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Rescrever Eça de Queirós. Parte II

por Ana sem saltos, em 19.01.19

(Parte I aqui)

_ Por favor, não se importa de me indicar o meu quarto?

Depois de um dia que parecia ter ultrapassado largamente as 24 horas que contam os relógios, só queria estender as pernas na cama e entregar-me ao sono. A empregada conduz-me então apressadamente pelo corredor.

_ Já tem um hóspede no seu quarto. Decerto saberá que alguns dos nossos quartos são partilhados.

Estes pequenos albergues rurais são dotados de uma ousadia que faz lembrar a que mora nas crianças. Mas assento afirmativamente, só quero dormir.

Ela aponta-me então para o número 26, e volta para os seus afazeres. Toco na porta e aguardo o “sim” que finalmente vem do lado de lá. Entro com o meu saco na mão. Do lado esquerdo vejo uma cama ainda - ou já - desfeita, com um amontoado de roupa atirado aos pés; do lado direito, uma outra cama – a minha –coberta com uma colcha de chita. Quando levanto o olhar para cumprimentar o meu companheiro de quarto, vejo que se trata de Raul, a minha companhia de jantar. Sorrio em jeito de novo olá ao homem que já se encontrava de pijama.

_ Ora, bom, olá de novo. Peço-lhe que não repare nesta confusão, estava agora mesmo a tentar dar um jeito.

Raul agarra apressadamente o monte de roupa fazendo uma enorme bola de peças entre os braços. Olha à volta e decide pousar o amontoado de roupa assim mesmo, em cima da cadeira de apoio.

Fecho a porta atrás de mim, pouso a minha mala no chão e retiro o casaco, como se tivesse acabado de entrar em casa.

Já deitados, de luz apagada, as pernas finalmente ganhando aquela moleza inerte de um cansaço que parece transcender os caprichos da carne, não saberei dizer que razões terão levado Raul, agora de relógio de pulso pousado na mesinha de cabeceira, a contar-me a sua história. Dizem que um anónimo no escuro é o melhor ouvinte de segredos indizíveis. Talvez seja por isso mesmo que os padres se escondem em confessionários. E a sua história, ainda que de certa forma comum, não deixou de me entrar de forma terrível alma a dentro, dando corpo esta vaga agonia que me acompanhava desde a chegada ao Minho.

_ Conhecerá o Raul a família Borges, já que também é do Porto? - pergunto-lhe ainda antes da confissão e de forma a criar espaço para dizer as boas noites com simpatia.

No escuro Raul responde-me:

_ O amigo conhece? Conheço sim, família abastada, dizem que fizeram a sua fortuna à conta de muitos segredos. Eu cá não sei. Sei que é uma família muito bonita e indiscutivelmente elegante.

 

Quem conta um conto, aumenta um ponto.

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Reescrever - Eça de Queirós. Parte I

por Ana sem saltos, em 18.01.19

Agora que penso bem, lembro-me que foi no Minho que conheci Raul Cardoso. Na
estalagem velha do centro da vila, para ser mais exato. Homem nem alto, nem baixo,
cabelo grisalho apesar de parecer novo, ou, pelo menos, mais novo do que a idade
que deveria ter. Mas tinha umas olheiras marcadas, cinzentas e fundas, ali bem
desenhadas, como se fossem a moldura de um quadro sorridente mas triste. Usava
uma barba bem aparada, também ela a despontar cinzento. Todo bem-posto dentro do
seu fato cinzento, olhava a horas no relógio de pulso algumas 3 vezes a cada 4
minutos. Cada vez que puxava o pulso para perto dos olhos para se certificar que
passara cerca de um minuto e meio desde a última vez, eu espantava-me com
aquelas mãos, pálidas e com dedos finos e compridos. Mãos quase tão belas como as
de uma donzela pianista.
Ora e isto era setembro. E setembro, no Norte, cheira a vindíma. No Minho, para além
do cheiro a uva, sente-se nas narinas o sal do mar. Os dias ainda são mornos, já não
se sufoca com o braseiro de verão, mas as manhãs declaram-se já bem frescas.
A viagem até ao cume de Portugal é uma prova dos diabos à resistência de um
homem. Horas e horas com curvas e contra curvas, em estradas e estradinhas, apesar
de ser um verdadeiro repasto para a alma de qualquer apreciador de vida, com um
extenso panorama de paisagens até lá se chegar. Tinha o estômago colado nas
costas, e os braços e as pernas padeciam exaustos de tanto tempo inertes. Os olhos,
esses, ardiam-me de forma feroz, depois de devorarem sofregamente mil e uma
paisagens. Já tinha desistido de me deliciar com aquelas vistas quando me deparo
com um velho convento abandonado, ali padecendo de abandono à beira da estrada.
As ruínas daquele antigo albergue de devotos de cristo ali plantado, sem almas para
lhe encher as paredes de rezas, fazem despontar no peito uma memória milenar de
algo que nunca chegou a acontecer. Vejo-me de repente, ali mexendo as terras
vestido de monge, procurando batatas e fé debaixo das pedras.
O sol já se começa a pôr mais cedo, fazendo prever a nostalgia dos dias pequenos de
inverno. E com a sua partida, cai um manto de orvalho por cima daquelas terras,
humedecendo as ervas e as folhas caídas. Agora, para além de uva e mar, cheira
também a terra recém regada.
Na estalagem jantamos os dois, eu e o Raul Cardoso. Eu, procurando satisfazer uma
fome antiga, depois de tamanha viagem, de comida e de conversa, e ele francamente
entretido com a novidade de uma companhia ao jantar. Enquanto molho os cubos de
carne estufada no molho, pergunto-lhe se é do Porto.
_ Sou do Porto sim, vejo que o meu sotaque me denuncia descaradamente!
_ Ah, o Porto. Bela cidade, lindíssimas mulheres!
A frase entra de rompante entre nós, interrompendo uma conversa casual e
moderadamente alegre. O meu companheiro de jantar perde nesse momento o sorriso
bem-disposto dos lábios, e encarna, momentaneamente, a figura de uma estátua
antiga cristalizada algures no tempo.
_ Sempre que lá vou faço sempre questão de visitar a sé, lindíssima a vossa sé. E
claro, passear a pé no porto é uma franca e asseadíssima lavagem das vistas.
Enfio neste momento a última garfada do estufado na boca. Termino o meu jantar
alguns minutos depois do Raul, que só então de se retira da sala de jantar desejando-
me uma boa estadia.

 

(Quem conta um conto aumenta um ponto)

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Alma de lava

por Ana sem saltos, em 14.01.19

Sai de manhã bem cedo. Janeiro entranhado no mundo inteiro, o janeiro dali, da sua aldeia,  dias de céu limpo e frio feroz, geada virgem cobrindo os campos. Indiferentes ao gelo que se põe como manta no chão, os pássaros madrugam e pintam o ar com notas de música.

Puxa as golas do casaco para cima, procura afastar o frio do corpo caminhando depressa. O ar entra em flocos peito a dentro, as mãos encolhidas nos bolsos geram uma sombra de calor no abraçar dos dedos.

Mas por dentro tudo ferve numa ebolição imortal, de vida, de dor, de som e amor.

Pode gelar o universo inteiro.

Não há janeiro que valha à sua alma de lava.

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Ambição

por Ana sem saltos, em 03.01.19

A mudança de ano no calendário leva-nos a uma irremediável consciencialização do que passou, do que queremos mudar. Maravilhoso é sentir que pouco ou nada queremos mudar. Essa é a minha meta: chegar a um patamar de vida em que os pedidos se evaporam em milhares de gotículas de agradecimento (à saúde, à família, ao amor, ao sol, ao despertar, ao adormecer, ao respirar). 

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Bipolaridade

por Ana sem saltos, em 18.12.18

Aquilo que mais lhe desgasta os nervos, que os torna hirtos e cortantes, são, por norma, coisas miúdas. Perde anos de vida e toneladas de sanidade mental com goticulas de problemas, que normalmente nem se quer são seus. 

Mas depois, quando se depara com uma coisa em grande, respira fundo, busca nas suas entranhas mais longínquas serenidade, e então avança, calma e sossegadamente, de frente para a onda de um tsunami.

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...

por Ana sem saltos, em 16.12.18

Sempre que ouço um avião no ar lembro-me do meu avô.

ah Santito, o mundo será seu.

seu de céu.

Eu que nunca o cheguei a ver no ar, via-o, no entanto, sempre a esvoaçar num sonho sem fim. Quantas pessoas se poderão gabar de terem navios gigantes com âncoras de memórias tão vivas que parecem ser parte da carne em nós?

 

 

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Diamonds are a girl’s best friend

por Ana sem saltos, em 01.12.18

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...

por Ana sem saltos, em 24.11.18

Se ao menos o sol não se pusesse nunca,

e o céu fosse sempre como pedra turquesa,

pois a lua não me chega para sossegar o espírito,

nem as corujas piando no seu despertar.

Poderia eu ser e sentir apenas luz,

livre da escuridão que me assombra no breu da noite?

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Mentira

por Ana sem saltos, em 21.11.18

Passaram-se muito anos. O presente mostra-se, implacável, como réplica barata do que foi sonhado no passado. Tem a casa, a família, o nome, o estatuto. Já não tem mulher.

Já não tenho mulher.

Levanta-se do cadeirão da sala, esperguiça-se. Os músculos, cansado e mirrados, erguem-se, um a um, das costas soa um estalo. Dirige-se à cozinha e serve-se de um copo de água. Bebe toda de um trago. Faltam poucos minutos para todos chegarem. A mesa está posta com requinte: os talheres de prata antiga e robusta reluzindo, os copos de cristal milimetricamente colocados em frente aos pratos, estes de fina porcelada e debroados a ouro. Tomba das beiras da mesa uma enorme toalha de linho creme, impecavelmente engomada.

Volta para a sala e senta-se no cadeirão. Tem na garganta uma comichão persistente, a água não ajudou a secar a angústia de dentro. Mas chegou o momento, ele sabe. 

Nunca é tarde de mais para repor a verdade.

Abre o seu diário antigo, toca com as pontas dos dedos as folhas de papel. Escritas, rescritas, lambidas, choradas.  

Quis tudo e agora sou um valente nada.

Frases e frases contendo a memória da culpa, sombra omnipresente numa vida tão bonita de se ver de fora.

Sorri de escárnio de si mesmo. 

Rídiculo. Sou rídiculo.

A porta abre e os filhos entram um a um. 

_ Como vai pai?

Beijam a testa do pai, instalam-se na sala trazendo consigo um caos familiar e morno. Da sua cadeira ele observa a fotografia da sua vida, ali posta em mais duas gerações. Homens e mulheres feitos, já erguidos ao estatuto de pais e mães, falando, sorrindo, abraçando, contando. Ele vai respondendo, um a um, às questões que lhe vão fazendo.

Sim tem-se aguentado bem sozinho. Sim a tensão baixou. Sim tem dormido razoavelmente.

Mais um pequeno amontoado de mentiras, a darem mais volume à mentira mãe que lhe habita no peito, na lágrima, na história, na carne.

_ Vamos para a mesa?

E vão, sentam-se todos na enorme mesa da casa de jantar. Ele observa o seu legado todo junto, e não deixa de sentir uma ternura grande por de trás da camada triste que lhe cobre o coração .

A refeição toma-se demoradamente. Há brindes e risos, há histórias passadas, há uma intimidade que ele, por mais que tente, não consegue fazer parte. Excluído do seu prórprio projeto de vida. 

Terminada a sobremesa, levanta-se a custo do seu lugar. Apoia as mãos na mesa e olha os filhos, um por um. Estes, percebendo a postura do pai, vão-se calando, um por um. E ele, uma por uma, começa a cuspir palavras.

_ Chamei-vos aqui para vos falar de um crime que cometi.

Eles sorriem primeiro. Esperam um discurso inflamado de humor e ironia do pai, era bom senti-lo de volta.

_ A vossa mãe morreu, e fui eu que a matei. 

O sorriso derrete. O silêncio entra de rompante, ignorando a ausência de convite.

_ Matei-a sim, eu mesmo, matei a vossa mãe de desgosto. Encobri uma mentira toda uma vida. Encobri-a por cobardia, cometi-a por fraqueza de coração, quando, num dado momento da nossa vida, amei outra mulher para além dela. Todos os dias pensei em contar-lhe. Todos os dias deixei escapar o momento. Por medo, por insegurança, por culpa, por cobardia. Sou um cobarde, meus filhos, e agora, para além de cobarde, sou também assassino do grande amor da minha vida.

Os filhos já não olham o pai. Olham para os copos, para a janela, para o colo. Ao fundo, a filha mais nova chora.

E ele, volta a sentar-se, erguendo o copo em jeito de brinde,

_ Ao cobarde e grandessíssimo filho da puta do vosso pai,

Bebe um golo de vinho, pousa o copo, tira do bolso uma pistola antiga, pequena, e de cabo de marfim. Encosta o cano na tempora esquerda,

_ Pai!

e, depois de fechar os olhos espremendo para fora de si duas grossas e pesadas lágrimas, faz pressão com o indicador, 

e dispara.

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Palcos

por Ana sem saltos, em 16.11.18

_ A vida é um gigante palco.

Diz-me o senhor emigrante, agora cá pousado feito andorinha, para gozar os seus próximos meses de encanto luso de maresia e chouriço na grelha. Observo-lhe o sorriso das rugas, gosto sinceramente da sua sabedoria vivida.

_ Isso nem parece vindo de si, sr. J.

Ele ri-se com a boca muito aberta, e ajeita o boné que outrora foi vermelho. Coça o topo da testa, como que ajeitando os pensamentos.

_ Talvez, menina, talvez.

Deixo-me ficar em silêncio, dando-lhe espaço para continuar. Ele retira do saco um pedaço grande de pão velho, esmaga-o os dedos – grossos, grandes e de pele curtida pela terra e pelo sol –  e atira-o ao rio. Lá em baixo um amontoado de patos e pardais luta para alcançar as migalhas dispersas na água.

_ Mas é. Olhe que é. É um palco de um enorme teatro, às vezes cheio de audiência, às vezes com os lugares todos por preencher.

É uma visão triste da vida, penso para mim, essa de nos encararmos como atores de múltiplos papéis.

_ Desta vez não posso concordar consigo. Não há nada mais triste do que termos de fingir o que não somos.

Ele sorri.

_ Então e um palco é só feito de atores, menina? Há quem queira estar na ribalta, e há quem prefira o trabalho dos bastidores, criando a atmosfera necessária para os atores brilharem.

Surpreende-me sempre, velho emigrante analfabeto doutorado na arte da vida. Volto para casa com a alma refastelada,

Estarei no palco ou nos bastidores?

Quando a primavera rebentar de novo, tenho de lhe perguntar quem é o realizador desta incrível peça de teatro que é viver.

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