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Histórias avulso

Desilusões

Junho 18, 2019

_ Porque chora menina?

Assusto-me com a voz afável do velho pescador. O susto vem pela quebra do loop em que me encontro, ali sentada na areia molhada, decidida a verter todo o meu sal no mar.

Que não se desperdice mais nada em mim.

_ Assustei-a, desculpe.

Ele olha diretamente para o mar, acende uma ponta de um cigarro, e atira a linha bem para longe, para depois da rebentação. Depois senta-se ao meu lado esperando o puxão da linha.

Incomoda-me um pouco a leveza com que ele se aproxima de mim, ainda para mais sabendo-me... só. Limpo as lágrimas da cara e procuro algo na carteira para quebrar o desconforto.

Acabo por desistir e abraço os meus joelhos olhando também o mar. Depressa me esqueço de mim mesma, deste enorme embaraço que trago por dentro, das razões que me levam a não gostar mais de mim. Quero muito ver um grande robalo roubado ao meu sal.

_ Muitos acham que o segredo da pesca é o isco.

Eu nada sei de pesca, nem de iscos, nem de segredos. Segredos de pesca. Não lhe respondo uma vez mais, deixo o mar fazer o seu trabalho na oferenda de um sacrifício ao homem. 

_ Mas não é menina. O segredo da pesca é o silêncio e a paciência. Só assim ouvimos o mar.

Aceno-lhe que sim com a cabeça e sinto novamente vontade de chorar, mas há um pudor grande em verter lágrimas ao lado de estranhos. Mais pudor houvesse em verter dor em corações alheios.

De repente o fio estica muito e ele levanta-se de um salto, parece uma jovem bailarina no corpo de um lobo do mar. Morde a beata do cigarro, e franze o sobrolho lutando com perícia contra o desespero da fuga. Mantenho-me imóvel, quase sustenho a respiração, observando a luta entre quem quer fugir e quem tem a arte de não o deixar fazer. Quando a linha mostra finalmente o início, deparamos-nos os dois com um enorme emaranhado de algas, parece que acabamos de decapitar a bruxa do mar. Vejo-lhe a desilusão por detrás do sorriso debaixo do bigode.

E então volto mesmo a chorar.

Ele nada me diz, desembaraçando a linha e retirando aquele amontoado de algas. Não consegue salvar o anzol.

_ Acho que apenas choramos por desilusão. - digo-lhe entre soluços.

Ele coloca um novo anzol na linha, retira de uma pequena embalagem uma minhoca ainda viva, e enterra-a cruelmente na ponta afiada. Antes de voltar a lançar a linha ao mar, levanta-se, e diz-me olhando-me pela primeira vez.

_ A desilusão não existe menina, isso é crença de gente fraca.

Sinto-me ofendida, agora. Acabei de o ver desiludido com o mar, quem se julga aquele velho para me chamar de fraca? 

Levanto-me sacudindo a areia das pernas.

Ele lança novamente a linha para depois da rebentação.

_ Só se desilude o burro que espera que sejam os outros a dar-lhe o que ele não consegue lutar para si.

A linha estica, desta vez foi bastante rápido. Ele puxa com destreza, enrolando rápido o carreto. Da linha de água sai um enorme sargo contorcendo-se no desespero de quem luta pela vida. Ele enterra bem a cana na areia e uma vez elevado no ar o grande peixe, aproxima-se dele e retira-o com uma delicadeza inesperada da armadilha.

Depois beija-lhe as escamas e lança-o novamente ao mar. 

Levanto-me e vou-me embora virando costas ao mar. Estou assumidamente farta de pescar as minhas próprias desilusões.

 

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Excertos (III)

Junho 12, 2019

_ Dizem que não devemos voltar onde já fomos felizes. Maior mentira do século, a seguir a Cristo.

_ Oh filha, por amor de Deus.

_ Estou a brincar consigo, mãe. Adoro a sua tentativa de olhar reprovador, sempre adorei.

E a mãe sorri, fechando os olhos.

_ Bom, antes de mais, que me diz de irmos ver as ondas antes de almoço?

No céu estoira um relâmpago.

_ As ondas?

_ Sim. Vamos ver o mar da falésia.

Maria encosta a cabeça e volta a fechar os olhos.

 

Vamos ver o mar amor,

Que de lá ouvem-se os murmúrios do mundo,

Mantos de lágrimas, ondas de espuma,

Anda, amor, vem olhar comigo o mar,

Linha faminta que devora o sol,

Zanguemo-nos a cada rebentar,

E choremos juntos, num eterno vazar,

a tua,

a minha,

A nossa dor, meu amor.

 

_ Vamos ver o mar, sim, filha. Vamos ver o mar.

E vão, mãe e filha, juntas ver o mar.

Param o carro junto à falésia. Lá em baixo o mar parece o reflexo do mau humor do céu, que de vez em quando se enfurece e rebenta num enorme trovão. As ondas rebentam também ao fundo, muito longe, longe de mais. Formam-se extensos mantos de espuma branca, agitados, revoltos, famintos, devorando terra à encosta.

Onda após onda, história que se repete a cada encher, a cada vazar, o mar ditando as regras daquela praia agora sem pegadas de gentes.

_ Obrigada filha. Obrigada.

A filha sorri, também envolta no morno que o silêncio faz estalar entre duas pessoas que se querem muito bem. Lá em baixo correm duas raparigas que mergulham no mar. Maria inveja-as em silêncio, lembrando-se de quando também ela podia quebrar regras e tabus e mergulhar nos mares revoltos de inverno.

 

_ Vens?

_ Nem pensar, estou gelada. Ainda nos vêm…

_ Ninguém nos vê, amor. Sou eu, tu, e um mar imenso que nos chama. Anda.

Mergulhamos os dois no mar, ele puxa-me para si e envolve-me num abraço protetor, às vezes acho que os seus braços têm metros infinitos de extensão só para me poderem albergar inteira. Não há fúria de mar algum que pareça forte o suficiente para nos derrubar. Não há, somos apenas os dois, um casamento em estreia, uma fome insaciável de nos conheceremos mais e mais e mais. Entrego-me ao abraço, entrego-me à onda que nos leva de volta à areia, entrego-me à magia de seremos apenas os dois no mundo inteiro, dois livros abertos um para o outro, desbravando, conhecendo, querendo mais e mais e mais. Amamo-nos na areia, amamo-nos como se o mundo fosse mesmo acabar, entregamo-nos sem tabus a cada capricho que a carne nos pede. E há bocas, e mãos, e suspiros, e gemidos, há um tudo todo inteiro, quando rebentam os muros dos medos e aparências, quando a individualidade se desfaz em espuma numa única e intensa vontade.

Canta o mar ao fundo, e nós olhamo-nos exaustos.

_ Achas que é pecado?

_ Minha princesa gladiadora. Que pecado poderá haver em amar tanto?

 

 _ Vamos mãe?

que pecados se escondem por detrás do amor?

_ Vamos querida. Abateu-se sobre a tua velha mãe uma fome de mil anos.

A filha ri-se satisfeita

_ Bom sinal, querida mãe. Bom sinal. Vamos então.

Vénus

Maio 30, 2019

O reverso da moeda deste conto aqui.

 

Nesse dia, quando Inês acordou, tudo apontava para um dia como todos os outros. O despertador tocou às 6:45, e pelo canto do olho Inês viu os pequenos e densos fios de sol, impondo à força a entrada de luz na escuridão. Lá fora os cães do costume ladram, e a cabeça e a alma doem-lhe de forma doce e peganhenta. Ausência absoluta de novidade na eterna repetição dos dias.

Permanece naquele estado pouco consciente entre o sono e o despertar e é, subitamente, invadida por uma sensação vitoriosa de resolução. Abre os olhos finalmente consciente. De noite costuma ser invadida por uma lógica muito pouco lógica, mas que lhe ataca o raciocínio de forma grotesca, limitando-lhe todo e qualquer livre arbitrium nisto de pensar. É aleatoriamente conduzida por caminhos que não controla, não escolhe, não encontra. Passa, por isso, todas as noites numa luta inglória tentando focar o seu querer em cair no sono para encontrar nesgas de um estado de quase paz. Consegue, esporadicamente, e apenas por breves minutos.

Levanta-se da cama num salto e põe a mão debaixo da almofada, num misto de esperança e pânico de encontrar o que procura. Encontra, efetivamente. Com cuidado, desdobra a folha de papel e senta-se na beira da cama lendo-se no devaneio da insónia. Ali estava o seu plano, a sua resolução, a sua sentença. Bem estampada a tinta,

clara, simples, eficaz.

Respira fundo, bem fundo, e de olhos fechados diz para dentro movendo os lábios sem voz,

Adeus.

Inês decidira naquela noite que aquele seria o seu último dia viva. E a consciência da sua decisão efetiva-se agora no raiar do dia, sem as alucinações ilógicas que cavalga de noite.

Abre os olhos, entusiasmada pela força impulsionadora de uma decisão finalmente sua, pela sensação de ter alguma rédea nos caprichos da maré que a trouxera, sem o seu consentimento, do útero da mãe até aquele preciso hoje.

Levanta-se e abre as portadas das janelas libertando o sol para inundar o quarto.

Lá fora a primavera é feminina e fértil, faz ferver os sangues das folhas, dos cães, dos homens. O tempo morno desperta o calor do renascimento, desperta uma noção de vida que lhe parece um delicioso contraste à sua caligrafia prescrevendo-lhe a morte.

Inês, hoje encerras-te.

É, estranhamente, um desejo alegre que lhe flutua, nela que nunca foi nem particularmente alegre, nem particularmente triste. Nela que limitou a sua existência somente a isso: existir.

Antes de entrar no banho, Inês escreve no telemóvel:

"Surgiu um imprevisto e hoje não posso ir trabalhar. Estarei incontactável até amanhã."

Amanhã.

A água quente num corpo morno e mole do sono, lava-lhe o cansaço até à ultima partícula. As mãos, as pernas, os braços num abraço, toda ela inteira no momento em que cuida da carapaça onde mora. A ausência do amanhã encharca-a de esperança e liberdade, é no saber das últimas coisas que lhes encontra o verdadeiro sabor.

Veste-se com cuidado, ao contrário do que normalmente lhe ditava a igualdade dos dias, e escolhe o seu melhor vestido. Cintado, de saia rodada, fluido e fresco, com pequenas flores bordadas nas bainhas.

Seca e escova bem o longo e farto cabelo, deixa-o solto tombando-lhe nos ombros. Salienta as maçãs do rosto com um pó que nunca chegara sequer a abrir, e passa o batom por estrear há dois anos nos lábios.

Olhando-se no espelho é surpreendida pela imagem que o reflexo lhe devolve. Agradavelmente surpreendida. Sorri para si mesma, e sente no estômago o bater de asas de mil borboletas, como se todas tivessem decidido rasgar os seus casulos ao mesmo tempo.

Coloca na carteira as chaves e o telemóvel, não sem antes passar os olhos nas 4 chamadas não atendidas do escritório. Não abre nenhuma mensagem e sai de casa.

Guia sem pressa pela estrada, atenta a cada detalhe daquele dia que se dispôs particularmente imaculado e bonito. As andorinhas regressaram já há mais de um mês, e esvoaçam caindo a pique do céu. No limite das árvores ou do chão mudam rapidamente de direção, lançando-se inesperadamente ao azul. As árvores estão novamente vestidas com folhas suculentas e virgens no seu primeiro desabrochar. E não há transito, nem barulho, nem desordem, nem expectativa. São 9 da manhã e o deslumbramento do dia promete ser longo.

Para o carro em frente a casa do pai. A mesma casa toda uma vida, a cor amarelada do prédio, da porta da entrada, outrora verde, mas agora aguada, talvez pelas inúmeras mãos forçando-lhe a abertura desde sempre, limpando-a de qualquer alegria ou cor. Cá fora uma senhora de idade passeia um cão igualmente antigo. Observa-lhes as semelhanças e a atenção excessiva para com o animal, a voz mansinha ditando-lhe comandos,

- Quiqui, vá anda querida, quiqui, não lambas o chão, ai ai,

convicta que a entoação maternal conceder-lhe-á um outro estatuto maior e mais preenchente do que o de animal de estimação. Inês consegue sentir, por de trás da senhora, no pequeno descampado outrora coberto de silvas e amoras, a sua voz de menina chamando a mãe.

Oh mãe, mãe!…

As cores dessa memória quebram-lhe a energia, por isso Inês apaga-as saindo do carro.

Dirige-se à entrada do prédio e toca no 2º dto. A porta de baixo abre, e ela ouve lá em cima a voz rouca de Maria:

- Quem é?

- Sou eu, Dona Maria.

- Eu quem?

Eu quem…

- Eu, Inês, venho ver o pai.

Ouve a corrente ser retirada da porta, e pressente um vislumbre de irritação. Como se algum ladrão ou benfeitor quisesse, porventura, entrar naquele velho apartamento, cheio de bolor e tristeza encarcerando dois velhos que aguardam a morte um do outro.

Entra em casa e os olhos demoram algum tempo até se habituarem à penumbra daquela escuridão imposta pelos estores sempre semicerrados. O cheiro antigo a remédio, pretérito imperfeito e roupa húmida provoca-lhe uma náusea quase descontrolada, dando corpo a uma angústia miúda que lhe percorre em arrepio o corpo. Controla-se, e consegue aos poucos distinguir as formas das coisas. Olha Maria, ali de pé, olhando-a de volta, surpresa.

- Olá Maria.

A velha permanece imóvel, Inês vê que o queixo lhe treme, assustada e emocionada com a sua imagem de agora mulher.

- Oh menina. Que bom que veio. O seu paizinho, sabe, não está bem menina, não está bem.

- Bem sei Maria, há muitos anos que ele não está bem.

A velha senhora balbucia lamentos acenando tristemente com a cabeça.

- Posso vê-lo?

- Pode sim, menina, claro que pode. Mas não estranhe, menina, ele por vezes não diz coisa com coisa, está muito mal, menina, ai o seu paizinho está tão mal.

Inês assente sorrindo, contendo a vontade súbita de esbofetear a pobre velha, condenada por si mesma a nada decidir para além da espera.

Entra no quarto do pai, está mais escuro ainda que o resto da casa. Vê ao lado da cama uma bomba de oxigénio, urrando baixinho uma súplica inútil e insistente. Em cima da mesa de cabeceira estão pousadas sete caixas de medicamentos, talvez mais. O vulto do pai de baixo dos lençóis parece-lhe pequeno para a imagem do gigante que lhe mora na memória.

- Pai?

Aproxima-se da cama e é surpreendida pela figura raquítica de um velho pequenino e mirrado, estupidamente frágil, engolido num sono sem sonhos. Puxa uma cadeira e senta-se ao seu lado. Contrariamente ao que esperava, não sente medo, nem se quer raiva. Também não consegue sentir pena pela solidão impregnada nas paredes do quarto e da casa e da vida do pai.

- Vim para me despedir, pai.

O corpo permanece inerte, desmaiado e Inês sente latejar na garganta uma espécie de justiça divina acontecer-lhe diante dos olhos. A fraca a poder decidir morrer, o forte condenado a sobreviver.

- Já não o odeio, pai – diz-lhe em suspiro – Estanho isto… Sem ódio, que me resta sentir por si?

E por mim?

Sorri, dolorosamente feliz. Passa os dedos no rosto frio e enrugado do pai, e, mesmo antes de se levantar para se ir embora, sussurra-lhe:

- Mas queria que soubesse, antes da minha partida, que nunca lhe perdoei a morte da mãe.

O oxigénio urrando, as paredes escuras, a espera acumulando segundos, o corpo de um velho sem alma, sem nada. Inês baixa um pouco mais o tom de voz aproximando a boca do ouvido do pai:

- Nem tão pouco a aspereza das suas mãos por debaixo do meu vestido.

O silêncio explode naquele grito sussurrado, e Inês engole uma espécie de soluço que a ataca de forma violenta. O jamais dito proferido assim, liberta-a de uma persistente e longínqua sensação de culpa.

Levanta-se endireitando o vestido, vira as costas para sair do quarto, e, por de trás de si, Inês ouve como eco de um rugido de algum ontem,

- E onde vais mesmo assim vestida de puta?

Inês volta-se novamente para o pai, mas o corpo continua na mesma posição de antes. Aproxima-se e procura-lhe o olhar na penumbra do quarto. Os olhos estão fechados e a respiração mantem-se profunda e vazia.

Sai do quarto, passando por Maria que chora sentada no sofá.

Despede-se em andamento,

- Adeus Maria.

Antes de sair e fechar,

finalmente,

aquela porta, parece-lhe ouvir o soluçar do pai, desfeito em ossos e coração cuja penitência é bater.

Desce as escadas depressa, o vestido flutua no seu passo apressado. Inês sente-se bonita e leve e mulher.

Entra no carro, tira o papel da carteira e risca a frase: “Enfrentar pai.”

Mete primeira e arranca com as janelas do carro abertas para deixar entrar toda a luz daquele dia.

O estômago desperta-a, e Inês sente fome como se se tivesse esquecido da necessidade de comer toda a vida. Pensa rapidamente em sítios onde poderá almoçar. Ignora o saldo miserável da conta, e acaba por estacionar o carro em frente ao restaurante que desponta no fim de uma arriba. O mar imenso estoira em azul e sol, a água move-se unida numa enorme massa, fingindo que não é apenas um aglomerado de milhões de gotas. Inala fundo o cheiro salgado da maresia, e desponta-lhe na memória o primeiro mergulho que dava todos os anos no mar, antes de crescer cedo de mais e virar mulher amorfa e inerte.

Tira uma fotografia com o telemóvel à porta do restaurante, e envia por mensagem com o texto:

“Olá. Precisava de te fazer uma pergunta antes de me ir embora, consegues passar cá?”

Entra no restaurante, é recebida com cavalheirismo e requinte por um empregado impecavelmente fardado.

- Boa tarde, é para almoçar?

- Sim, por favor.

- Mesa para dois?

- Para já, uma - responde sorrindo.

- Com certeza, senhora.

Senhora.

O poder de um vestido bonito, de um decote generoso e de uma alma resolvida. Inês sente-se capaz de fazer rodar o mundo na ponta do indicador.

Senta-se na mesa encostada à grande portada de vidro. Lá em baixo o mar dança-lhe chamando-a sedutoramente. Inês observa demoradamente a generosidade da ementa, e escolhe para entrada ostras, e depois um robalo do mar com legumes salteados. A acompanhar um flute do melhor champanhe. Repara que é observada por vários homens enquanto almoça mas, ao contrário do expectável, não sente o desconforto que deveria sentir por estar num sitio como aquele, e sem companhia. Na verdade, aprecia o momento aproveitando cada garfada do almoço, cada golo no champanhe, cada olhar demorado que cada homem provavelmente casado lhe lança.

Quando termina a refeição, Pedro chega e senta-se à sua frente.

Olham-se eternos segundos antes de proferirem qualquer palavra.

- Estás muito bonita – diz-lhe, finalmente.

Pedro mantinha aquele olhar vago que tanto poderia dizer-lhe tudo, como rigorosamente nada. Inês sente um borbulhar ácido no estômago e, para o atenuar, termina o champanhe perguntando-lhe:

- Queres?

- Não posso demorar. A minha mulher está a minha espera.

- Claro que está.

Instala-se um silêncio profundo. Se quisessem, ouviriam o eco da ausência de vida em Marte naquele momento.

Mas Inês sente uma força que nunca sentira, ser senhora do seu destino dá-lhe coragem para abrir toda e qualquer porta. Não há consequências sem amanhã. Então, quebra ela o silêncio:

- Não quero tomar o teu tempo. Vejo que estás bem, já sei que o segundo vem a caminho.

- É verdade, sim. Nasce em julho.

- Parabéns.

Inês levanta o dedo, e com o olhar pede ao empregado que a sirva de mais um copo.

- Diz-me, por favor,

Ele olha-a sem indefinição agora. Olha-a demoradamente, com fome, surpresa e fúria.

- Porque foi mesmo que deixaste de me amar?

Pedro faz um esforço para se manter impassível e responde-lhe sorrindo:

- Porque não tinhas esse vestido, nem bebias champanhe.

Ela não se deixa intimidar pela graçola, não vai permitir desvios à conversa. Olha-o fixamente nos olhos aguardando a resposta.

_ Inês, por favor, já passou tanto tempo... além disso nota-se que estás muito bem, disseste na mensagem que ias embora, para onde vais mesmo?

- Eu insisto, Pedro. Não posso ir sem saber, eu mereço saber. Casaste, portanto, ao contrário do que me fizeste julgar, não foi por temeres as amarras de uma relação séria.

Ele desmancha a máscara irritando-se visivelmente, esforçando-se por se equilibrar na linha cortante que separa a raiva da vontade. O despontar de uma quase lágrima denuncia-o antes de falar:

- Queres mesmo saber?

Inês bebe mais um golo depois do empregado a servir, e espera que este se afaste da mesa. Lambe os lábios ancorada ao seu papel, deliciosamente lúcida do poder dos seus gestos. Assenta-lhe que sim com o olhar.

- Nada é mais desgastante do que amar quem não se ama, Inês. E o desgaste, eventualmente, mata.

Mata. Ou morre?

Então ela cai num enorme trambolhão daquele seu pedestal de fazedora de destinos, ainda que se mantenha impecável por de trás do seu batom.

 - Faz uma boa viagem. Desejo-te mesmo muitas felicidades.

Pedro levanta-se e deixa-a sozinha com o champanhe, o corpo bonito, e a alma acordada de um sono secular, dormente e liquido. Inês pede a conta, e sai do restaurante. Entra no carro, retira a lista da carteira, escreve um visto tremido em frente a "Confrontar Pedro". A mão treme-lhe, não lhe obedece ao comando. Depois a mão pega a sua irreverência ao resto de toda ela, e o corpo lança-se num tremor doloroso e frenético, até se verter num choro pesado, antigo e profundo. Inês chora em convulsão, derramando em água o rímel e aquela dor podre e fora de prazo.

Duvida de si mesma pela primeira vez nesse dia, sente raiva por perder a confiança que a trouxera até ali. Esmurra com força o volante do carro, esmurra com raiva e dor, até lhe doerem mais os punhos do que o peito.

Exausta, para e olha-se no espelho retrovisor. O reflexo é implacável e franco. Esborratada, cansada, hesitante.

Miserável nas mãos dos outros.

Retira da carteira toalhitas e limpa a maquilhagem da cara, devorada por aguçados pontos de interrogação.

Teria ela alguma vez amado? Se nem mesmo o corpo, preso às memórias escuras de menina, se deixara alguma vez verter inteiro e cego no impulso, poderá existir amor sem isso?

Inês tira os sapatos elegantes de salto alto e sai do carro descalça.

Caminha, então. Passa o restaurante, fino e elegante, passa a estrada e duas esplanadas seguindo em direção ao pinhal que antecede o caminho de terra batida junto ao mar. Caminha com a cabeça vazia das resoluções e indecisões, dos amores e desamores, da sentença de autopiedade que ela mesma se prescrevera. Caminha, apenas, dando missão à cabeça e ao corpo, fugindo daquela sensação fraturante de fracasso. Não encontra mais a força alegre na sua própria decisão, não encontra nada mais a não ser o impulso de andar para o mar. Consciente, ainda assim, do corpo que detém, da alma que lhe mora, do sangue que lhe corre. Os pés magoados e secos pela poeira do chão, doem-lhe, mas Inês já não lhes sente o aperto da elegância do salto alto.

Ouve, então, o rugido do mar ao fundo. Alarga o passo e cola toda a sua existência na beira da arriba.

_ Menina? Por favor pare!

Inês volta-se para trás, vazia da surpresa que deveria sentir. Vê um homem novo e ofegante uns passos atrás de si. Por breves instantes, quase se comove com a imagem aflita do homem pedindo-lhe para conversar. Mas Inês não ouve nada rodando o corpo na ponta dos pés, elevando os braços ao alto e a perna direita na direção ao abismo, elevando-se numa trágica coreografia perante o olhar desesperado do homem. Alguém que não a sabia, nem inteira nem vazia, um estranho, apenas, que tomara a decisão de a seguir.

Então, Inês afasta-se da arriba, puxa o laço do vestido e despe-se para ele. Não o deixa reagir ou se quer sentir, atirando-se nua nos seus braços. Exige-lhe com a boca e a voz, a carne e a vontade, a fome e o querer, dançando nele, entregando-se, pela primeira vez, ao sabor profundo e quente de não ter vergonha de si mesma. Com o mar chamando-a lá em baixo, Inês faz-se mulher na cumplicidade de dois corpos que se libertam da ironia da verdade ou consequência. Estreia-se, sentido dilacerante a miragem da possibilidade do que nunca foi, nunca quis, nunca teve.

O homem, agora deitado no chão, olha-a num misto de susto e fascínio.

Mas Inês não lhe permite a tomada de consciência, não lhe permite deixar de ser momento para ser alguém, e assim como se lançou nos braços exigindo-lhe o pulsar da vida, novamente se lança à canção do mar que ecoa no fundo da arriba.

_ Menina bonita, por favor, e o seu nome? Um homem não pode amar uma mulher sem nome…

Um nome. Bonita. Menina. Amar.

Inês sorri-lhe e reponde-lhe baixinho, mesmo antes de se lançar do penhasco:

_ Sou Vênus e vou-te contar um segredo. Afinal sou eu que não sei amar.

Abril 24, 2019

De noite, naqueles segundos que antecedem o mergulho inteiro no sono, vagueio de forma aleatória numa sopa de memórias reais e sonhadas. É nesse momento que O sinto mais presente, precisamente quando não existem mordaças à mente, e sinto-O, por isso, de uma forma mais irónica do que quando estou conciente da minha existência no mundo. Sinto-O vagueando dentro de mim, procurando recantos esquecidos ou perdidos, penetrando sem permissão nas minhas vontades e angústias. Vagueio, eu e Ele lado a lado, num estado de embriaguez, sem me permitir definir se sonho acordada ou se durmo sonhando. Passo de pensamento em pensamento, sentimento em sentimento sem qualquer tipo de lógica ou fluidez. É um estado quase puro de existência em que me sinto e pressisto. Resiste, Insiste, Desiste, recomeça, por fim. Talvez seja Deus, talvez seja apenas eu mesma vestida de todas as eus que moram em mim. Resiste apenas uma certeza, esta bem lúcida e vincada.

Vale a pena acordar, mesmo que não tenha chegado a adormecer.

...

Março 15, 2019

É inegável a tristeza que a invade de tempos a tempos. Uma noção pouco nitida de si mesma, do seu papel no mundo, do certo e do errado. Dualidade permanente, até nas escolhas mais simples, como a de cozinhar por obrigação ou por prazer.

Certezas leva-as o vento, por mais que as agarre com toda a força de cada músculo das mãos e do coração. Derretem-se como açúcar na língua, deixando para trás a incerteza de um sabor amargo.

Guerras ocultas

Março 07, 2019

A crueldade humana manifesta-se, muitas vezes, num falso silêncio. Não se dizem as coisas, subentendem-se. A sugestão fica suspensa no ar, ali a pairar como uma mera possibilidade no meio de milhares de outras.

Depois, é só deixar o poder da imaginação do outro fazer o seu trabalho. As feridas surgem como consequência de uma auto mutilação, sem qualquer interferêcia nossa. 

Numa era em que se fala tanto (e bem) da violência contra as mulheres, lembremos-nos de tantas outras formas de violência para além da física. Mais difíceis de provar, e sem predominância de género - nem nas vítimas nem nos agressores.

 

 

Excertos (II)

Fevereiro 17, 2019

_ Estás bem Maria?

Estamos os dois sentados no terraço de casa. O sol põe-se ao longe nas montanhas, oferecendo ao ar e às coisas um tom morno e suave de acolhimento. As andorinhas esvoaçam pelo ar, em bando, devorando pequenos insetos que se juntam no topo do lago. As rãs começam a desbravar os sons noturnos, tímida e lentamente. Lá dentro a nossa filha dorme uma sesta tardia.

Estendo-lhe o copo pedindo mais um pouco de vinho branco. Depenico uma azeitona.

_ É bom ter-te de volta querido.

Dou mais um golo de vinho. Encho o peito dos odores desse fim de dia morno de primavera, do cheiro frutado do vinho fresco. A minha cabeça rodopia num frenesim imparável de palavras, sensações, tudo povoado pela saudade e pelo medo.

_ Conta-me sobre África,

Digo-lhe por fim.

Ele serve-se também de mais um pouco de vinho. Cruza a perna e encosta-se para trás fechando os olhos. Observo-o demoradamente. Vinha mais forte das terras africanas, e a pele estalava ainda o sol daquele continente. Trazia também consigo uma calma invejável. Estou certa do amor profundo que sinto por aquele homem, mas atravessa-me como raio cortante uma sensação de dever.

_ África tem o teu cheiro, minha princesa gladiadora. Mas faltaste-me tu. Diz-me primeiro se estás bem.

Pousa um melro no muro ao fundo do jardim, canta-nos alto, sobrepondo o seu canto a todos os outros sons.

_ Não sei se estou. Não sei se estou.

A voz treme-me, não a controlo, quero parecer límpida e segura, quero fazer o correto, mas a voz treme denunciando-me, a voz treme apesar do vinho, da calma, do ar ameno, das andorinhas no ar, dele finamente de volta, disposto a ouvir-me.

Ele desencosta-se da cadeira, inclina-se para a frente para mais perto de mim. Agarra-me as duas mãos, leva-as à boca, e beija-as olhando-me nos olhos. Não resisto à verdade do seu olhar e baixo o meu, e fixando-o nas nossas quatro mãos enlaçadas.

_ Eu sei que não estás.

Levanta-se e puxa-me para si. Toma-me nos braços e abraça-me com força, muita força, como se me quisesse tomar por inteiro para dentro de si, como se me quisesse devorar todas as dores. Eu fico primeiro tensa no abraço,

a minha dor seria a sua dor, seria a sua grande dor, e ficam coisas por dizer, ficam sempre coisas por dizer,

mas derreto por fim, languida e mole nos seus braços, deixo-me embalar, deixo-me cheirar, deixo-me provar, ainda que por dentro, me grite estridente,

Tive medo de não te amar, mas não é desamor, não é desamor, meu amor.

Ele não me ouve a voz de dentro, mas sente-me o desarmar, pressente-me a súplica do corpo e da mudez na boca e encosta o nariz na curva do meu pescoço. Murmura-me baixinho que cheiro a flor e a mar, que cheiro a saudade imensa, que cheiro a mim sendo sua.

Entramos os dois em casa, ele guia-me pela mão. Eu deixo-me levar, na valsa do momento. Conto os passos, calando a voz de dentro,

Fala.

Conto-os,

um, dois, três,

não me permito pensamentos, quero ser só sentimento. Não o mereço, mas quero-o com desespero, e por isso conto os passos,

quatro, cinco, seis,

que me levam para o quarto, que me erguem e a estendem na cama, que me despem, peça a peça, lágrima a lágrima, medo a medo,

e deixo-me amar.

Amo e deixo-me amar, desmoronando inteira num desejo chorado, numa voz calada de palavras, ali apenas soluçada e suspirada.

Deixo o desmerecimento para depois, há um bem-querer

egoísta e forte de mais

que me mora naquele agora.

...

Fevereiro 16, 2019

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Treinou um grito mudo que ecoa no peito, feroz, poderoso, silencioso.

Depois teve de lidar com o medo permanente de um dia o mundo acabar por desabar debaixo dos seus pés, ficando destinada a cair, para sempre.

E ninguém ouvirá o seu grito.

 

 

 

São Valentim

Fevereiro 14, 2019

No dia de celebrar o amor...

Permitam-me a correção. No simbolismo que este dia tem na celebração do amor, não nos esqueçamos que a sua grandeza, 

arde sem se ver,

és fogo, e água, e sangue em mim,

o beijo que selou o para sempre,

prometo,

desculpa-me,

estás em todo o lado em mim,

obrigada,

só prevalece na soma (e celebração) das pequenas coisas.

 

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Excertos

Fevereiro 12, 2019

_ Vamos lá ver o sorriso mais bonito deste hospital! Bom dia, veja quem chegou para o ver!

Cheiro decrépito e peganhento a éter, medo e fé.

Olho-o na cama e lembro-me de um preciso momento, tantas décadas passadas. Já não está ali, como eu não estou aqui, sei que ele me expia por de trás do enorme jornal. Ali sentado na sua poltrona, eu sei que ele me olha enquanto eu, em vão, tento ler o meu livro. Nietzche, desta vez. Procuro em desespero uma razão para tantas outras razões, encharco-me inteira de dúvidas. Ele já não folheia há tempo de mais. Que lerá ele em mim, aqui lendo deitada no chão?

Gott is tot, diz-me o livro.

E ele olhando-me de soslaio por cimas das letras do jornal. Mas Deus não pode estar morto. Decido naquele momento que Deus não pode estar morto, interrompo-lhe o voyerismo, interrompo a minha existência em crise, interrompo o meu mundo inteiro,

Gott is tot,

e decreto-lhe suavemente procurando amainar a tempestade que me habita:

É verdade querido.

Estou grávida.

Ele já não finge ler o jornal, e eu sinto o assassinato de Deus algures no peito, mas, em oposto, a vida pulsando no meu ventre.

Agora sou eu que o espio. Espio-lhe o sono e os sonhos, espio-lhe a vida e impeço-a de me deixar. O meu egoísmo latente até ao último momento. Tenho ainda coisas para dizer.

As máquinas ensurdecedoras contam batimentos e segundos. Marcando a inevitabilidade das coisas e da vida,

da morte,

da tristeza do fim que se prevê perante qualquer início.

O peito dele, outrora forte e saudável, está agora mirrado e pequenino, como o de um passarinho acabado de nascer, respirando tão leve que o movimento

cima, baixo, cima, baixo, ritmo lento da música que faz girar o mundo,

passa impercetível ao comum dos mortais.

Beijo-o na testa. Está tão fria.

Devagar ele abre os olhos e vê-me.

_ Bom dia meu amor – diz-me sorrindo.

_ Chiu. Não fales homem, tens de te poupar,

tens de me poupar.

Ele sorri e fecha novamente os olhos. Sempre me obedecera, chama-me princesa gladiadora. O sono vem então, leve e fugaz, como sombra de presságio que se sente sem se ver. E ele mergulha nele uma vez mais, esgotando os segundos e o ar. Eu ignoro a minha idade e as minhas dores, e ali fico de pé expurgando medos e culpas, de pé ao seu lado, presa à réstia de vida que ainda lhe sai das mãos.

Agarro-lhe os dedos, fecho os olhos, e lentamente mergulho dentro de mim, naquele canto onde mora a esperança e o medo,

tão velhinha e frágil,

tão forte e gigante,

nas palavras que digo como mantra,

_ Avé maria, cheia de graça…

E o hospital inteiro para naquele momento, numa prece que se junta acima do ar, a outras tantas mil preces, de quem pede e promete, jura e suplica, crente e cego pelo pavor da perda,

de um marido, de um filho, de um sonho, de uma vida.

Até a enfermeira, já não sei qual delas, me tocar no ombro,

_ O tempo acabou minha senhora,

E eu lá me conformar com isto do tempo,

ah o tempo,

acabar todos os dias.

Bem sei que o tempo se esgota, e é, no entanto, um projeto inacabado de um qualquer deus morto cedo demais.

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