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Histórias avulso

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Setembro 26, 2017

Era uma menina apenas, feita de sonhos e alma, quando se sentou na beira de um estranho e lhe contou sorrindo, como matara o seu cão e amigo.

 

Dei-lhe a melhor carne que encontrei no talho nesse dia, lembro-me que usei todas as moedas do meu mealheiro e ainda tive de por valor na conta da minha mãe. Levei-o pela trela, velho e moribundo, eu sabia que lhe doía cada passo, mas jamais me negaria a vontade. Meu velho amigo. Esqueceu todas as dores quando lhe atirei para longe o naco de carne. E eu esqueci as minhas quando o vi correr como antes. Depois disparei a pistola de bolso do meu avô, e chorei até sentir secar o coração.

 

Nasce o sol ao fundo, em tons de laranja e azul. Sentada na areia da praia, espera a luz do dia, espera o calor do sol, espera esperando sentada, que o fora lhe entre por dentro.

 

Promete-me que vais sempre sorrir-me assim.

Prometo-te antes que sempre que sorrir, será assim.

 

E o sol escorre lambido montanha abaixo, inunda devagar o areal húmido da praia e mergulha, por fim, do mar. Levanta-se e caminha descalça, caminha gelada, direita, exausta. Inspira fundo o ar renovado da manhã.

Não há espaço nem pessoas, não há nada, só ela, o frio de dentro e o mar ao fundo lambido pelo sol.

Não sabe que tormentas a invadem, não reconhece o silêncio nos intervalos das ondas, não sabe mais de onde vem nem para onde vai.

 

- Eu sabia que te ia encontrar aqui.

 

Ficam lado a lado olhando o horizonte.

 

- Eu sabia que acabarias por me encontrar.

 

E sorriem, a menina descalça e o estranho calmo que lhe conta a respiração.

 

- Onde tens andado menina do meu coração?

 

De olhos fechados procura-se, e encontra-se na voz calma dele.

 

- Sabes que mesmo quando não te quis continuei a amar-te?

 

Rebenta a onda em cima dos pés. E recua mansinha em jeito de lágrima.

 

- Eu não sei nada meu amor.

 

- Claro que sabes. Desculpa-me.

 

Ele estende a mão e agarra na dela. Ela recebe-a, faminta, ajoelha-se no chão e chora. Ele senta-se ao lado dela, fixo, sempre, no azul do mar, e aperta-lhe a mão deixando-a chorar.

 

Sempre invejei esse teu portão aberto, amor da minha vida. Assim sei quando posso entrar.

 

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