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Um dia

por Ana sem saltos, em 28.02.18

Um dia o mundo vai girar ao contrário.

A maré cheia será um enorme vazar,

e a lua nova um absurdo brilhar.

Encontrarás flor de amendoeira no teu leito,

nas noites mais frias de dezembro,

e mergulharás sem porquês no seu cheiro

porque não vais querer saber a razão,

vais simplesmente entregar

e sei, tenho a certeza que sim,

vais sorrir e vais adorar.

 

Um dia o dia será noite,

e verás que os maiores segredos

revelam-se no escuro,

à revelia do ver.

Será indiferente o como e a cor

que os outros te querem e vêm.

Porque um dia,

prometo-te,

vais acordar e saber,

que a terra não precisa de girar ao contrário,

para te fazer ver, sentir e crer,

que o mundo é um acaso maravilhoso,

e que esse acaso que fez o mundo,

é o mesmo te fez

(e te quer, todo, em absoluto, por inteiro)

a ti.

 

Vais aproveitar?

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Vês-me? (II Parte)

por Ana sem saltos, em 26.02.18

Não me lembro bem dos segundos que ocuparam o tempo até àquele momento. Nem sei bem onde estamos, creio que o mundo desapareceu. Sou eu, e ele, e 34 anos, tudo fechado num quarto morno iluminado com três velas quase no fim . 

Não falamos, não respiramos, não existimos, qualquer gesto será um excesso e poderá quebrar o desenrolar dos segundos.
E ele olha-me, e eu sei que está nervoso, ainda que me sorria daquela forma que só ele me soube sorrir, como se eu fosse a única estrela no céu.
E eu olho-o e estou nervosa, mas isso é evidente em qualquer traço, não tenho qualquer sabedoria na arte de esconder o coração. Por isso choro imóvel, olhando-o nos olhos. E pergunto-lhe em silêncio onde foi que nos perdemos, porque foi que nos perdemos, e as palavras que trocamos com a boca na boca, e o coração que lhe entreguei desfeita em mole paixão, e as juras que não proferimos mas selamos?
E se chorava só com a água expulsa da alma, começo, então, a soluçar de joelhos no chão.
Lá fora, do outro lado da janela, o mundo acontece, ainda que ali, na luz morna do quarto, o mundo e os tempos tenham parado exatamente há 34 anos atrás. Antes do fosso que se abriu, antes da fuga, da mentira, antes de tudo, quando eu era somente esperança e o beijei na boca esmurrando-lhe o peito.
Ele deixa-me chorar, dá-me o espaço que preciso para ser alma e coração em suor voz e lágrimas, e eu odeio-o por isso. Não odeio não. Nunca odiei, também não sei o que amei naquele homem que viveu sempre somente nas minhas histórias. Nem sei o que lhe faça agora que é real e está algures à minha frente, esperando por mim.
- Não fiques aí a olhar para mim, por favor... vai-te embora...
E ele não fica, e lá fora oiço música, creio, e ele não vai embora, e oiço também vozes de pessoas na rua, e chove a cântaros mas está calor, está tanto calor que acho que vou morrer sufocada ali.
E já não estou de joelhos chorando sozinha no chão, estou elevada no ar,segura no seu abraço, mas continuo compulsivamente a chorar. E lá fora uma mulher ri muito alto, e sinto de repente, um cheiro intenso a bolo de canela. E o trovão que precede a luz acontece, e eu já não estou num abraço, estou deitada, e ele já não está nas minhas histórias, está ali, aqui, está em todo lado em mim. E estoira o céu e o calor que me engole, e eu já não choro mas canto em suspiro a musica que há tanto tempo ficou presa em mim. E ele não é miragem de sonho revivido vezes sem conta, é homem e é carne querendo, tendo, porque sou toda coração não só na boca, mas principalmente nas suas mãos, e bem sei, avó querida, bem sei, uma senhora não se mostra, mas como se existe com tudo isto fechado cá dentro? Como se é, ainda que não senhora, com a vida que me corre o corpo e me atira naquele salto vertiginoso?

Silêncio de súbito lá fora, e cá dentro morremos os dois, certamente, ainda cheira a canela, mas as velas derreteram-se por fim.
Quando me embrulho no silêncio escuro do quarto, oiço-o então a chorar. E abraço-o no meu peito para lhe beber as lágrimas todas, uma por uma.
Só paro quando tiver bebido toda a sua versão da nossa história.

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Vês-me?

por Ana sem saltos, em 26.02.18

- Estás igual,

disse-me ele, olhando-me 30 anos depois, 34 para ser mais exata, e eu, olhando-o de volta, nada vi de igual ao tempo em que por de trás do azul escuro dos seus olhos, havia uma voz que me puxava para dentro, como se eu fosse peixe minúsculo em remoinho gigante. Fitei-o, procurando de volta a vida que havia. Devo ter falado sem dar conta das palavras que cuspi, devo ter-me exposto novamente, eu e esta minha mania de ter o coração na boca, já a minha avó me dizia, tão querida, sentada na sua poltrona e bengala milenar na mão,

- Tino na língua, minha querida. Uma senhora não se mostra,

mas eu nunca soube o que era isso do tino, o que era isso de ser senhora. Fui vendaval toda a vida, e aquela situação ali, olhando-o 34 anos depois, uma vida inteira passada à margem de um enorme suspiro, estava a enlouquecer-me. Ele ter desviado o olhar ainda me enfureceu mais.

- Não estou igual não. Nem eu nem tu. Aliás, quanto mais te olho menos te vejo...

E ele encostado na cadeira, braços cruzados no peito, olhando o céu escuro em ameaça de trovão por cima de nós, sorrindo?, talvez, perdido, creio, muito longe dali de onde nos encontrávamos, eu com o coração explodindo na boca, ele algures numa realidade paralela aquela.

E então endireita-se, põe os braços na mesa, chega-se para a frente, e olha-me nos olhos a poucos centímetros de mim.

Engulo o coração de volta, meto-o de novo no peito, entre as costelas, bate aí, sossegado, bate, mantém-me viva, por favor,

e procuro ansiosa o ar que, de súbito, desapareceu num buraco negro denso e profundo.

O mesmo que encerra a nossa historia.

E no ar que não respiro, o mesmo cheiro a tabaco e lavanda, que me faz,

 

sempre fez,

 

recuar aos tempos que era recebida num salto abraçado pelo meu avô.

 

- E agora já me vês?

 

Atrevo-me a encara-lo de frente também, muito embora me sinta perdida, agora, que engoli o coração e não lhe sinto mais o sabor na boca. Fico sem chão sem o meu coração a falar por mim.

E então vejo, sim, por de trás do cinzento que lhe esfumaçou o azul, outrora mar imenso que me engoliu, a réstia da voz que me atirou em doce abismo, naquele último dia em que o vi,

ele sorrindo de braços abertos na beira de um precipício,

- se não me beijas salto,

e eu, claro, beijei-o, meia em lágrima de choro, raiva e amor,

e o mar que rugia ali de baixo de nós, foi de repente todo enfiado naqueles olhos.

E eu afundei-me, afoguei-me, morri e nasci creio que para sempre.

 

- Vejo sim...

Ele sorri e volta a encostar-se na cadeira.

- É como te digo. Estás igual princesa.

 

 

 (Sobre músicas que são histórias. Na verdade inclui a música depois de ter publicado o post, mas foi esta a banda sonora à minha história sobre reencontros. Descoberta no xilre. Um muitíssimo obrigada)

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Chapim

por Ana sem saltos, em 23.02.18

Queria voar num dorso de um chapim,

saber a cor de cada pedaço de ti.

Correr-te tudo com vagar.

Lágrimas, curvas, sorrisos e anseios

Saber-te de cor no mais fundo de mim.

 

E eu sei que sei, claro que sim

Se todos os segundos que somas em ti,

São depois as horas que se desdobram em mim.

Mas perco a esperança, por vezes,

Vendo o mundo feito em nevoeiro de lágrima.

 

Se te disser baixinho ao ouvido,

Aquilo que és dentro de mim,

Se te murmurar em noite eterna

que gosto de ti a sério,

que te amo por amor,

vais olhar-me no fundo dos olhos,

vais acreditar em mim?

 

Mergulha, amor.

Afoga-te em mim

Vamos voar os dois

No dorso de um chapim.

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...

por Ana sem saltos, em 21.02.18

Por norma acontece assim.
Quando me sinto pequenina e sozinha, tu vens e engoles-me por inteiro num abraço que me faz crescer de novo.
Não sei como é este amor, esta ânsia que às vezes faz dor, não sei como é, juro que não sei, por mais milhões de segundos que se alinhem na nossa história e sabendo eu que destino é só canção...
Sei apenas que me elevas, embalas, ressuscitas, e eu, pequenina, caibo toda nas tuas mãos.

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A tua voz

por Ana sem saltos, em 21.02.18

- Bom dia menina!

Respondo-lhe com um aceno de cabeça e um sorriso, passo diretamente para a zona da fruta. Não estou capaz de proferir palavras hoje, aliás, hoje mais que nunca. Preciso de cheirar uma manga, de sair daqui, como saio de dentro da minha cabeça?

Não encontro mangas, não há mangas, não é possível não haver mangas.

E de repente aquele espaço é minúsculo, e o senhor a sorrir-me sufoca-me, e eu quero chorar mas estou a sorrir, e então salto por cima das pessoas, não sei como cheguei a fazer, mas creio que saltei mesmo por cima das pessoas que estavam na fila, imunes ao que por dentro me esmaga. Saio.

 

A tua voz no meu ouvido,

És minha,

 

Eu acreditando em tudo, claro, mundo inteiro com cheiro a manga,

 

E corro, em frente, indiferente a quem me olha, corro largando para trás o sufoco, e os sacos, e o casaco.

O céu brilha ostensivamente.

 

Mentiste-me porquê?

Não te menti...

Mentiste sim. Nunca me quiseste como tua..

Não senhora. Tu é que não sabes ser de ninguém.

 

Viro a esquina e entro finalmente no pinhal. Paro. Respiro.

 

E a tua voz no meu pescoço,

És minha,

 

Liberto-me dos sapatos, prendem-me os movimentos. Rasgo as mangas da camisa. Fecho os olhos e procuro incessantemente. Não cheira a manga mas cheira a pinha. E terra. E erva.

Serve. Tem de servir, a música que me cantas sem som,

 

E a tua voz na minha boca,

És minha.

 

E então elevo a perna, estico os braços, e danço, finalmente, danço e danço, rodo e não me canso.

Livre do sufoco que sou, desfeito o nó que me cala a voz, e rodo, e rodo, sobre um pé, depois o outro. Mãos colhendo nuvens no céu.  E sinto, sei, pressinto,  o mundo está  debaixo de mim, e eu sou maior, gigante, enorme,

e tu...

 

A tua voz na minha voz,

 

És meu.

 

(sobre músicas que são histórias) 

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Voyeurista

por Ana sem saltos, em 19.02.18

Vi um casal de namorados passeando à beira mar. Ela olhava-o embevecida e ele falava com as mãos, gesticulando uma esperança absurda. Daqui, de onde me encontro, camuflada na minha pequenez, vejo uma luz imensa. Por de trás deles o sol é engolido pelo mar, e rebenta num laranja avermelhado. E faz sentido aquele quadro. Até porque aquele casal de namorados que observo caminhando lá em baixo, são velhos nas mãos, no corpo, no cabelo branco, mas novos nas pegadas que deixam na areia.  

Sonhar faz-nos andar, e eu posso jurar que sei de cor o sabor do beijo daquele casal de namorados que passeia

eternamente

à beira mar.

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Primeira página

por Ana sem saltos, em 15.02.18

Benvinda à minha loucura! Estás preparada?

 

Olhando à volta, tudo está pronto. Arrumado, limpo, organizado. Bebe um copo bem cheio de absinto. Torce a cara num esgar de dor.

Dor que é prazer.

Ah agora sim. O mundo está embaciado. Olha! Dança e tudo! Que maravilha, um mundo embriagado olhando para mim sóbria nesta loucura… fico feliz mundo. Olha-me na minha decadência.

Senta-se no chão, satisfeita com aquela sensação morna e suave, tonta e irreal, que o absinto sempre lhe devolve. Descobre-se apenas no estado de devolução de alma que o álcool lhe dá. Agora sim. Pode fechar os olhos e praticar aquelas porcarias que aprendeu na aula de yoga, sobre purificar a mente, descobrir o eu mais profundo.

Solta uma gargalhada perante a imagem do eu profundo.

Nem se quer há eu quanto mais profundo.

Inspira. Guarda o ar dentro de si. Expira.

Devagar o cérebro é irrigado por um milhão de micro partículas, que lhe dão espasmos de realidade. Abre os olhos.

Sou uma farsa.

Levanta-se, cai na bebedeira irreal do absinto, e real do que é.

Sou uma farsa.

Fica deitada no chão imune à dor, imune a força que não tem, imune a tudo.

Tempos remotos de uma vida que se foi. Ah, a luz do passado, que coisa bonita. Uma casa pequenina à beira mar plantada, três crianças correndo. O lume aceso. Ele.

 

Amas-me?

Sempre amei…

És uma farsa.

Pois sou.

Morre.

 

Não sou capaz de morrer percebes? O meu cargo é este, a minha cruz, puta que pariu isto tudo.

 

A janela da sala está aberta e um pardal pousa e observa-a. Ela está deitada no chão, imóvel, sem pestanejar, talvez nem respire.

E o pássaro olha-a no beiral da janela. Depois vira costas e levanta voo.

Então invade-a uma paz estranha, vendo a liberdade daquele pequeno ser. Vem-lhe à memória um tempo tão remoto como a história da vida. É menina pequenina, alma liberta do podre que a vida entretanto lhe deu, corre num descampado amarelo. É primavera, julga, olhando o estoiro de cor e brilho à sua volta.

 

Vem amor.

Tenho medo…

Tens medo de quê? Eu estou aqui, eu ensino-te.

E eu aprendo, não é?

Vem amor…

 

E ela corre livre, corre segura. Afinal, o mundo o que é mais se não um deslumbrante arco-íris.

A imagem foge-lhe de novo.

 

Porque é que a tua dor tem de ser sempre maior que a minha?

Porque a tua vida é um arco iris.

Vai à merda. O arco iris faço-o eu.

 

Levanta-se. Senta-se na secretária. Pega uma caneta, abre o caderno em branco, virgem para a receber por inteiro.

Escrever alma é fazer amor com deus.

 

Querida filha,

 

Começa

 

Esta é a minha história.

Benvinda à minha loucura. Estás pronta?

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Eu queria

por Ana sem saltos, em 13.02.18

Eu queria ter na alma a força e o poder de virar o mundo às avessas e garantir que o céu brilharia de dia,
a chuva cairia à noite, apenas quando dormimos nos braços de quem amamos.
Chuva é música de amor.
O coração de todo o ser humano estaria cheio,
e chorar não seria vergonha ou bloqueio.
As crianças teriam todas nódoas negras nos joelhos,
e nódoas de fruta na roupa.
E todas seriam apenas isso.
Sorriso, nódoas, crianças.
Eu queria ter a força ou poder ou magia ou energia de poder eliminar, apagar, dizimar todo e qualquer sofrimento.
Mas não tenho.
Sou humana cheia de erros e tropeções,
uma em tantos mil milhões,
e às vezes morro.

A minha força ou vontade são apenas isso.
Grão pequenino no infinito.

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Já viste?

por Ana sem saltos, em 12.02.18

Ontem à noite acordei e ouvi o céu chorar.

Há algo de reconfortante nisto de ouvir o grito da chuva.

Melancólico e reconfortante.

Deve ser o contraste, morno quente cá dentro, frio molhado lá fora.

Ganhamos uma noção totalmente límpida e transparente da sorte.

Até as insónias podem ser uma coisa bonita, já viste?

 

Quando era pequena tinha um segredo e chamava-se Senhora do Vento. Gostava de forma feroz da solidão e, por isso, às vezes fugia do caos dos primos e irmãos, tios e avós, e ia para um esconderijo só meu, onde falava horas a fio com uma senhora vestida de nada e chamada Vento.

A magia que procuro recuperar todos os dias, é aquela com que ouvia com uma nitidez perfeita, quando era ainda uma menina e usava saias de roda,  as respostas que a senhora do vento me dava a todas as perguntas, fazendo dançar as folhas árvores à minha vontade.

Até a solidão pode ser uma poesia bonita, já viste?

 

Quando vi o meu primeiro filho pela primeira vez, vagos segundos antes de mo levarem, fui invadida por uma gargalhada chorada, bendita, leve e pesada. Meses depois de angustia, vi um pequeno ser chorar, tão real, tão bonito, tão meu, que a sensação primeira foi a de explosão. Senti-me, apesar das dores, do medo, da solidão, da expectativa, capaz de mundos e fundos, rainha da vida, senhora do mundo.

Até o medo pode ser uma força bonita, já viste?

 

Quando te conheci soube que eras para sempre.

Não foi quando pus os olhos pela primeira vez em cima.

Foi quando te conheci.

Até as certezas de uma quase criança podem ser verdades bonitas, já viste?

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