três partes iguais, e começou a fazer-me uma trança, sorrindo com aqueles olhos cegos de formas mas tão sábios na arte de ver as cores do coração, deixando desaguar a água dela, a mesma que, por amor,

ah, só mesmo por amor,

esquecemos as nossas dores para lavarmos as de quem amamos.

 

- Ainda bem, minha querida. Ainda bem.

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Estações de alma

por Ana sem saltos, em 19.03.18

Pedacinhos de alma, aqui e ali, feitos tempestade e furacão, choro gritado, rugido de trovão, e logo depois o sol, morno e sedutor, abraçando por dentro um quente que vem do fundo, e a luz, claro, a luz que volta a dar cor às coisas da alma e da vida, nas gotas que se preparam para subir novamente ao céu, desta vez em lágrimas de arco íris, na esperança que se vê rebentar nas copas das arvores, e no chão agora forrado de verde e pintas de cor.

A vida é como o mundo à volta do sol, cheia de estações que se repetem mas sabem sempre a uma primeira vez.

Há inverno, outono, primavera e verão, às vezes tudo ao molho e ao mesmo tempo, a acontecer dentro do meu coração.

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Todo

por Ana sem saltos, em 16.03.18

- É o fim, então?

Pergunta-me com aquele olhar meio morto, meio triste, meio ausente. Tudo meio.

Esta necessidade de rotular as coisas da vida e da alma acaba comigo.

Olho-o de volta e suspiro impaciente. Cheiro-lhe a suplica por uma qualquer palavra, é tão visível, tão densa e palpável, que quase lhe toco com as pontas dos dedos.

Tento travar a ânsia que me invade, a vontade indescritível de lhe bater pela sua incapacidade de leitura toda uma vida. E logo eu, que sou um amontoado de letras sedento de ser lido. Mas não aguento e cuspo-lhe,

- Toda uma vida, eu do teu lado esquerdo, e tu olhando para a direita...

E de repente, não sei bem explicar em que segundo isto aconteceu, algures no meio do silêncio gritante da nossa sala, das fotografias que nos trancavam sorrindo em molduras, algures, ali, aquele meio que me perdeu é engolido por um gigante todo, e eu vejo-lhe de volta o homem inteiro, nos ombros direitos, no olhar de frente, fundo, bem fundo de mim, e, zangado? Sim, furioso. Vejo o meu homem de volta nas mãos novamente pulsantes de vida.

Encosto-me para trás sem fôlego, surpreendida com a minha surpresa.

- Como te atreves a dizer isso?

Não lhe respondo. Não era com ele que estava a falar, caramba,  não era com ele.

Ele levanta-se e eu agarro-lhe a mão.

- Espera...

Ele para de costas para mim e espera.

O tempo para com ele, já não me lembrava do seu poder. Oiço-lhe o respirar acelerado, no silêncio imenso que nos rodeia, e eu quero-o com todas as minhas forças. Quero-lhe a alma, o olhar, as mãos, o ar. Quero-o todo, por inteiro, cansada de tanto tempo a meias metades.

- Desculpa-me

digo-lhe por fim,

ele não se move, espera de costas para mim,

- desculpa-me

e eu não me controlo e choro por fim, numa explosão de tudo e nada vendo-me à beira do fim,

- desculpa-me

ele volta-se, então, e eu vejo-o de novo, ainda que não me olhe, cerrando com força os olhos, como se quisesse reter o mundo inteiro lá dentro.

Levanto-me sem lhe largar a mão, aproximo-me chorando, junto a minha boca à dele, e digo-lhe bem para dentro dele, sussurrando um segredo só nosso, longe do mundo que existe para além nos nossos olhos fechados,

- desculpa-me.

 

E ele abre os olhos, liberta a alma toda no estrondo que sempre nos fez, e entrega-ma de novo, nas mãos, na boca, nos ombros, no ventre.

E eu faço-me inteira, finalmente toda também, e recebo-o com fome e vontade, não só do todo que lhe vejo de novo,

mas da minha metade perdida com o meio dele.

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Música do coração

por Ana sem saltos, em 15.03.18

Saio de casa particularmente leve naquele dia.

Há no ar uma espécie de esperança, não sei bem explicar como é esta sensação de leveza etérea.

Devagarinho vou tomando rédea à minha vida e aos desencontros que dela emergem. Desencontros de corpos, de almas, de paladares, de cores, de cheiros. Caramba, que às vezes tudo é um soberbo desencontro.

Decido então dar velocidade ao passo, sinto-me tão leve que temo, por instantes, que uma brisa de cheiro quente me leve pelos ares.

E sorrio,

Tão bom este franco prazer que sinto em sorrir sozinha,

imaginando-me pétala de flor de jasmim, deixando o meu rasto no ar.

Eis mais um desencontro, este francamente repetitivo, entre a realidade que deveria ser

e sou, eu sei que sou

e o conto de fadas com que por vezes me visto, cheio de brilho, bondade azul e passarinhos que nos vêm comer à mão.

Acelerando o passo saio do desencontro e encontro-me então num ritmo mais forte e acelerado do coração.

Felicidade suprema que me invade quando isto acontece. Um encontro, no meio de tantos desencontros, entre o meu coração carne, e o meu coração emoção. Aproveito esta degustação minha,

só minha,

de encontro comigo mesma, e deixo correr o tempo, os cheiros, o caminho que fica para trás.

Fico só assim, eu feita flor de jasmim, a ouvir a música do meu coração.

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Perguntas

por Ana sem saltos, em 12.03.18

Podia ter feito um milhão de perguntas.

O momento era propício, a solidão em quadro bruto, as ondas em estoiro, a tempestade em fúria. O momento que gerou aquele acaso, um acaso que fez nascer um milhão de outras coisas.

Mas ali estávamos nós, debaixo de um choro tremendo dos céus, arrastados por um sopro magnânimo dos confins do mundo, afogados em quatro vidas inteiras de palavras que,

desculpa, eu bem tento, mas simplesmente,

não existem para falar do que sinto, do que sou, do que sei, e

principalmente,

do que não sei.

 

E o que não sei é grande demais, não me cabe, às vezes, na constante interrogação,

que mundo é este que me trouxe aqui, que vidas se embrulharam umas nas outras até chegarmos a este preciso segundo, debaixo deste preciso temporal,

não bastasse a fúria que há em mim,

olharmos um para o outro findos milhares de segundos sem som, e eu perguntar-te,

quando poderia ter feito um milhão de perguntas, logo eu que junto em mim tanta coisa que não sei,

- Estás ensopado... Tens frio?

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Pesadelo maior

por Ana sem saltos, em 06.03.18

Acordo num salto. Demoro tempo a perceber onde estou, demoro tempo a perceber quem sou. Mas o tempo, ali, não surge nem urge, e do salto que me acordou, ergo-me numa correria desesperada, agarrando o meu irmão pela mão. Tento correr mais depressa, mas sou mais pequena do que me julgo. O meu irmão, puxado por mim, chora muito alto, e ao fundo colapsa mais um prédio ao som do estrondo. Parece sinfonia da morte, requiem mais que perfeito como hino à destruição que nos rodeia. Mas eu sou menina pequena e não tenho medo. Sinto antes pânico. Quero ajuda, não consigo mais decidir sozinha. Rebenta mais um, e, de repente,  o meu irmão já não está seguro na minha mão.

Grito com a maior força de mim, ainda que seja pequena pequenina, e não me lembre mais do que é isso mesmo, ser menina pequena, criança pequenina. Escavo com as unhas a terra de baixo de mim, ergo pedras maiores que o meu tamanho. E grito, grito sempre, não sei onde estou, não sei de quem sou, mas ajudem-me, por favor, alguém me pode ajudar? Senhores, que atiram bombas do céu, podem parar só um bocadinho? Não encontro o meu irmão aqui de baixo, cavo, desbravo, mas não o oiço, porque é que ele parou de chorar? É que eu não posso ficar sozinha, percebem?... senhores que atiram bombas do céu, podem parar só um bocadinho por favor? Só até encontrar de novo o meu irmão chorão, não sei que mundo é este em que não o oiço chorar...

 

Sento-me na cama.

Tenho o coração em fuga de mim na minha boca, nas minhas mãos, no meu peito.

Respiro fundo. Não sou pequenina, não caiem bombas do céu.

Aqui não caiem bombas do céu.

 

bombardeio-696x639.jpg

 E Tu Senhor? Ouves aí em cima o choro dos anjos?

 

 

 

(Sobre músicas que são histórias. Ou, neste caso, que são lamentos de anjos e que, infelizmente, não são só histórias. É este o mundo que queremos para nós? Já que pouco fazemos – mudar de canal não apaga o horror –  saibam aqui como ajudar um bocadinho)

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Exagero

por Ana sem saltos, em 02.03.18


Quando procuro incessantemente paz, sou tempestade absurda. Às vezes desisto. Entrego-me com sinceridade ao agora, bebo com sede os prazeres que a vida me dá. E sonho, quero, desejo, almejo, a vida que tenho, aquilo que semeio e depois colho.
E ainda assim, vivo em constante tumulto cá dentro, ainda que pareça somente brisa. Porque não gosto, amo. E quando amo, amo à bruta, amo de paixão. Quando não gosto também.
O meu filho mais novo disse-me em tempos, enquanto via bonecos:
Mãe. És um exagero. (Assim: éjumejajero)
Sabedoria certeira nos seus imensos 3 anos de vida.
Exagero. É isso que sou sim.

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