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Histórias avulso

...

Março 15, 2019

É inegável a tristeza que a invade de tempos a tempos. Uma noção pouco nitida de si mesma, do seu papel no mundo, do certo e do errado. Dualidade permanente, até nas escolhas mais simples, como a de cozinhar por obrigação ou por prazer.

Certezas leva-as o vento, por mais que as agarre com toda a força de cada músculo das mãos e do coração. Derretem-se como açúcar na língua, deixando para trás a incerteza de um sabor amargo.

Guerras ocultas

Março 07, 2019

A crueldade humana manifesta-se, muitas vezes, num falso silêncio. Não se dizem as coisas, subentendem-se. A sugestão fica suspensa no ar, ali a pairar como uma mera possibilidade no meio de milhares de outras.

Depois, é só deixar o poder da imaginação do outro fazer o seu trabalho. As feridas surgem como consequência de uma auto mutilação, sem qualquer interferêcia nossa. 

Numa era em que se fala tanto (e bem) da violência contra as mulheres, lembremos-nos de tantas outras formas de violência para além da física. Mais difíceis de provar, e sem predominância de género - nem nas vítimas nem nos agressores.

 

 

Excertos (II)

Fevereiro 17, 2019

_ Estás bem Maria?

Estamos os dois sentados no terraço de casa. O sol põe-se ao longe nas montanhas, oferecendo ao ar e às coisas um tom morno e suave de acolhimento. As andorinhas esvoaçam pelo ar, em bando, devorando pequenos insetos que se juntam no topo do lago. As rãs começam a desbravar os sons noturnos, tímida e lentamente. Lá dentro a nossa filha dorme uma sesta tardia.

Estendo-lhe o copo pedindo mais um pouco de vinho branco. Depenico uma azeitona.

_ É bom ter-te de volta querido.

Dou mais um golo de vinho. Encho o peito dos odores desse fim de dia morno de primavera, do cheiro frutado do vinho fresco. A minha cabeça rodopia num frenesim imparável de palavras, sensações, tudo povoado pela saudade e pelo medo.

_ Conta-me sobre África,

Digo-lhe por fim.

Ele serve-se também de mais um pouco de vinho. Cruza a perna e encosta-se para trás fechando os olhos. Observo-o demoradamente. Vinha mais forte das terras africanas, e a pele estalava ainda o sol daquele continente. Trazia também consigo uma calma invejável. Estou certa do amor profundo que sinto por aquele homem, mas atravessa-me como raio cortante uma sensação de dever.

_ África tem o teu cheiro, minha princesa gladiadora. Mas faltaste-me tu. Diz-me primeiro se estás bem.

Pousa um melro no muro ao fundo do jardim, canta-nos alto, sobrepondo o seu canto a todos os outros sons.

_ Não sei se estou. Não sei se estou.

A voz treme-me, não a controlo, quero parecer límpida e segura, quero fazer o correto, mas a voz treme denunciando-me, a voz treme apesar do vinho, da calma, do ar ameno, das andorinhas no ar, dele finamente de volta, disposto a ouvir-me.

Ele desencosta-se da cadeira, inclina-se para a frente para mais perto de mim. Agarra-me as duas mãos, leva-as à boca, e beija-as olhando-me nos olhos. Não resisto à verdade do seu olhar e baixo o meu, e fixando-o nas nossas quatro mãos enlaçadas.

_ Eu sei que não estás.

Levanta-se e puxa-me para si. Toma-me nos braços e abraça-me com força, muita força, como se me quisesse tomar por inteiro para dentro de si, como se me quisesse devorar todas as dores. Eu fico primeiro tensa no abraço,

a minha dor seria a sua dor, seria a sua grande dor, e ficam coisas por dizer, ficam sempre coisas por dizer,

mas derreto por fim, languida e mole nos seus braços, deixo-me embalar, deixo-me cheirar, deixo-me provar, ainda que por dentro, me grite estridente,

Tive medo de não te amar, mas não é desamor, não é desamor, meu amor.

Ele não me ouve a voz de dentro, mas sente-me o desarmar, pressente-me a súplica do corpo e da mudez na boca e encosta o nariz na curva do meu pescoço. Murmura-me baixinho que cheiro a flor e a mar, que cheiro a saudade imensa, que cheiro a mim sendo sua.

Entramos os dois em casa, ele guia-me pela mão. Eu deixo-me levar, na valsa do momento. Conto os passos, calando a voz de dentro,

Fala.

Conto-os,

um, dois, três,

não me permito pensamentos, quero ser só sentimento. Não o mereço, mas quero-o com desespero, e por isso conto os passos,

quatro, cinco, seis,

que me levam para o quarto, que me erguem e a estendem na cama, que me despem, peça a peça, lágrima a lágrima, medo a medo,

e deixo-me amar.

Amo e deixo-me amar, desmoronando inteira num desejo chorado, numa voz calada de palavras, ali apenas soluçada e suspirada.

Deixo o desmerecimento para depois, há um bem-querer

egoísta e forte de mais

que me mora naquele agora.

...

Fevereiro 16, 2019

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Treinou um grito mudo que ecoa no peito, feroz, poderoso, silencioso.

Depois teve de lidar com o medo permanente de um dia o mundo acabar por desabar debaixo dos seus pés, ficando destinada a cair, para sempre.

E ninguém ouvirá o seu grito.

 

 

 

São Valentim

Fevereiro 14, 2019

No dia de celebrar o amor...

Permitam-me a correção. No simbolismo que este dia tem na celebração do amor, não nos esqueçamos que a sua grandeza, 

arde sem se ver,

és fogo, e água, e sangue em mim,

o beijo que selou o para sempre,

prometo,

desculpa-me,

estás em todo o lado em mim,

obrigada,

só prevalece na soma (e celebração) das pequenas coisas.

 

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Excertos

Fevereiro 12, 2019

_ Vamos lá ver o sorriso mais bonito deste hospital! Bom dia, veja quem chegou para o ver!

Cheiro decrépito e peganhento a éter, medo e fé.

Olho-o na cama e lembro-me de um preciso momento, tantas décadas passadas. Já não está ali, como eu não estou aqui, sei que ele me expia por de trás do enorme jornal. Ali sentado na sua poltrona, eu sei que ele me olha enquanto eu, em vão, tento ler o meu livro. Nietzche, desta vez. Procuro em desespero uma razão para tantas outras razões, encharco-me inteira de dúvidas. Ele já não folheia há tempo de mais. Que lerá ele em mim, aqui lendo deitada no chão?

Gott is tot, diz-me o livro.

E ele olhando-me de soslaio por cimas das letras do jornal. Mas Deus não pode estar morto. Decido naquele momento que Deus não pode estar morto, interrompo-lhe o voyerismo, interrompo a minha existência em crise, interrompo o meu mundo inteiro,

Gott is tot,

e decreto-lhe suavemente procurando amainar a tempestade que me habita:

É verdade querido.

Estou grávida.

Ele já não finge ler o jornal, e eu sinto o assassinato de Deus algures no peito, mas, em oposto, a vida pulsando no meu ventre.

Agora sou eu que o espio. Espio-lhe o sono e os sonhos, espio-lhe a vida e impeço-a de me deixar. O meu egoísmo latente até ao último momento. Tenho ainda coisas para dizer.

As máquinas ensurdecedoras contam batimentos e segundos. Marcando a inevitabilidade das coisas e da vida,

da morte,

da tristeza do fim que se prevê perante qualquer início.

O peito dele, outrora forte e saudável, está agora mirrado e pequenino, como o de um passarinho acabado de nascer, respirando tão leve que o movimento

cima, baixo, cima, baixo, ritmo lento da música que faz girar o mundo,

passa impercetível ao comum dos mortais.

Beijo-o na testa. Está tão fria.

Devagar ele abre os olhos e vê-me.

_ Bom dia meu amor – diz-me sorrindo.

_ Chiu. Não fales homem, tens de te poupar,

tens de me poupar.

Ele sorri e fecha novamente os olhos. Sempre me obedecera, chama-me princesa gladiadora. O sono vem então, leve e fugaz, como sombra de presságio que se sente sem se ver. E ele mergulha nele uma vez mais, esgotando os segundos e o ar. Eu ignoro a minha idade e as minhas dores, e ali fico de pé expurgando medos e culpas, de pé ao seu lado, presa à réstia de vida que ainda lhe sai das mãos.

Agarro-lhe os dedos, fecho os olhos, e lentamente mergulho dentro de mim, naquele canto onde mora a esperança e o medo,

tão velhinha e frágil,

tão forte e gigante,

nas palavras que digo como mantra,

_ Avé maria, cheia de graça…

E o hospital inteiro para naquele momento, numa prece que se junta acima do ar, a outras tantas mil preces, de quem pede e promete, jura e suplica, crente e cego pelo pavor da perda,

de um marido, de um filho, de um sonho, de uma vida.

Até a enfermeira, já não sei qual delas, me tocar no ombro,

_ O tempo acabou minha senhora,

E eu lá me conformar com isto do tempo,

ah o tempo,

acabar todos os dias.

Bem sei que o tempo se esgota, e é, no entanto, um projeto inacabado de um qualquer deus morto cedo demais.

...

Janeiro 31, 2019

Vejo pela porta da entrada, uma chuva miúda que é açoitada com violência pelo vento. O Inverno carrega-me sempre com uma nostalgia semelhante a estas pobres gotas. Dispersas, minúsculas, sovadas, até parecem assustadas. Só que juntas formam um manto capaz de ensopar o mundo.

Vale-me a lareira quente, e o chá ao lume. Vale-me o riso dos meus filhos que correm descalços ignorando o frio. Vale-me a música que sai do telemóvel pousado na bancada da cozinha. Vale-me que sejas sempre sopro de primavera que, de mansinho, me vai secando a casa.

Dor

Janeiro 29, 2019

- Então, o que a traz por cá hoje?

Na verdade, não sei bem o que lhe diga. Há anos e anos que é este bom e velho médico que me cura todas as maleitas do corpo com benurons, chás de especiarias, e um sorriso que, não sabendo ele porque nunca lhe confessei, acaba por ser o melhor paracetamol para esta indigestão crónica de alma que me acompanha desde que me sei gente. Atribuo-lhe todo o mérito da minha saúde "de ferro", mas a verdade é que sei tenho uma sorte absurda, esta coisa da genética é francamente injusta. 

_ Aquela dor, doutor, é aquela dor...

Ele sorri-me, muito jovem de novo por detrás daquele manto imenso de rugas, escrevendo uma rubrica mais na minha extensa ficha de paciente.

_ E fez os exames que lhe pedi da última vez? - pergunta-me ele sem tirar os olhos do que escreve. E eu rio-me, mesmo sabendo que não conseguirei jamais transparecer a mesma juventude alegre que aquele homem verte dos olhos.

_ E eu lá sou mulher de exames doutor. 

Ele encolhe os ombros, sempre sorrindo sem me olhar, e eu, vou-me sentindo melhor a cada letra escrevinhada.

_ Mas devia. Olhe que devia. Não abuse da sua sorte.

Ora e aí está a questão. Já me lembro o que me trouxe cá, ao consultório do meu bom e velho médico. Que deverei fazer eu, sabendo-me já com milhas a mais na estrada da vida, para inverter esta bênção genética e que é agora a minha secreta maldição? É que estou só, tão só neste quadro de vida. Vi a retirada de todas as personagens, uma a uma, impávida e serenamente, e agora eis-me aqui, sozinha num imenso e extenso quadro, largado a um canto pelo pintor de destinos.

_ Estou cansada, sabe?

Ele pousa a caneta, retira os óculos, e olha-me no fundo dos olhos. Quero pedir-lhe que não pare de escrever, que continue sorrindo, céus, como odeio piedade. Mas não sou capaz, ciente que, num ligeiro ápice, poderei cair num espalhafatoso trambolhão deste pedestal imenso onde me encontro pousada.

_ Cansada de quê, conte-me lá?

De viver. 

_ Esta dor doutor. Já lhe tinha dito. Dê-me lá qualquer coisinha mais forte.

Rescrever Eça de Queirós - Última parte

Janeiro 25, 2019

(Parte I)

(Parte II)

(Parte III)

(Parte IV)

(Parte V)

(Parte VI)

 "Foi neste ritmo morno e colorido que eu e Lúcia, agora formalmente noivos, passeávamos pela Baixa. Tarde alegre, a condizer com o estado de espírito leve e feliz que me encontrava mergulhado. Caminhamos em passo lento e vamos olhando as lojas, até que Lúcia para em frente à entrada de uma ourivesaria olhando fixa e séria o ourives que nos sorri do lado de lá do balcão. Entramos e Lúcia pede para ver algumas peças que eram de seu agrado. Eu, com uma vontade imensa de a fazer a mais feliz das mulheres, digo-lhe que vá vendo e saio para ir levantar dinheiro ao banco para a surpreender com um presente de noivado. No regresso, o surpreendido afinal sou eu. Foram milésimos de segundos, ali passando à minha frente em câmara lenta, mas sei que o ourives tinha o braço em redor da cintura de Lúcia, inclinada sobre o balcão olhando um amontoado de peças. À minha entrada o ourives retira o braço, e sorri-me, exatamente com o mesmo sorriso comercial de anfitrião com que nos recebera à entrada. Apenas Lúcia, ainda fixa nas jóias espalhadas à sua frente, cora. O mesmo corar que me fez perder de amores na primeira vez que a vi. Avanço para o balcão, coloco-me ao seu lado, e peço-lhe que escolha o que quer. Sinto-me a sufocar, só quero desaparecer dali para fora. Sair das paredes daquela estranha miragem.

Lúcia escolhe finalmente, e volta-se para mim com o mesmo riso fugaz que sempre oferecera a tudo, mostrando-me o anel de esmeraldas que colocara no dedo. Entrega-o ao ourives para um ligeiro ajuste, e eu ofereço-lhe o braço para sairmos juntos."

Todo carregado de pressentimento, Raul apressa o passo para sair da ourivesaria. E é, nesse momento, bem antes de atravessar a porta, que é interpelado pelo ourives, 

_ Falta apenas pagar, senhor.

_ Pagarei no ato de entrega. - afirma Raul, mantendo o passo para a saída da loja.

Mas o ourives ignora a pressa do jovem casal, e insiste.

_ Com certeza senhor, mas não é a essa peça que me refiro. O anel que a senhora leva agora deverá, também, ser pago agora.

Raul trava a fundo. Volta-se primeiro para o ourives que mantém o seu sorriso, e de seguida para Lúcia, que, visivelmente atrapalhada, balbucia que deve ser um engano. Raul mantem-se olhando a noiva, depois o ourives, novamente a noiva. Lúcia afasta-se do balcão, e segreda a Raul,

_ Desculpa.

Raul endireita-se, volta-se e imita o ourives oferecendo-lhe o seu melhor sorriso.

_ Que enorme confusão, as minhas desculpas, a pressa leva a enganos. E quanto lhe devo então?

Raul paga uma quantia absurda pelo anel levado ao engano, e avança para, finalmente, sair da loja. Lúcia olha o ourives, e depois retoma o seu posto ao lado de Raúl. Saem juntos da loja, e caminham novamente pelo Chiado.

O grito do não dito torna imperador um silêncio que se sobrepõe ao mundo que continua, indiferente, a correr na baixa lisboeta. São minutos estendidos ao infinito,

ao fundo um senhor cego repete num timbre monocórdico "Tenha a bondade de me auxiliar", o elétrico toca a campainha mesmo antes de virar, e os carros travam no sinal encarnado cedendo passagem aos peões.

E Raul mantendo o passo junto a Lúcia, de forma mecânica e automática, como se todo ele fosse apenas de uma reação motora. Imune aos sons de fora, pairando como se tudo aquilo fosse um estranho e bizarro sonho.

É a rapariga loira que quebra o silêncio.

_ Raul, há outra pessoa, desculpa. Tem sido tudo muito precipitado, mas mais vale ser honesta e acabar de vez com esta farsa. Faço questão de te pagar o anel até ao último tostão, não quero mais confusões.

Raul cai a pique da miragem que o envolve deste a entrada na ourivesaria. Olha embasbacado Lúcia, vê-lhe a curva do pescoço, a mesma que o perdeu três séculos antes numa janela da Graça, vê-lhe a boca movendo-se, dizendo-lhe aquelas palavras, partindo-lhe em estilhaços a promessa selada lá atrás. O sorrir a tudo agora ausente naquele presente aguçado. A pele de pêssego, provada, amada, lambuzada, profanada. O búzio perdido, o relógio concertado, o sorriso à janela, a vontade em excesso, África em suor e lágrimas, o retorno, a esperança, Altino Afonso e o seu tio Francisco,

“No amor espera-se traição, mas na amizade, ah, na amizade não”.

Lúcia tenta falar na sua direção, mas Raul, mesmo antes de rodar os calcanhares para seguir, diz-lhe seco calando-lhe a voz,

_ Ladra imunda.

Segue então o seu caminho, virando numa transversal, e a imagem de Lúcia, ex-noiva de sabor a verão, é extinta da sua vida. Nessa mesma tarde Raul regressa à ribeira da sua aldeia. Até hoje.

_ Até hoje... - repete-me no escuro.

Eu encolho o estômago para dentro, talvez o estufado do jantar não me tenha caído muito bem. Oiço Raul respirar de forma mais lenta, denunciando-lhe uma possível entrada no mundo dos sonhos. Como pano de fundo à noite que finalmente se instala, o relógio de Raúl pousado na mesa de cabeceira, canta mecânico, tictaquiando os segundos.

 

(E quem conta um conto, aumenta um ponto. Ou dois. Ou três, nesta aventura que foi rescrever "Singularidades de uma rapariga loira")

Rescrever Eça de Queirós. Parte VI

Janeiro 25, 2019

(Parte I)

(Parte II)

(Parte III)

(Parte IV)

(Parte VI)

"Quando ficamos sem chão, creio que o sentimento primeiro que nos invade, e por mais absurdo que possa parecer, é o da vergonha. Vergonha de voltar a encarar o mundo cá de baixo. A expectativa nos píncaros tem este risco, a queda acontece de forma trágica. Andei a deambular pelas ruas de Lisboa, sem pensar em destino algum, caminhando apenas para controlar a angústia. Depois de passar do tudo para o nada, contar os passos pareceu-me a única coisa controlável na minha vida naquele momento. Neste passeio aleatório, sem partida nem chegada anunciada, acabo por ir parar à rua do meu tio Francisco. Olho a antiga janelinha onde me perdi de amores por Lúcia, relembro o coração aos pulos com aquele vago vislumbrar de um sonho. Olho a porta do meu tio e vejo o seu vulto na janela, por de trás da cortina." 

Talvez por estar demasiado embriagado de desespero, invadido pela nostalgia daquele momento, Raul age num impulso instintivo e toca à porta do tio Francisco, sem pensar duas vezes.

"Quando ele me abriu a porta fui, na verdade, surpreendido. Achei que não o faria, depois de me ver pela janela. Não tinha propriamente um discurso preparado, saiu-me apenas,

- Vim para me despedir, tio.

Ele não me respondeu, altivo no seu tamanho e saudade de um presente que não mora no hoje, mas abriu mais a porta e encostou-se do lado esquerdo oferecendo-me passagem para entrar. Entrei então, seguindo-lhe os passos até à sala. Ele sentou-se no seu cadeirão, e só então pôs os óculos. Sei que me olhava por cima deles, apesar de eu apenas o ver de soslaio, incapaz de o encarar de frente.

- Grandessíssimo filho de uma égua esse teu amigo Atino, heim Raul?

Fico estupefacto, e agora sim, olho-o de frente, provavelmente de boca aberta.

- No amor espera-se sempre traição. Agora na amizade... Ah na amizade não.

Sinto vontade de chorar, sobretudo porque lhe vislumbro um brilho nos olhos fora do comum naquele homem. A situação deixa-me num misto de alívio e desconforto, tenho uma súbita vontade de o abraçar. Não o fiz, evidentemente, o porte do meu tio não dava a permissões para grandes manifestações de afeto. Então ele levanta-se, abre um Porto, e serve-nos dois copos.

- Brindemos ao teu casamento. Volta para a relojoaria rapaz, não quero que a tua mulher seja casada com um desempregado que não tem onde cair morto.

Daí à felicidade suprema foi um tiro. O casamento pode manter-se de pé, eu voltei a uma arte que me apaixonou junto do meu tio Francisco, Altino passou a passado morto e enterrado na minha cabeça. Estava francamente mergulhado na expectativa de um futuro promissor e seguro: casado com a mulher dos meus sonhos, emprego seguro e uma tonelada de páginas em branco para preencher a partir daí.”

(Quem conta um conto, aumenta um ponto)

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