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Mãos

por Ana sem saltos, em 31.01.18

 

Há quem diga que o som do piano é a voz do coração.

Eu acho que é onda de mar, que sai tocada pelas mãos.

 

Toca ao fundo o piano, som quase impercetível, gemido no velho gira discos.

É espuma em notas de música, e é assim que fala o coração.

A lareira está acesa, e o fogo mergulha, invisível, no ar.

O tempo é aquele em que tudo é bonito.

A lua é bonita, o céu é bonito, a cómoda antiga é bonita.

As mãos... ah as mãos são tão bonitas.

 

A leve nostalgia que embala a sala, o ar morno, a noite escura, e o piano, ao fundo, em murmúrios de amor, abraça-a por inteiro, eleva-a no ar, engole-a por fim. Não há harmonia igual à que ali acontece, mulher que se ama, pairando no ar, pelo  morno que não é morno, é fogo, e é quente,

canção em grito mudo que vem de dentro,

selando para todo o sempre juras que se fazem em silêncio.

 

E depois as mãos... ah, as mãos.

 

Mas é a dois que a dança acontece. A dois, quando ele chega e rápido se embebe no bonito, avança e lhe toma as mãos...

ah, tudo aquilo que contam as mãos...

 

Unem as palmas primeiro, as dele recebem as dela, e por cima, os dedos, num abraço que fala do para sempre que se impõe enquanto houver presente.

Contam, então, enquanto dançam, com o piano, ao fundo, chorando amor,

a lareira, ao lado, entornando calor,

a vida e os dias, a alma e os medos, os olhos e as mãos.

 

Ele pergunta-lhe correndo-lhe o pescoço e ombros,

 

[Amas-me?]

 

Ela responde erguendo o queixo para o receber na curva onde a historia se faz mundo e dois são apenas um,

 

[E há outra coisa se não amar-te?]

 

Ele pergunta-lhe selando-lhe com boca a voz não precisa de sair,

 

[Então porque não me contas?]

 

E ela responde inspirando-o para si,

 

[Não te sei contar o que há fora daqui.]

 

E a dança que os une é mais que homem e mulher.

É amor que se faz, não com corpo ou a voz, que nada sabem do coração,

mas com dedos que se enlaçam para escrever história de vida a quatro mãos.

 

 

 

 

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Leitura dos confins do mundo

por Ana sem saltos, em 30.01.18

Naquele tempo, a paisagem vestia-se apenas da estação que lhe era cabida.

O tempo era ordeiro e certeiro, dançando ao compasso que alinha os segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias.

Tão bonito morder um dióspiro apenas quando ele cai de maduro no chão.

Não há sensação igual a ter queixo e pescoço pintados de sumo de dióspiro que caiu, findo o seu tempo em árvore adulta, no chão.

Bonito é também saber ver despidas as ramagens das árvores,

troncos erguidos procurando tocar o céu, sabendo que,

lá está,

no tempo devido, novo verde as vestirá.

 

O problema surge quando nos vestimos de deus,

mãe natureza,

ou estação de tempo,

e queremos, porque queremos, morder morangos em dezembro,

deixando apodrecer os dióspiros no chão.

 

Somos crianças em birra constante,

centradas, vidradas no presente do verbo querer.

Morder morangos em dezembro é só ilusão de verão.

Não tem a explosão quente de sabor a vermelho,

claro que não.

É só uma versão aguada e encarnada de fruta mentira sem pé, nem chão.

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Oh nua, que cais do céu

por Ana sem saltos, em 29.01.18

Estava frio, é certo.
Tempo frio de céu choroso é onde mora, por norma, a tristeza. É certo, também, que há muito lhe morava um insônia mórbida e azucrinante, que lhe engolia os sonhos para depois lhe devolver angústias. E depois, claro, a chuva em estrondo.
Sentou-se no chão da casa de banho deixando a água do duche correr. Desaba num soluço absurdo,

o mesmo que lá fora cuspia o céu,

doloroso e vazio das lágrimas que não chorou. Das lágrimas que deixou de chorar.

Choro seco é canto de sereia sem pouso no mar.

Olha-se no espelho embaciado. Alma morta em carne viva,
e a vida é irónica e desprovida de sentido,
e aquela ali, do lado de lá, não é mais ela,
e lá fora, afinal, o som da chuva é música,
e talvez agora vendo-se despida, perdida, pincelada aleatória e embaciada no espelho,
talvez agora consiga.

Mas não consegue e música de pranto do céu não se ouve no rugido do trovão.

E, por isso, sai assim mesmo, despida, sozinha, vazia. Abre a janela da sala, sobe o beiral. Abre os braços à tempestade, nua no alto da torre dos tristes.

Lá em baixo o mundo é pequeno e ridículo.

Só então, mesmo antes do segundo que passa marcando o fim, cai-lhe uma lágrima escura, retinta, negra e massuda, igual ao petróleo que mora no fundo do mar.
É ela, por fim, em queda livre, derramada, diluída nas gotas que caiem do céu.
Livre, leve, nua.
Finalmente liberta de si.

E para sempre se ergueu lá em baixo, onde o mundo é pequeno e ridículo, a estátua em memória do dia, em que caiu uma sereia do céu.

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Nós

por Ana sem saltos, em 24.01.18

Construo casas com massas de ar. Mas é ar quente, quero-te, sempre, quente.

Também sou capaz de histórias, fazê-las de raiz e esperar que as bebas todas até ao fim. Depois fico à espera que me contes a tua versão das minhas histórias. Gosto de me ouvir na tua voz.

Ergo castelos de areia, grandes e imponentes, cheios de gente valente. Espreito pela janela da torre mais alta, é maravilhoso ver assim o mundo inteiro, no topo da torre do meu castelo de areia. Tenho a certeza, ali plantada feita rainha, que houve um engano na história do mundo. Massa que estoira vida até ao infinito não pode ser redonda.

Há esperança nas coisas, afinal de contas, para além de castelos de sonhos, de torres a lamber o céu, paredes de ar que abrigam magia, páginas em branco carregadas de histórias, acreditas, meu amor, que fizemos vida?

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Atos e omissões

por Ana sem saltos, em 24.01.18

- Traí-te.

 

Ela olhava-o esborrachada na frieza da conjugação daquele verbo. Depois ele falou e falou, mas devagar ela deixou de o ouvir observando-lhe o movimento dos lábios cuspindo palavras e palavras, tantas palavras.

Fica assim, imóvel, vendo o mundo e os segundos passar em câmara lenta, vendo-lhe a vida, de súbito, transformada num trambolhão.

 

Ele chora?

 

Chora sim, fala atabalhoado, pede-lhe a voz também, explica, suplica, justifica. Agarra-lhe com força a mão morta que padece inerte no colo.

 

E então ela vai-se embora, ainda encarnando enorme plateia à sua própria queda, e evapora daquele momento que é presente. Olha para trás daquele cenário dantesco que é ter metade da sua vida, história, alma e coração, falando-lhe da mentira. Está uma luz morna e bonita, que lhe pinta as lágrimas do marido em gotas de arco íris.

 

Presente mais que imperfeito, pintado nas setes cores que escondem tesouros. Mergulha de cabeça para dentro, onde a história é musica e tem juras e gemidos de amor.

 

Olha-o nos olhos. Ele já não fala entregue ao soluço sentido e arrependido.

 

- Eu perdoo-te.

 

Ele olha-a surpreendido. Mais do que o significado da palavra proferida, surpreende-o a voz que sai oposta ao olhar que não voltou.

 

- Perdoas?

 

Ela levanta-se, sacode o vestido com as mãos.

 

- Perdoo sim.

 

Então ela entra em casa, não anda, flutua rasgando o ar em pedaços. Olha as paredes, mais que paredes, olha a vida erguida tijolo a tijolo a quatro mãos. Roda sobre os calcanhares, faz uma vénia, e então, por onde passa, atira ao chão as molduras, os quadros, as velas, os recados de amor. Entra no quarto, abre o armário, e numa coreografia dramática e bonita,

 

que beleza é esta que pinta a tristeza em notas de música?

 

atira toda a vida em coisas pela janela, rasga os lençóis da cama, parte o espelho com o punho. Demora tempo a perceber que ele está à porta do quarto chorando de joelhos no chão. Demora tempo a perceber que lhe sangra a mão. Demora séculos espremidos em segundos a perceber que se desfaz em cinza o coração.

 

E então fala, finalmente conjugando lágrima e voz,

 

- Não me dói o beijo na boca, ou se quer a mão na mão. Dói-me o tempo e o espaço que não morei no teu coração.

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Espremer o Sol

por Ana sem saltos, em 23.01.18

Descobri, nas viagens que faço quando escrevo, acerca da coragem que temos de ter para saber olhar para cima, erguer o tronco e depois as pernas, e, esticando o corpo numa linha perfeitamente reta, espremer o Sol com as mãos. Se o conseguirmos fazer, Ele desfaz-se em batismo de luz.

O Sol espreme-se, claro está, disse-me o meu filho num dia em que me contou que pensa melhor quando está triste.

Sabe mãe? Quando estou feliz não consigo pensar, fico cheio de energia e depois não me consigo concentrar. Penso melhor quando estou triste.

Sábio, o meu coração mais velho.

Sem saber resumiu-me décadas de existência em dois vértices que rarissimamente se cruzam nesta reta curva e absurda que é viver - o pensar e o sentir.

Aliás, bem vistas as coisas, sempre que me obrigo a pensar o sentir, ou pior, a tentar sentir o pensar, caio numa desinspiração vazia e triste. Odeio apenas existir.

Talvez seja por isso que escrevo histórias.

É por isso, sim. É por isso que escrevo histórias avulso.

 

IMG_6710.jpg

 

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Chorar para voar

por Ana sem saltos, em 22.01.18

Há uma senhora velhinha
Que anda lado a lado
com uma menina pequenina.

E juntas,
A senhora velhinha que conta a vida pelas rugas das mãos,
E a menina tão bonita, que conta esperança pelos cabelos em dança,
andam,
sempre,
lado a lado.

E se a senhora ensina a menina
A andar direita e precavida,
Olhando sempre para o chão,
Se lhe ensina a senhora velhinha
todas as coisas que viveu,
caminhando, lado a lado,
Agarrando a menina pela mão,
Segura no que sabe
por já ter sido e vivido,

Há um segundo em que a criança
Lhe larga a mão para correr.

Não viu nada de mais,
A menina de cabelos largados ao vento,
Era apenas um bando de gaivotas,
Que voou vendo a menina correr.

E ao fazê-lo,
a menina pequenina
de alma solta e livre pelo ar,
Mostra à senhora velhinha
Que fica para trás a chorar,

É bem possível cair, sabes?
Depois só tens de te levantar.

Para trás, a senhora velhinha
Nada pode fazer
Se não chamar pela menina.
Não a segue porque está presa
Na dura e fria segurança
de julgar conhecer onde a levam
Todos os passos e quedas,
mesmo antes de tentar andar.

Mas volta atrás a menina,
Que nada teme,
pois nada sabe,
E ri de coração aberto
Pintado, livre e mostrado
Na cara bonita e suja de areia.

Só quando estão à mesma altura,
Passado e futuro de joelhos no chão,
Lhe mostra a menina pequenina
A ferida em sangue na mão.

Até que lhe diz sorrindo,
A menina pequenina
Olhando de frente a velhinha no chão,

Se não correres, senhora,
Como vês as gaivotas em bando a voar?

Olho ao fundo a menina pequenina
Limpando as lágrimas da senhora velhinha.

E agradeço este quadro imenso

Vejo massa branca no ar
Das mil e uma gaivotas a voar,
Por cima da menina pequenina
Que ensina velhinha a chorar.

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Conto-te

por Ana sem saltos, em 19.01.18

Olho-te no escuro. Respiras devagar, entregue ao mundo dos sonhos.

Lá fora o mundo desaba em água e frio, mas, aqui, não cabe tempestade ou arrepio.

Apagas-me os pecados, sendo só assim. Homem bonito, que escolheu dormir perto de mim.

 

Quando me mora a insónia, padeço de consciência afiada. Mergulho em angústias e questões, elevo-me ao mais bruto pesar.

Fico tão só, meu amor, quando não consigo sonhar...

 

E lá fora o mundo desaba, como espelho da tempestade que mora em mim, mas cá dentro estás tu, e eu ouço-te respirar. Pareces história de vida, daquelas que apetece contar.

E, então, conto-te.

 

Um, inspiro-me do teu inspirar,

Dois, expiro-me no teu expirar.

 

Acalmo-me, deixo amainar a existência bruta que por vezes sou, aceito o aleatório do mundo e das coisas, e concentro-me, só, na sorte de estar perto desta estrela, no meio todas as outras que se espalham no espaço.

 

Devagar, bem devagarinho, juntamo-nos no mesmo inspira e expira,

sigo sempre o teu compasso,

e desfaço-me em pincelada de aguarela nesse quadro bonito com que pintas os teus sonhos.

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Dona Rosa

por Ana sem saltos, em 16.01.18

“Larga de ser miolo minino, vai brincar!”

Eu teria poucos anos, a julgar pela forma como me vejo sentado na cozinha, olhando hipnotizado para a Dona Rosa a descascar batatas.
A cozinha da minha infância é enorme. As bancadas de mármore eram inatingíveis e continham segredos doces e picantes, sonhos imensos, ali, temperados às mãos sábias de Dona Rosa.

E eu, era menino mesmo, e ansiava pelo tamanho de as poder ver,
[as bancadas e as mãos que lhes davam magia]
bastando para isso olhar.
Mas não podia, não tinha tamanho suficiente para dar liberdade ao meu olhar, e havia a Dona Rosa, guardiã dos segredos e especiarias, sempre com algum tacho ao lume, e uma colher na mão.

Mulher imensa em carnes e coração, que me gritava de tempos a tempos: “vai, xô, larga de ser miolo minino, vai brincar!”

Por mais que tentasse eu entender o que quereria Dona Rosa dizer com isto, imaginando-me, apavorado, em forma de miolo de noz, largado naquele imenso balcão, foi preciso ter altura suficiente para descobrir que não havia segredo algum naquele velho balcão,

[ah triste e irremediável virar de segundo, em que percebemos que o olhar é o assassino do ver,]

para perceber o que me dizia a mais sábia analfabeta, dona dos meus sonhos de criança, minha boa Dona Rosa.

“Larga de ser miolo menino vai brincar!”

Pena presente virar passado, e eu já não ser mais minino que sonha com os mistérios da bancada de cozinha,
[afinal é só um pequeno e velho balcão]
pena já se ter ido a Dona Rosa da história da minha vida.

Haveria de lhe dizer, lá no tom quente das selvas brasileiras dela:

Deixa de ser besta mulher. Nunca fui miolo não, eu sou mesmo é coração.

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Triste

por Ana sem saltos, em 15.01.18

Fico triste, às vezes.
Não é sempre,
sempre é grande de mais

para ser somente tristeza. 

Mas, às vezes,
assim de tempos a tempos,
visto-me de melancolia e danço,
só assim,
numa homenagem nua e bruta
ao triste que há em mim.

E não é sempre,
sempre é imenso,
é às vezes,
quando cá dentro me sufoco de mim, e então preciso de ser chuva e trovão,

areia fininha entregue a furacão.

Não há causa óbvia,
tristeza é menina órfã,
mas é grande, soberbo, gigante,
este arrebatamento
que, às vezes,
resolvo trazer para mim.

Pode ser sol que brilha longe demais,
ou aguaceiro que morre a tentar chover.
Pode ser brisa morna em vésperas de lágrima,
ou gelo gelado em dia de verão.

Pode ser tudo, sendo nada,
porque tudo é infinito
e o nada não cabe em mim.
Mas fico triste, às vezes.
Afogada, entregue, derramada
na dança triste do assim assim.

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