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Missão

por Ana sem saltos, em 19.09.18

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Limpava e limpava na fúria de ver branco, esfregava até lhe esfarelarem os dedos das mãos. Naquele momento, a alma fugia-lhe de si, e ela via-se focada naquela missão, ali vivida e encarada como a missão de vida.

Estendia os lençóis, sacudia furiosamente mantas e tapetes. Esfregava azulejos, batia colchões. Mergulhava absorta até nada mais sentir, nada mais doer, nada mais lhe parecer sujo, torto ou fora do sítio. Quando finalmente acabava, sentava-se no chão imaculado e fechava os olhos.
Tudo perfeitamente limpo e arrumado.
 
Então levantava-se,
 
joelhos doendo, costas doridas, mãos ardendo, 
 
e recomeçava tudo outra vez.

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Palavras

por Ana sem saltos, em 17.09.18

As palavras são como gotas que pingam dentro de mim. Resistentes à rotina, ao desleixe, ao tempo, ao medo. 

Sinto, às vezes, que mais dia menos dia rebentará um cano enorme, e então terei de lidar com uma alucinante inundação de palavras, milhões de palavras, daquelas que alinhadas fazem sentir coisas, 
boas, 
más, 
bonitas, 
terríveis. 
 
Será o dia em verei chorada toda a minha alma, assim num bestial derrame de lágrimas faladas. 
Aquelas que pingam e pingam resistentes dentro de mim.

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Folha em branco

por Ana sem saltos, em 06.09.18

Voltei ao papel, que é coisa que para além de recados e bullets básicos,

Comprar xarope,

Fazer irs,

não fazia, estou certa, há meio milhão de anos.

A minha letra é algo que me embaraça, um amontoado de riscos e rabiscos, furiosamente carregados no papel, totalmente incompreensível,

Ah santito, a sua letra demonstra inteligência, parece a de um médico! Meu querido avô, sempre tão exagerado nas minhas capacidades.

Tenho uma inveja assumida da letra nobre e elegante da minha avó. Tenho a certeza que os seus inúmeros escritos serão perfeitamente legíveis dentro de outro meio milhão de anos. Já os meus, caramba, nem eu mesma serei capaz de reler dentro de três horas.

Ainda assim, senti, novamente, o súbito prazer no cheiro a papel, um cheiro que vai muito além das notas básicas da vida,

Comprar ração,

Pagar colégio.

Tinha saudades de sentir a caneta dançar ao som do coração. Foi nesta valsa que comecei esta paixão pela escrita, quando era ainda uma criança e o mundo era uma promessa feita de sonhos. A maravilha que é sentir-me totalmente cheia de expectativa perante a possibilidade infinita que é uma folha em branco.

O meu marido ofereceu-me, pelas mãos gorduchas do meu filho mais velho, um caderno bonito, forrado a tecido. Tem pequenas flores amarelas e azuis, parece o sorriso que se sente cá dentro no início morno da primavera.

E então comecei a escrever de forma irremediavelmente ilegível, notas básicas e racionais, numa tentativa quase absurda de organizar a vida,

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Duvidas IEFP

Ser feliz

nada de muito extraordinário. Até porque muito em breve vou querer ler o que escrevi e vou deparar-me com a tarefa embaraçosa de não saber decifrar os meus próprios planos.

Pouco importa.

O tempo urge e eu voltei ao papel.

 

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Presságio

por Ana sem saltos, em 04.09.18

A luz e a cor eram aquelas descritas em tantas escritas, cor de presságio, tons de aviso. Fala-se no sexto sentido, talvez seja isso: acordar de manhã e saber exatamente pela cor pintado o mundo que algo se avizinha.

presságio é agoiro escrito nas nuvens do céu

Olha-o dormindo na cama, avalia-lhe o respirar, a vida que lhe corre fervendo nas veias. Ali está erguido um grande amor, velejado toda uma vida sem a pressa de um motor ou dor de um remo. Velas de borboleta, fortes e inteiras levando-os em brisas e vendavais do ontem para o hoje, do hoje para o amanhã. E a história que se escreve, escrita e por escrever, bonita, cantada, sonhada, chorada.

e presságio é canto de anjo maldito

Levanta-se e estica o corpo até sentir todo e cada músculo de si em tensão. Inspira bem fundo. Fecha os olhos e chora por dentro um oceano inteiro de angústia.

E presságio é cor de dor antiga

_ Bom dia meu amor,

Volta-se e olha-o sorrindo para si. Sorri-lhe de volta. Volta a ocupar o seu lugar na cama e embrulha-se no seu abraço. Fecha os olhos. Inspira novamente todo o ar do mundo e chora por dentro de novo, escondida por de trás de um enorme sorriso.

E então sente valente aquele amor gigante, invadindo-lhe em onda todos os poros e receios, apagando os tons de presságio pincelados no céu. Amor que se sente no conforto de casa. O amor que é ele mesmo os tijolos das paredes que fazem de uma casa um lar.

_ Obrigada.

Ele abraça-a com força, ainda mole do sono da noite e ela, engolida naquele abraço milenar, enxota para longe os presságios e agoiros, lágrimas de ar e receios, enxota tudo para bem longe de si. Entrega-se somente ao momento que é aquele: acordar nos braços de quem se ama.

E é assim que agradece muito além das letras que fazem a palavra, agradece com a boca selada às palavras faladas, agradece com os olhos vendados ao que é visível, agradece com a alma a transbordar de invisível.

E então chora por fora, sorrindo inteira por dentro, e vê lá fora o sol engolir faminto as cores com que os seus medos pintaram o mundo de presságio.

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Verbos

por Ana sem saltos, em 18.08.18

Há dois verbos possíveis de conjugar a vida. Resignar ou aceitar. 

 

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[Ao fundo vejo o céu engolir o mar. Não há linha a definir o horizonte, é como se os dois azuis se assumissem, finalmente, como o um só que são. E se ao início isso me confunde, devagar, e contando os passos que me levam para depois me trazer de volta, acabo por aceitar.]

 

Quero ter a força e humildade de saber sempre aceitar toda e qualquer prova que a vida me dê.

É esta a minha luta.

 

 

 

 

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...

por Ana sem saltos, em 01.08.18

Poucas coisas me satisfazem tanto na vida como o som do mar.

Ou Fernando Pessoa na alma de Ricardo Reis.

 

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Beijo

por Ana sem saltos, em 20.07.18

E se há coisa que vale na vida, 

a acrescentar ao cheiro de um filho,
ao arrepio do primeiro mergulho no mar, 
não esquecendo o gosto doce do mel, 
ou a primeira vez que conseguimos sonhar, 
é o sabor daquele beijo que se repete,
eterna  vírgula, parágrafo, ponto e exclamação.
O beijo que se dá tantas vezes quantas se quer
porque é na repetição que se embrulha e transforma 
na fome, sede, lágrima e súplica 
que sabe aquele que é o primeiro.
 

 

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Portas

por Ana sem saltos, em 13.07.18

Sai de casa. Mesma hora, mesma rota, mesmo destino. Sai trazendo consigo a lista de afazeres, tudo pensado e cronometrado, tudo apontado ao mais infimo pormenor na cabeça.

Ah, vida badalada, prevista, ritmada,

dois passos, vira à esquerda, dá mais doze… talvez treze, avança, põe já a mão na carteira, antecipa os segundos, terei trazido as chaves, sim, ei-las aqui, abre a porta do carro.

Senta-te.

Respira.

Olha-se no espelho retrovisor, retângulo perfeito que lhe enquadra os olhos.

Podias ser um quadro, trancado para sempre nas pinceladas de um alguém apaixonado.

E na garganta aperta-se meia tonelada de alma. Tudo controlado. Cabe lá ainda mais meia.

Mão nas mudanças, pé na embraiagem, primeira, arranca.

Caminho que se estende na frente, estrada em baixo, coisas dos lados, céu em cima. E está tudo perfeito, o ar entra e sai, conforme dita a regra, e os metros a ficarem para trás, transformando-se em quilómetros e horas, tudo alinhado na conjugação perfeita do verbo ser.

Ser naquela alma enlatada numa garganta sufocante e, ainda assim, grande de mais.

E então a cabeça a manda-la seguir em frente, mas os braços ganhando vida própria inclinando o volante para a direita. Num ápice já não está na rota, virou, e o rumo é novo.

E o coração dispara na expectativa de um novo destino. Dispara também o alarme dentro de si, nada está programado, nada foi pensado, nada é igual ao que foi no ontem, que precede o anteontem, que precede o antes de anteontem.

Acelera na emoção assustada do desconhecido. Sente uma satisfação absoluta no medo. E a alma perdida ali, algures entre a traqueia e o esófago, mistura de vómito e ar, libertando-se, sem pudor, pelos poros.

Para o carro e olha a janela da pequena casa à sua frente. Há muito que sonhava com aquela precisa janela, e toda a história encerrada por de trás daquelas precisas paredes.

Abre a porta do carro e sai. Volta a regrar os passos, procura em desespero um porto seguro, algo que possa dominar, prever, regrar.

Eleva a perna esquerda,

isso,

pousa,

agora faz o mesmo à direita.

Respira por favor.

Isso.

Avança.

E de repente a porta abre-se e o mundo para, congelando um inteiro infinito num só segundo.

E ela relembra-lhe as mãos, os olhos, o riso, a voz. Mergulha de cabeça num passado que nunca viveu, atira-se para a frente num amor que nunca foi. Engole o coração em estrondo no peito, ajoelha-se no chão, atira a cara nas mãos em concha. Como se quisesse toda ela caber ali, entre duas mãos que a escondem do mundo.

_ Posso ajuda-la?

A voz.

Acalma-se. Retira-se do mundo encerrado nas palmas e lança o olhar ao mundo do lado de fora de si.

A voz.

Ele olha-a com um pé ainda dentro de casa, mistura de curiosidade e susto na imagem que se projeta à sua frente.

_ Não, nada, peço desculpa, eu, bem, achava que era aqui, enganei-me,

Controla-te.

Sacode os joelhos com as mãos, e constrói um imenso e bonito sorriso.

_ Peço desculpa. Enganei-me no destino.

Ele vira as costas para fechar a porta. Ela relembra-lhe os braços que nunca abraçou. Relembra o calor que nunca sentiu. E a alma de novo grande de mais.

_ Acha que podia fazer-me apenas um favor?

Ele volta-se de novo e olha-a de frente sorrindo, oferecendo-lhe a brecha necessária para ela poder entrar.

_ Acha que me pode amar para sempre?

Ele desmancha o sorriso, coloca-se todo dentro de casa, do lado de lá das paredes que ela criou mas nunca visitou, e, num estrondo, fecha-lhe a porta

e os sonhos,

na cara.

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Menina mulher

por Ana sem saltos, em 11.07.18

Há mais no coração.

Há mais,

sempre mais,

e sei-o desde sempre.

 

Ah menina que danças

não quero morras em mim.

Quero-te sempre acesa, na esperança, na alegria,

na entrega

cega,

inteira,

apaixonada,

a todas as coisas da vida.

 

E lavo-me da mulher que sou,

nas gotas vertidas da menina eu,

aquela que dança e dança

até cair feita lágrima do céu.

 

Abro os braços e deixo vir,

Chuva ardente que mora em mim,

encharco-me toda,

na alma,

na pele,

e assim garanto que não se afoga

a menina mulher que mora em mim.

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Tempo

por Ana sem saltos, em 26.06.18

Tinham passado talvez três anos. Ou seriam quatro?

Pouco importa, também, saber o detalhe do tempo que passou, o tempo, aliás, que deixou de lhe regrar a vida acumulando segundos no tic tac do relógio.

Esta fora a sua decisão quando, há três anos atrás,

ou seriam 4?...

esmagou o relógio de pulso com o salto do sapato, largou tudo,

casa, coisas, pessoas, amores

e foi embora.

 

Os dias de chuva miúda trazem consigo aquele tipo de tristeza perigosa para se tomarem decisões. E foi ao som da chuva dengosa, lambendo-lhe em súplica os vidros da janela, que colocou num saco pertences básicos e aleatórios,

uma camisola, uma moldura encerrando um beijo, um maço de notas, e uma pequena caixa azul que lhe encerrava memórias antigas,

e saiu.

Partiu.

Fugiu.

 

Agora vê vida em jeito de pausa, cantando de novo na janela. E o tempo que, mesmo deixando de badalar nos ponteiros do relógio, continuou batendo-lhe forte no peito. Envolvendo-a, mole e sedutor como lençol de cetim, na inevitabilidade das coisas.

Levanta-se da cadeira e olha a janela.

O mundo fica abstrato olhado pela lente das lágrimas do céu,

ou seriam as suas embaciando-lhe a versão da sua história?

 

É por isso que não se tomam decisões em dias de chuva miúda.

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