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Chega

por Ana sem saltos, em 26.11.17

Há na vida, e nas linhas que a cosem, um mistério grande e profundo. Encontro-o apenas se estiver atento. Encaro-o, apenas, se estiver aberto. Livre de julgamentos, liberto desta ignorante prepotência que me leva a viver como se fosse imortal. Arrogância sinistra e devassadora que me engole. Que me devora.

 

[Chega. Nunca soube abrir a porta, e tranquei sempre a janela. Porque saberia agora falar da vida e das linhas que a cosem? Sorrio, e encho o balão de whisky.]

 

Sinto sempre de manhã uma espécie de um enjoo, uma espécie de uma exaustão de alma. Ergo-me sempre a custo, leve e grande, pequeno e enorme.

 

Tive 10 filhos de 4 mulheres diferentes. Dei-me somente no imediato, consciente dos segundos que passam. Inconsciente, no entanto, que não voltariam a passar.

 

[Chega. Nunca quis saber do tempo, porque haveria agora de me preocupar com a sua inevitável rapidez? Fecho os olhos e sorvo um golo de whisky.]

 

E amei-as… Na verdade não estou certo. Amei-lhes as manias e as linhas, as bocas e os ombros, amei-as todas, com fome, ainda que uma de cada vez. Mas só ali, mergulhado no presente, obcecado no imediatismo do prazer. Achei-me senhor do tempo e da vida, da minha vida, totalmente entregue ao egoísmo das minhas vontades.

E então, vi-as partir. Uma. Depois outra. Depois outra. Todas rumando a uma nova vida, com os meus filhos no colo.

 

[Chega. Nunca acreditei em sentimentos, porque haveria agora de pensar no amor? Abro os olhos, e fixo o balão de whisky na mão.]

 

Na verdade não sofri com a partida de nenhuma. Porque o amor que lhes tive, esgotou finda a novidade, acabou uma vez morta a curiosidade, na queda, fria e inevitável, na rotina. Agradeci-lhes, por isso, saírem do meu presente, batendo com a porta ao nosso futuro.

Estou consciente, agora, que procurei toda uma vida, água no fogo. Acabei ardendo, morto de sede. A minha busca incessante de tudo acabou comigo entregue a um soberbo nada.

 

[Chega, por favor, chega. Engulo de um travo o caldo ardente do balão]

 

Abro a janela na sala. Vejo ao fundo um mar enorme. Vista bonita que ignoro, irremediavelmente arrogante. Lembro-me da Ana e da sua gargalhada gorda, da Felipa e da sua pele morena. Relembro o cheiro da Vera e a sua entrega quente e absoluta na cama. Fecho os olhos e vejo o sorriso da Isabel, cheio de graça e mistério. No meio de tantas memórias de tantas mulheres bonitas e apaixonantes, mães de filhos que acompanhei via conta bancária, vejo que nenhuma delas me traz saudade.

A saudade que sinto, plena e infinita, dura e dolorosa, é a bruta e franca [e puta, tão puta], saudade de ter saudade.

 

[Chega.]

Atiro o copo no chão.

 

Sou velho, grande, leve e pesado. Sou pedra minúscula em praia de rocha.

Se arrependimento matasse, [digo eu, agora, bêbedo e velho, sem o copo de whisky na mão] morreria afogado na tristeza de ter tido tudo, e não ter sabido dar valor a nada.

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Doce prisão

por Ana sem saltos, em 23.11.17

Um dia vais perceber. Sei disso. Podem passar milénios sobre milénios, tanto faz, o tempo nada consegue contra isto que te tenho. Agora não entendes, não interessa também, valores e amores maiores se elevam. E tu, meu amor, és minha, e isso já estava escrito antes de ti, antes de mim, antes de nós.

São 5 da manhã, talvez. A casa dorme naquele silêncio triste de insónia de madrugada. Esperou pacientemente a passagem de todos os segundos até àquela hora. Sabia-o no mais profundo dos sonos, sossegado por breves instantes.

 

Não é amor isso...

Não sabes do que falas. Só te quero proteger minha flor.

 

Levanta-se devagar, leve como algodão, retira a mochila de baixo da cama. Engole o pânico, inspira bem fundo, até lhe doer o peito. Sai do quarto em pontas dos pés. Retira do bolso a chave da enorme masmorra em tons de azul bebé que lhe aprisiona o filho, que a aprisiona a ela. Abre devagar a porta, ouve a respiração calma de quem dorme na crença inocente da imortalidade das coisas. Agarra o filho no colo, encosta-o bem junto a si para que o despertar volte a dar lugar ao sono.

 

Amo-te tanto.

Também te amo.

Juras? Tens de jurar.

Juro.

 

 

Não pode chorar, não sabe mais como chorar, confusa naquela doce prisão, perdidamente apaixonada por aquela enorme paixão.

 

É melhor ser eu a falar com ele. Fica no quarto por favor.

Porquê? Que disparate, é o senhor do correio. Vamos os dois.

Não.

 

Estás zangada? Não te zangues comigo. Amo-te tanto, só te quero proteger.

Não estou zangada...

 

[Não estou zangada. Estou apavorada.]

 

Caminha em pontas, atravessa o corredor dos quartos. Consegue transpor na pele a antítese ao furacão que sente por dentro, oferecendo o seu ombro como almofada segura ao filho.

Sente uma breve satisfação pela segurança que, apesar de tudo, ainda lhe consegue oferecer.

Relembra os primeiro tempos de amor veloz, audaz e feroz, capaz de mundos, capaz de fundos, sobrepondo-se a qualquer outra realidade.

 

Amo a forma como me amas.

Não mereces menos que o mundo princesa. O mundo é que não te merece a ti.

 

Tenta abrir a porta de casa, mas surpreende-se com a porta trancada. Engole o vómito que lhe sobe a garganta, tenta respirar devagar, procurando desesperada uma solução.

 

- Onde vais a esta hora princesa?

 

Ela ajoelha-se no chão, com o filho dormindo no colo.

Ele aproxima-se dela, retira-lhe com cuidado a mochila das costas. Acaricia-lhe o cabelo, sorrindo.

Ela chora sem lágrimas, sem voz, sem soluços. Chora em silêncio, firme no seu papel de ninho seguro do filho.

 

- Anda vá. Estás ver porque tenho de tomar conta de ti? Deita-te e descansa, vou-te preparar um chá.

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Vida nova

por Ana sem saltos, em 21.11.17

Um mundo inteiro que para, só para te ver passar.
Há, meu amor, em ti, uma força igual à que impulsiona a terra a girar, o mar a encher e vazar, as estrelas e astros fazerem do céu um inteiro infinito, lindo, imparável, imprevisível. Como tu, metade boa da minha existência, quando me mostras que há muito mais além do que é visível.

 

O que é assim, assim deve ficar.

 

As raízes que me fixam à vida, à nossa vida, não são correntes que me impedem de voar. Sou um passarinho, meu amor. Um passarinho que escolheu ficar.

 

Do ventre fundo e profundo, emana uma dor carnal, bruta e fria. O corpo torce e, não parecendo, sabe o que faz. Mas a mente tem rédeas e há medo e susto e lágrimas e voz. Agarra, rasga, morde os lençóis. Ele olha-a em silêncio.

 

És um arco íris, sabias?
E eu sou nuvem que não sabe pingar.

 

E então o grito dela, o sorriso dele, e o choro pequenino e bonito que flui do seu ventre de finalmente mãe. Milagre antigo e valente que é o amor fazer vida.

Olham-no nos braços dela, pequeno e feroz, indefeso e infinito, o novo ser que encarna os seus corações, batendo, ali, descompassados, brutos, assustadoramente fora do peito.


E choram juntos, porque chorar é dor e amor.
Ele beija-a na testa. Ela fecha os olhos.

 

- É para sempre?
- És sim, meu bem. És para sempre.

 

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Reflexos

por Ana sem saltos, em 14.11.17

Ama-me sem pressa. Ama-me com vagar.
Vale pouco a vida, feitas as contas, afinal. A corrida que nos move, que nos ultrapassa tantas vezes, retira toda a magia das coisas. E as coisas que têm magia não são as grandes. São as pequenas que só vê quem não corre a fugir do ontem. Quem não corre no desespero do amanhã. É por isso que te peço, neste que é o meu último desejo. Ama-me sem pressa, meu bem. Ama-me com vagar.

 

Dobra o papel. Coloca-o com cuidado no envelope. Lambe-o selando-o. Guarda-o dobrado no bolso do casaco e olha-se no espelho antes de sair. Assusta-se com o que o reflexo lhe devolve. Aproxima-se devagar, finta-se no olhar, aquele do outro lado, aquele que deveria ser o dela. E fecha os olhos entregue ao cansaço, entregue à desilusão da cara bonita e de olhos vazios que não reconhece mais do lado de lá. Abre a porta de casa e sai.

O dia lá fora está em vias de terminar. Está um frio gélido e limpo, respirar faz doer o coração. Conta os passos que a levam,

Um, dois, três, quatro,

E aperta a carta no bolso do casaco.

Ama-me.

Vira a esquina, entra no parque. Segue os trilhos de terra, como se soubesse exatamente onde tem de ir. Como se soubesse exatamente de onde vem. Mas caminha sem destino com uma carta de amor, sem destinatário nem remetente,
no bolso.

O céu fecha-se em noite escura. As estrelas despontam, uma a uma no céu. O ar arrefece ainda mais.

Para. Olha á volta e vê-se, mulher sozinha, no parque, na noite. Aproxima-se do lago, e vê despontar a lua, gorda, grande e vaidosa. Olha a água parada e vê-se em vulto.

Mulher ingrata, sozinha, na noite, no lago, no parque.

Retira a carta do bolso, senta-se na erva húmida à beira do espelho de água.

- que fazes aqui?

Não olha a voz. Baixa o olhar amachucando com força o papel. Tem frio e treme. Tem frio e chora a alma, em derrame morno caindo dos olhos

- e tu, que fazes aqui?

Pergunta, estudando a voz. Pergunta, entregando uma raiva que não sente ao timbre que cospe boca fora.

- provavelmente o mesmo que tu.

Surpreende-se com o tom suave e levanta a cara para o olhar de frente. Homem bonito, sozinho, na noite, no parque.

- queres mesmo dizer adeus?

- estou cansada.. estou tão cansada.

- que se foda o cansaço. Olha para mim. É isto que queres?

Ela levanta-se novamente fria, novamente vazia, sacode as calças com a mão.
Olha-o de frente nos olhos.

- sabes o que quero?

Ele espera a resposta retribuindo-lhe, sem medo, o olhar.
Ela entrega-lhe a carta, amachucada, selada, dobrada.

- quero que tu te fodas.

E altiva, bonita e vazia, vira costas e segue o trilho que a trouxe de lado nenhum.

Caminhando segura para destino algum.

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Perdoa-me Senhor

por Ana sem saltos, em 05.11.17

Um dia que passou vago.
Mais do que vago.
Um dia passado paralelo à pausa solene que lhe mora.

Os segundos alinharam-se, como deve de ser. Como, aliás, sempre é. O sol nasceu, o dia andou, as coisas aconteceram, alinhadas na ordem caótica do destino. Mas para ela, feiticeira das lágrimas estagnadas e minutos ocos de tempo, a rotação da terra parou.
Estacionou o carro. Deixou-se ficar, uns segundos apenas. Procurou qualquer coisa dentro de si, mas tudo está suspenso no vazio, pairando em seu redor sem a rédea da gravidade. Uma memória flutua-lhe em frente aos olhos.
Tem 6 anos, um sorriso cheio de esperança na beleza das coisas e uma coroa de flores.

Abre os olhos. A realidade não é mais paralela, e a dor violenta-a, ali, no carro.
Sai em esforço, confusa com o tempo parado em poça de memórias, e imagens, e sons e vozes.

Caminha direita e vê ao fundo a igreja. Ignora o medo que a sova no estômago. Caminha em frente. Caminha direita.
Ainda ninguém chegou. Agradece por isso.

Entra.

E o destino ao fundo impondo ordem na desordem.

Acende as velas do altar. Ajoelha-se no chão e fecha os olhos.

- Minha senhora?

Mantém-se ajoelhada do chão de frente para o altar, procurando beber o fogo quente que emana das velas.

- Façam o que têm de fazer.

Tem 100 anos, ainda, por viver. Mas atrás de si arrumam-lhe o caixão, de mais um que partiu.

Falta-lhe o para sempre. Falta-lhe, de forma fria e absurda, a fé no mais além do para sempre.

E ali, na celebração da morte apenas como um início, ela percebe que o vazio que lhe habita, não é leve nem etéreo, mas grave, grande e cinzento.
Porque lhe falta a razão da fé.
Falta-lhe, em jeito de choro sem lágrimas, o perdão aos outros. Falta-lhe o impossível perdão a si.

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