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Confissões

por Ana sem saltos, em 08.11.18

Perguntei-te baixinho enquanto dormias, 

o que é que amavas mais,
Se um beijo roubado à lareira,
Se uma lágrima liberta à beira mar.
Falei-te do que sinto quando chegas,
E do que me invade quando te vais.
Disse-te que é do sol que me alimento,
Mas que é na chuva que me encontro.
Confessei-te as minhas incertezas,
E do que encontro quando procuro.
Procurei-te quando sonhei menina,
E encontrei-te quando me fiz mulher.
Então chorei-te baixinho,
Porque agradecer e amar 
também se faz a chorar.
 
E Tu, meu homem dormindo,
respondeste-me cantando em sonho,
É de ti minha princesa,
É de ti que eu gosto mais.

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Foge

por Ana sem saltos, em 06.11.18

Apressa o passo. Por dentro consome-o uma sensação alucinante de fuga, uma ordem que lhe vem do estômago de forma indiscutivelmente autoritária,

foge,

e ele tem de fugir, andar depressa, não sabe do quê, mas tem de fugir. A urgência deste comando atira-o num abismo seco, os passos alinham-se, um por um, num caminho que se estende infinito à sua frente.

Há árvores, muitas árvores, há uma manhã imaculada e gélida, há um mar que ruge ao fundo, por de trás do manto de montanhas. Há muita coisa e não há ninguém. Só ele e a ordem de dentro,

foge.

Nos passos, um a um, forma-se um caminho. Nas pegadas, uma a uma, um amontoado de legados.

E então, quando o ar parece não chegar ao peito, por mais que inspire, por mais que expire,

toneladas de ar que não saciam fome alguma

quando do corpo sai água, sal de si, suor de alma, cansaço eterno expurgado pelos poros,

ele para.

Lá dentro a ordem cala-se. 

Gira o corpo sobre si, inspira bem fundo, o ar instala-se agora no peito, o coração acalma, bate, bate, bate devagar, e então,

ele volta seguindo as pegadas,

legados,

uma a uma,

pelo caminho que o devolve ao início.

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"Olho por olho e o mundo acabará cego"*

por Ana sem saltos, em 02.11.18

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Visto do lado de cá do atlântico, neste pequeno e pacífico país à beira mar plantado, é muito fácil julgarmos as decisões que um povo inteiro toma do lado de lá do oceano. Na minha pequena e segura realidade, não consigo conceber a ideia de uma criança saber disparar uma arma. Ando na rua e não tenho medo o fazer apenas por ser mulher.

Há muitas coisas que eu não sei e, por isso, e com a devida prudência, procuro abster-me de julgamentos. Até porque, e vejamos o que nos conta a história, o medo, o orgulho ferido, a destruição de uma nação, conseguiram eleger um Hitler. Oiçam os discursos dele e a reação do povo às suas palavras. Caramba era só um homenzinho baixo e dono de um bigode ridículo aos berros, e ainda assim, mergulhadas na desesperança de um pós guerra, as pessoas transformavam-se embebidas numa histeria coletiva. Assustadora vista aos olho de hoje, porque acredito que naquele momento o que as pessoas sentiam dentro de si, era esperança outra vez.

O medo e a derrota transformam-nos.

O que sei, ou pelo menos quero acreditar, e é nesse pressuposto que tento educar os meus filhos, é que a violência não se cura com violência. E um discurso que inflame ódios, que vá aos receios e preconceitos de cada um,

Como ouvi dizer, num circulo bastante próximo, agora é que vai ser, o brasil vai ficar limpinho de paneleiros. 

um discurso que provoque nas pessoas a revolta, o ódio, o olho por olho, dente por dente, só agoira coisas tristes.

Acabar com a bandidagem parece-me um princípio correto. O problema é o que é que Bolsonaro considera bandido. E o que é que é bandido para cada um daqueles brasileiros, que aparentemente, poderão vir a ter licença para usar armas.

A alma humana é uma manto infinito e imprevisível, e ignorante é aquele que acha que sabe sempre como reagiria perante as adversidades da vida. Olhando para a repetição dos factos é fácil perceber a força das massas quando espicaçadas pelas razões erradas.

Aflige-me algumas das barbaridades que já ouvi de pessoas que sei que são boas, aflige-me o que o cansaço e a desesperança provocam, e mais me aflige que essas pessoas - cansadas, desiludidas e à procura de uma nova esperança -  se unam e procurem acabar com essa desespero de alma de forma cega. A crueldade nasce no coração de um homem num minúsculo ápice, principalmente quando a individualidade se perde numa enorme massa zangada.

Bem sei que sou romântica,

há dores que não provei e que não quero vir a provar,

mas porque será que não vemos mais vezes a repetição de um Gandhi, ou de um Cristo – cristianismos à parte?

Porque é que é tão mais fácil seguir um

_ Mata.

Em vez de um

_Ama. ?

Não sei. E isto é apenas um blogue de histórias. Voltemos a elas que lá fora chove a cântaros.

 

*Mahatma Gandhi

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menina

por Ana sem saltos, em 29.10.18

Quando a menina pequena e redonda, com a cara forrada de caracóis de ouro, lhe perguntou com os olhos afogados em lágrimas,

porquê?

ela lembrou-se do tempo em que também ela era menina e os olhos se podiam encher de mar sem qualquer medo, culpa ou vergonha.

E então ficou muito triste, mergulhada na penumbra daquela memória antiga,

invejando a espontaneidade pura da menina. 

 

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...

por Ana sem saltos, em 26.10.18

Ainda que morra, de tempos a tempos,

com quedas a pique,

para dentro de mim,

ainda que chore sem lágrimas,

procure esperança,

e me veja apenas a mim,

ainda que tenha medo, amor,

tanto medo que tenho às vezes.

 

acordo sempre,

e vejo-te a ti.

 

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Equinócio

por Ana sem saltos, em 27.09.18


Põe um pé na areia. Depois põe o outro. Deixa entrar a sensação de verão tardio, o rugido bruto do mar. Não há ninguém, é só ela, a areia quente e o mar em estrondo ao longe. Tudo é um exagero, solidão gritante no peito. 

Sente uma euforia apaziguadora nisto que é estar sem eira nem beira, ali entregue ao passar de múltiplos agoras. 
Poe um pé no mar. Depois o outro. Deixa vir a espuma violenta, cheira à fúria que se sente no virar da estação. E então mergulha. O mar está zangado e pede lágrimas de redenção. E ela,  sempre dada a isto da fúria, não lhas nega e dá-lhas todas, entregando ali o equinócio que há em si.
 
 

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Missão

por Ana sem saltos, em 19.09.18

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Limpava e limpava na fúria de ver branco, esfregava até lhe esfarelarem os dedos das mãos. Naquele momento, a alma fugia-lhe de si, e ela via-se focada naquela missão, ali vivida e encarada como a missão de vida.

Estendia os lençóis, sacudia furiosamente mantas e tapetes. Esfregava azulejos, batia colchões. Mergulhava absorta até nada mais sentir, nada mais doer, nada mais lhe parecer sujo, torto ou fora do sítio. Quando finalmente acabava, sentava-se no chão imaculado e fechava os olhos.
Tudo perfeitamente limpo e arrumado.
 
Então levantava-se,
 
joelhos doendo, costas doridas, mãos ardendo, 
 
e recomeçava tudo outra vez.

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Palavras

por Ana sem saltos, em 17.09.18

As palavras são como gotas que pingam dentro de mim. Resistentes à rotina, ao desleixe, ao tempo, ao medo. 

Sinto, às vezes, que mais dia menos dia rebentará um cano enorme, e então terei de lidar com uma alucinante inundação de palavras, milhões de palavras, daquelas que alinhadas fazem sentir coisas, 
boas, 
más, 
bonitas, 
terríveis. 
 
Será o dia em verei chorada toda a minha alma, assim num bestial derrame de lágrimas faladas. 
Aquelas que pingam e pingam resistentes dentro de mim.

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Folha em branco

por Ana sem saltos, em 06.09.18

Voltei ao papel, que é coisa que para além de recados e bullets básicos,

Comprar xarope,

Fazer irs,

não fazia, estou certa, há meio milhão de anos.

A minha letra é algo que me embaraça, um amontoado de riscos e rabiscos, furiosamente carregados no papel, totalmente incompreensível,

Ah santito, a sua letra demonstra inteligência, parece a de um médico! Meu querido avô, sempre tão exagerado nas minhas capacidades.

Tenho uma inveja assumida da letra nobre e elegante da minha avó. Tenho a certeza que os seus inúmeros escritos serão perfeitamente legíveis dentro de outro meio milhão de anos. Já os meus, caramba, nem eu mesma serei capaz de reler dentro de três horas.

Ainda assim, senti, novamente, o súbito prazer no cheiro a papel, um cheiro que vai muito além das notas básicas da vida,

Comprar ração,

Pagar colégio.

Tinha saudades de sentir a caneta dançar ao som do coração. Foi nesta valsa que comecei esta paixão pela escrita, quando era ainda uma criança e o mundo era uma promessa feita de sonhos. A maravilha que é sentir-me totalmente cheia de expectativa perante a possibilidade infinita que é uma folha em branco.

O meu marido ofereceu-me, pelas mãos gorduchas do meu filho mais velho, um caderno bonito, forrado a tecido. Tem pequenas flores amarelas e azuis, parece o sorriso que se sente cá dentro no início morno da primavera.

E então comecei a escrever de forma irremediavelmente ilegível, notas básicas e racionais, numa tentativa quase absurda de organizar a vida,

Abrir atividade (?)

Ver detalhe obras

Duvidas IEFP

Ser feliz

nada de muito extraordinário. Até porque muito em breve vou querer ler o que escrevi e vou deparar-me com a tarefa embaraçosa de não saber decifrar os meus próprios planos.

Pouco importa.

O tempo urge e eu voltei ao papel.

 

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Presságio

por Ana sem saltos, em 04.09.18

A luz e a cor eram aquelas descritas em tantas escritas, cor de presságio, tons de aviso. Fala-se no sexto sentido, talvez seja isso: acordar de manhã e saber exatamente pela cor pintado o mundo que algo se avizinha.

presságio é agoiro escrito nas nuvens do céu

Olha-o dormindo na cama, avalia-lhe o respirar, a vida que lhe corre fervendo nas veias. Ali está erguido um grande amor, velejado toda uma vida sem a pressa de um motor ou dor de um remo. Velas de borboleta, fortes e inteiras levando-os em brisas e vendavais do ontem para o hoje, do hoje para o amanhã. E a história que se escreve, escrita e por escrever, bonita, cantada, sonhada, chorada.

e presságio é canto de anjo maldito

Levanta-se e estica o corpo até sentir todo e cada músculo de si em tensão. Inspira bem fundo. Fecha os olhos e chora por dentro um oceano inteiro de angústia.

E presságio é cor de dor antiga

_ Bom dia meu amor,

Volta-se e olha-o sorrindo para si. Sorri-lhe de volta. Volta a ocupar o seu lugar na cama e embrulha-se no seu abraço. Fecha os olhos. Inspira novamente todo o ar do mundo e chora por dentro de novo, escondida por de trás de um enorme sorriso.

E então sente valente aquele amor gigante, invadindo-lhe em onda todos os poros e receios, apagando os tons de presságio pincelados no céu. Amor que se sente no conforto de casa. O amor que é ele mesmo os tijolos das paredes que fazem de uma casa um lar.

_ Obrigada.

Ele abraça-a com força, ainda mole do sono da noite e ela, engolida naquele abraço milenar, enxota para longe os presságios e agoiros, lágrimas de ar e receios, enxota tudo para bem longe de si. Entrega-se somente ao momento que é aquele: acordar nos braços de quem se ama.

E é assim que agradece muito além das letras que fazem a palavra, agradece com a boca selada às palavras faladas, agradece com os olhos vendados ao que é visível, agradece com a alma a transbordar de invisível.

E então chora por fora, sorrindo inteira por dentro, e vê lá fora o sol engolir faminto as cores com que os seus medos pintaram o mundo de presságio.

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