Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Beijo

por Ana sem saltos, em 20.07.18

E se há coisa que vale na vida, 

a acrescentar ao cheiro de um filho,
ao arrepio do primeiro mergulho no mar, 
não esquecendo o gosto doce do mel, 
ou a primeira vez que conseguimos sonhar, 
é o sabor daquele beijo que se repete,
eterna  vírgula, parágrafo, ponto e exclamação.
O beijo que se dá tantas vezes quantas se quer
porque é na repetição que se embrulha e transforma 
na fome, sede, lágrima e súplica 
que sabe aquele que é o primeiro.
 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Portas

por Ana sem saltos, em 13.07.18

Sai de casa. Mesma hora, mesma rota, mesmo destino. Sai trazendo consigo a lista de afazeres, tudo pensado e cronometrado, tudo apontado ao mais infimo pormenor na cabeça.

Ah, vida badalada, prevista, ritmada,

dois passos, vira à esquerda, dá mais doze… talvez treze, avança, põe já a mão na carteira, antecipa os segundos, terei trazido as chaves, sim, ei-las aqui, abre a porta do carro.

Senta-te.

Respira.

Olha-se no espelho retrovisor, retângulo perfeito que lhe enquadra os olhos.

Podias ser um quadro, trancado para sempre nas pinceladas de um alguém apaixonado.

E na garganta aperta-se meia tonelada de alma. Tudo controlado. Cabe lá ainda mais meia.

Mão nas mudanças, pé na embraiagem, primeira, arranca.

Caminho que se estende na frente, estrada em baixo, coisas dos lados, céu em cima. E está tudo perfeito, o ar entra e sai, conforme dita a regra, e os metros a ficarem para trás, transformando-se em quilómetros e horas, tudo alinhado na conjugação perfeita do verbo ser.

Ser naquela alma enlatada numa garganta sufocante e, ainda assim, grande de mais.

E então a cabeça a manda-la seguir em frente, mas os braços ganhando vida própria inclinando o volante para a direita. Num ápice já não está na rota, virou, e o rumo é novo.

E o coração dispara na expectativa de um novo destino. Dispara também o alarme dentro de si, nada está programado, nada foi pensado, nada é igual ao que foi no ontem, que precede o anteontem, que precede o antes de anteontem.

Acelera na emoção assustada do desconhecido. Sente uma satisfação absoluta no medo. E a alma perdida ali, algures entre a traqueia e o esófago, mistura de vómito e ar, libertando-se, sem pudor, pelos poros.

Para o carro e olha a janela da pequena casa à sua frente. Há muito que sonhava com aquela precisa janela, e toda a história encerrada por de trás daquelas precisas paredes.

Abre a porta do carro e sai. Volta a regrar os passos, procura em desespero um porto seguro, algo que possa dominar, prever, regrar.

Eleva a perna esquerda,

isso,

pousa,

agora faz o mesmo à direita.

Respira por favor.

Isso.

Avança.

E de repente a porta abre-se e o mundo para, congelando um inteiro infinito num só segundo.

E ela relembra-lhe as mãos, os olhos, o riso, a voz. Mergulha de cabeça num passado que nunca viveu, atira-se para a frente num amor que nunca foi. Engole o coração em estrondo no peito, ajoelha-se no chão, atira a cara nas mãos em concha. Como se quisesse toda ela caber ali, entre duas mãos que a escondem do mundo.

_ Posso ajuda-la?

A voz.

Acalma-se. Retira-se do mundo encerrado nas palmas e lança o olhar ao mundo do lado de fora de si.

A voz.

Ele olha-a com um pé ainda dentro de casa, mistura de curiosidade e susto na imagem que se projeta à sua frente.

_ Não, nada, peço desculpa, eu, bem, achava que era aqui, enganei-me,

Controla-te.

Sacode os joelhos com as mãos, e constrói um imenso e bonito sorriso.

_ Peço desculpa. Enganei-me no destino.

Ele vira as costas para fechar a porta. Ela relembra-lhe os braços que nunca abraçou. Relembra o calor que nunca sentiu. E a alma de novo grande de mais.

_ Acha que podia fazer-me apenas um favor?

Ele volta-se de novo e olha-a de frente sorrindo, oferecendo-lhe a brecha necessária para ela poder entrar.

_ Acha que me pode amar para sempre?

Ele desmancha o sorriso, coloca-se todo dentro de casa, do lado de lá das paredes que ela criou mas nunca visitou, e, num estrondo, fecha-lhe a porta

e os sonhos,

na cara.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Menina mulher

por Ana sem saltos, em 11.07.18

Há mais no coração.

Há mais,

sempre mais,

e sei-o desde sempre.

 

Ah menina que danças

não quero morras em mim.

Quero-te sempre acesa, na esperança, na alegria,

na entrega

cega,

inteira,

apaixonada,

a todas as coisas da vida.

 

E lavo-me da mulher que sou,

nas gotas vertidas da menina eu,

aquela que dança e dança

até cair feita lágrima do céu.

 

Abro os braços e deixo vir,

Chuva ardente que mora em mim,

encharco-me toda,

na alma,

na pele,

e assim garanto que não se afoga

a menina mulher que mora em mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Tempo

por Ana sem saltos, em 26.06.18

Tinham passado talvez três anos. Ou seriam quatro?

Pouco importa, também, saber o detalhe do tempo que passou, o tempo, aliás, que deixou de lhe regrar a vida acumulando segundos no tic tac do relógio.

Esta fora a sua decisão quando, há três anos atrás,

ou seriam 4?...

esmagou o relógio de pulso com o salto do sapato, largou tudo,

casa, coisas, pessoas, amores

e foi embora.

 

Os dias de chuva miúda trazem consigo aquele tipo de tristeza perigosa para se tomarem decisões. E foi ao som da chuva dengosa, lambendo-lhe em súplica os vidros da janela, que colocou num saco pertences básicos e aleatórios,

uma camisola, uma moldura encerrando um beijo, um maço de notas, e uma pequena caixa azul que lhe encerrava memórias antigas,

e saiu.

Partiu.

Fugiu.

 

Agora vê vida em jeito de pausa, cantando de novo na janela. E o tempo que, mesmo deixando de badalar nos ponteiros do relógio, continuou batendo-lhe forte no peito. Envolvendo-a, mole e sedutor como lençol de cetim, na inevitabilidade das coisas.

Levanta-se da cadeira e olha a janela.

O mundo fica abstrato olhado pela lente das lágrimas do céu,

ou seriam as suas embaciando-lhe a versão da sua história?

 

É por isso que não se tomam decisões em dias de chuva miúda.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Caminhadas

por Ana sem saltos, em 25.06.18

Procuro amenizar os meus medos e culpas em caminhadas que faço, regradas, ritmadas, aceleradas.

O que quero é tonificar - mais do que o corpo - a alma e a mente.

Arrumo ideias, ainda que, três pausas depois, a vida mas desordene outra vez.

Sou obra inacabada e padeço, ocasionalmente, da doença de me sentir cega de mim.

 

Espero que com o passar dos anos deixe de precisar de cansar o corpo para extenuar a alma triste que há em mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Bate coração

por Ana sem saltos, em 19.06.18

Bate, bate coração,

Vem devagarinho, anda,

vem e faz-me tua canção.

 

Despe-te de tudo e canta-me,

Faz de mim grito agudo,  

Sonata bonita de antiga paixão.

Quero ser sempre melodia

Cantada, pintada, chorada, sonhada,

borrões de alma

no sonho,

no céu.

 

Mas bate,

Bate-me coração,

Acorda-me do mundo,

Liberta-me de mim.

 

Se deixas de me cantar,

Eu deixo de acreditar.

E eu fico tão só, coração,

quando não consigo sonhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Degustações

por Ana sem saltos, em 14.06.18

Pergunto-me, nas minhas crises líricas, se conhecerei todos os sabores das lágrimas de uma mulher.

Conheço as que sabem a angústia, já provei também as que temperam o desespero. Sei o sabor doce das lágrimas de alegria, e a explosão das lágrimas de emoção. Já conheci o peso das da perda, e a expectativa das da antecipação.

A vida vai-me dando, aqui e ali, provas de degustação de lágrimas. Estou sempre atenta a todas as lições, ávida de aprender o meu cerne.

Para já, continuo convicta da minha verdade.

As lágrimas mais perigosas são as que não conseguimos chorar.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Ser mãe

por Ana sem saltos, em 12.06.18

Ser mãe trouxe-me muitas surpresas.

Há as óbvias e badaladas, e a descoberta de que de facto são todas verdade verdadeira. Sim, confere, o amor é incondicional e absurdo, dói de tão bom que é. É bruto e instintivo, possante e selvagem. E  assusta, é verdade, porque amores desta envergadura carregam consigo o medo. Medo da dor deles. Medo da perda deles. Medo que o mundo não lhes chegue (e o pior é que não chega). Ter o coração a bater fora do peito é a coisa mais bonita e mais assustadora do mundo.

 

E ainda assim, houve mais, ainda mais, nesta função que a vida me trouxe. Ganhei eu, a compensar qualquer cansaço, medo ou dor.

Dei por mim, mulher adulta, a reencontrar as fadas de menina. O mundo a poder ser mágico, e queda a poder ser estrondosa e dolorosa. A escuridão a impedir-me de ver, e eu a sempre a sonhar mais alto.

Dei por mim a querer ser exemplo para a única coisa que lhes exijo na vida. Que sejam felizes. 

 

Tenho uma nova arma desde que fui mãe. Voltei a acreditar, e acreditar faz-me lutar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Monstros de dentro

por Ana sem saltos, em 11.06.18

- Conta-me, podes contar.

- Não sei se consigo, o problema é esse.

 

Bebíamos cerveja pelo gargalo, sentadas na areia da praia. Frio gélido e húmido, daqueles que entra corpo adentro, acorda-nos a alma num estalo.

Silêncio de mundo bonito, não há música mais bonita do que a que canta o mundo sem nós. E eu entrego-me apenas ao som da natureza bruta no estrondo das ondas. E ali só nós duas, choro profundo dentro de mim, e a voz dela ao meu lado abrindo portas,

Podes contar-me.

 

O problema do mundo instantâneo e partilhado em que vivemos, da beleza e perfeição espelhada nos likes e loves dos outros, online e offline, é que se criam monstros soberbos dentro das pessoas.

Ficamos ilhas afogadas na solidão de milhões de oceanos vazios de mar.

Então disse-lhe baixinho, enfiando o nó mais lá para o fundo de mim com um golo grande de cerveja,

 

- Tenho um monstro dentro de mim.

 

Ela não me ouviu. Rebentou o sete furioso à nossa frente. Embrulhamos as duas as pernas na manta, cheiramos de olhos fechados o pulverizar das lágrimas do mar à nossa frente.

Deixei o monstro cá dentro. Tranquei-o de novo, encostei a minha cabeça no ombro dela e disse-lhe,

 

- Está tudo bem. Está tudo bem querida amiga.

 

Ela encostou a cabeça na minha e respondeu,

 

- Está certo. Vou fingir que acredito. Bebe sua mula, quando quiseres chorar avisa.

 

Sorrio por dentro.

A solidão acompanhada sabe a mar zangado.

Está tudo certo. Está tudo certíssimo.

 

(sobre músicas que são histórias. E neste caso, clássicos que cantam sobre silêncios que crescem como cancro. Em memória dos Bourdains desta vida, que vivem com monstros às escondidas do mundo)

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


...

por Ana sem saltos, em 10.06.18
Amo-te. 
Amo os teus recantos, as rugas que nos contam, amo o teu sorriso, amo o teu coração, grande grande, soberbo como o mar. 
Amo a forma como te dás, mais ainda como recebes. 
Amo que me ames, amo que me abraces, amo que me procures e mais ainda que me encontres.
És a minha metade melhor. 
És o meu projeto de vida.
E mesmo que erremos, mesmo que soframos, mesmo que nem sempre tudo seja paixão, eu amo-te, amo mesmo, amo por amor. 
Ergue-me no teu abraço, é lá que me encontro.
 
Até velhinhos.
 

4C75C3DA-6916-4D6D-ADB3-197E359BC075.jpeg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D