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Rodolfo

por Ana sem saltos, em 29.12.17

Carlos sabe, já, o que o espera, o drama deixou até de ser drama, tal é a repetição trágica e idêntica das coisas. A vida, do lado de lá e de cá das paredes bolorentas de casa, rege-se por uma rotina e horário implacáveis. Ordem na desordem.

Acorda, lava-se na casa de banho gelada, bebe um café longo, morno e aguado, e engole uma banana. Não se chega a olhar no espelho, não fica propriamente satisfeito com a imagem que o reflexo lhe devolve. É mais pálido do que se sente. É mais magro do que as roupas que veste. E depois há toda a questão dos olhos. Não gosta da verdade dos espelhos.

Põe a trela em Rodolfo, seu fiel e enorme cão, e sai por 8 minutos, antes de entrar no turno da manhã dos correios da cidade.

- Mãezinha! Volto às 5.

Mas a mãezinha não responde nunca, trancada que está numa espiral negra e muda, largada numa cama velha de um quarto escuro, gemendo lamúrias sem som. Mas, de tempos a tempos, sai-lhe o negro alma fora, e a senhora levanta-se, veste o seu melhor traje, e sai desnorteada para um mundo que não é do tempo em que adormeceu. E então, o pobre Carlos, chegando invariavelmente às 5 da tarde, lá encontra a cama vazia, as cuecas velhas da senhora mãe no chão, e um nauseabundo cheiro a perfume barato no quarto. Se, inicialmente, se enchia o peito de angústia, apavorado com a hipótese de um mundo vazio de mãe louca, passa o tempo e criam-se as rotinas, e também aquela triste e deprimente busca vira um hábito.

Foi como naquele dia.

Já sem sequer tirar o casaco, Carlos sente o cheiro a prostituta barata no hall de entrada. Entra na cozinha, retira do frigorífico um pequeno embrulho em papel pardo, coloca-o no bolso, e sai de casa. Põe a trela em Rodolfo, abre o portão e avança sereno. Vira a esquina, segue para a ruela velha e escura e suja. Põe, então, os joelhos no chão, e assume o papel do seu cão, farejando o ar.

- Cheira-te a puta Rodolfo?

Mas o cão não responde, ao fundo vêm a velha mãe de coxas moles de fora, proclamando versículos da bíblia enquanto um homem gigante e peludo, a monta como animal faminto. Carlos engole o vómito de sempre, retira um pedaço de carne da algibeira, atirando-o para perto daquele triste e repetido espetáculo. Ainda de gatas, atiça o velho amigo murmurando-lhe baixinho: tsss , ataca, tsss. E o cão, afável e mole, vira diabo raivoso, e avança em fúria para a carne podre que lhe atira o dono. Mas daquela vez, e contra a previsibilidade irremediavelmente idêntica de todas as outras, antes que o homem que lhe monta a mãe pudesse reagir, Carlos sente um estalo na espinha, semelhante à porta de um segredo antigo que se abre. A trela do fiel Rodolfo esmaga-lhe a traqueia, e no beco a mãezinha grita:

- Perdoa-os senhor! Perdoa-os que eles não sabem o que fazem!

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Surpresas no meu jardim

por Ana sem saltos, em 29.12.17

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Ou a bonança depois da tempestade.

Há sempre uma primavera que brota das lágrimas do céu.

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Poema do Sou

por Ana sem saltos, em 28.12.17

Sou rebanho de coração.

Sou viva alma em banho de mar.

Sou mais que os dedos que conto na mão, sou beijo, sou sombra, sou aperto e luar.

Sou assim, e assim me faço ser, sou o que quero na letra que escrevo, na página, do livro, da história que sou.

Sou amante da lágrima e do sopro e do beijo, sou frágil valente, em cálice de sangue e suor.

Sou homem gigante em corpo de mulher, sou menina pequena nas rugas de um velho.

Sou mãos, e ombros, sou preto, sou luz.

Sou leve e etérea quando me tentam agarrar.

Sou carne pulsante, quando, e sempre, que escolho ficar.

 

A vida é minha, mesmo que morra amanhã, e eu não tenho medo da morte do pulmão, carne e coração.

Tenho antes pavor de me sobreviver o corpo, como parede gelada ao abrigo de nada.

 

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Sinfonia de grito

por Ana sem saltos, em 18.12.17

Abre a janela do quarto. A noite caiu, já, escura e profunda, em onda de luz que se apaga. Entra em rio o frio janela a dentro,

 

alma a dentro,

 

inundando, promiscuamente, o quarto.

 

Há quanto tempo não te ouves?

 

No preto da noite, na casa, no quarto, ela senta-se no chão olhando o céu emoldurado na janela. Ao fundo as estrelas contam-lhe histórias. Ao fundo o mundo, alheio a si e às suas vontades

 

que vontades?

 

acontece. A vida e os dias, o amor e o calor, a terra que gira, o mar que sobe e vaza. Acontece tudo, numa sequência maravilhosamente drástica, excluindo, quase propositadamente, aquele canto de si que parou. Parou estagnando os segundos, parou parando-lhe a alma

 

parada?

 

Estagnada. Quieta. Irremediavelmente quieta.

Olha as mãos, antigas e sabidas, conta as manchas que lhe falam do tempo que passou. Beija os dedos, um por um, lambe-os, por fim, numa procura inglória de se amar a si mesma.

A vida passa, e é bruta e brutal no seu comando. Avança mesmo que caias. Corre mesmo que peças que pare.

E lá fora a noite imponente, impondo-se, também, indiferente, ao seu desejo de luz.

O frio de fora, reflexo de dentro, é então lambido por uma chuva que cai pequenina e miúda, limpando o ar e o chão e o céu e o mundo. Cai, cantando-lhe em breve sonata,

 

Ergue-te senhora.

 

E ela ergue-se, altiva na sua perfeita imperfeição, antiga, tão antiga na sua meninez.

 

Lava-te.

 

Abre os olhos.  Ignora as dores e desamores, sobe a janela, e sai, mergulhando na música da chuva. Sente a lama nos pés descalços. Sente a água, que primeiro lhe toca em jeito tímido que primeiras núpcias, para logo depois a inundar sem aviso nem permissão. Cai de joelhos no chão, confusa com a água quente que liberta de dentro, e mergulha as mãos na lama, bem fundo naquela terra impregnada de água, rebentando de vida.

E chora sorrindo o céu, e chora chorando a senhora, numa canção perdidamente intima.

 

Lava-me céu. Lava-me de mim. O tempo não é meu e eu já me perdi.

 

Mas o céu, como o tempo e o mundo e a vida, ignora-lhe o pedido e para, causticamente, de chorar. E então ela ergue-se, de punhos cerrados, zangada com a nuvem que lhe mora por dentro e que se atreveu a parar de chorar por fora, e grita. Grita alto e de forma contínua, grita zangada, grita desesperada. Sai-lhe a voz em jorro de alma, sai-lhe com a força de um ventre que expulsa vida, sai-lhe da boca a sua história, os segundos, a culpa, a vida que viveu mas não bebeu.

 

Tive filhos, tive amor, tive vida, terra e calor. Tive medo, tive saúde, tive dúvidas e tive certezas. Tive tudo, tive até o tempo, mas eis-me aqui, de joelhos no chão, enlameada, suja, velha e gelada, porque o que nunca soube ter, dar e receber foi o perdão.

 

 

E então o céu chora de novo, em milhões de cascatas brutas de água, em estrondos de raios e trovões, acompanhando-lhe a sinceridade da sua sinfonia de grito.

Mostrando-lhe que não está sozinho aquele que se consegue,

finalmente,

desculpar.

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Vivo

por Ana sem saltos, em 13.12.17

São passos e passinhos, grandes e pequeninos, um depois o outro, rápido e devagarinho.
Paro.
São dias em meses, meses em anos, anos desdobrados, então, em décadas.
Coração aberto, ar e mar, jardins de jasmim dentro de mim.
Chuva e trovões também.
Rebento, expludo, expiro, suspiro. Morro, por vezes, de forma bruta e dramática, com lágrimas, com dor, com sangue, suor e amor.
Mas renasço de novo, uma e outra vez.
Olho à volta. Sei sorrir a chorar, mas não sei chorar a sorrir.
Vida imperfeita, surpresa alucinante, és tão puta, és tão bonita. Cansas-me tanto...
Amo-te.

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Casas comigo?

por Ana sem saltos, em 04.12.17

Estou aqui, sentada, naquele que parece o paraíso, o nosso paraí­so, na verdade, porque nem toda a gente é capaz de ver luz e sol onde, eventualmente, possa estar a chover.

Penso naquela que foi a nossa história, aqui, onde o mar estoira a poucos metros de mim, e sinto alguma vontade de chorar. Sinto imensa, na verdade, e a razão é simples. As lágrimas que guardo, que tenho em mim, e que, ás vezes, liberto, são a essência da minha alma, meu amor. E eu gosto muito de te amar e de chorar.

 

És o sal que me tempera. És a carne que me faz.

 

Os anos, entretanto, foram passando. E de dois que ficamos um, somos agora quatro, em sangue do mesmo sangue, em amor que todos os dias renovamos. E vê-los,

 

ver-nos,

 

crescer, as sementes do nosso coração, é para mim a razão maior de viver. Ver-te cria-los, meu amor maior, é, para mim, a maior benção.

Tenho medo, por vezes, que a corrida da vida nos separe. Tenho medo, muitas vezes, de estar debaixo do mesmo teto que tu, e mesmo assim não te encontrar. Ou pior. Não me encontrar. A imprevisibilidade do amanhã, sempre me angustiou. Ainda assim, também sei ver que é isso que faz da vida uma surpresa. E a verdade é que, até agora, caminhamos lado a lado, e conseguimos,

 

Paixão absurda da minha vida,

 

crescer, rir e, por vezes, chorar, mas sempre amando. A brasa que nos faz pode não ter sempre as labaredas famintas. Mas, graças a Deus, nunca se apagou.

Olho para ti,

 

homem bonito e valente, meu eterno namorado e amigo, pai do maior projeto da minha vida, amante imortal do fogo que há em mim,

 

e vejo-te sempre sorrindo para a vida. Agradeço, agradeço-te, meu amor, toda a história que escrevemos, e que ainda vamos escrever.

Que continuemos sempre assim: Passarinhos livres, que podem voar, mas que escolhem, segundo a segundo, sorriso a sorriso, perdão a perdão, ficar.

 

Ama-me, ajuda-me, levanta-me, perdoa-me, guia-me, abraça-me. Hoje, agora, e todos os segundos da nossa vida.

 

Casas comigo?

[Outra vez?] 

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