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Volta, perdoa-me

por Ana sem saltos, em 27.03.17

Levanta-se de manhã bem cedo, lava a cara, abre a janela do quarto.

Olha o mar imenso, ao fundo, ali do alto da mais alta colina. Deixa que entre o ar morno de primavera, os odores em mistura de sal e flor, o sol, morno, tão morno que quase pode jurar que o vê escorrer na pele. Desce para o pequeno almoço. Põe a mesa, como sempre fizera, de forma cuidada e aprumada, estende a toalha de linho vincada, renova a água das fores do campo que colhera na manhã anterior, põe o café ao lume e o pão a aquecer no forno. A seguir, põe os talheres e os pratos, loiça antiga e fina, imaculada e brilhante, dois lugares, o seu e o do seu,

Amor valente, amor para sempre.

 

Abre as portadas para o alpendre, e deixa entrar o dia em estoiro.

Serve o café quente nas duas chávenas.

Abre o pão, e barra-o com mel.

 

E lá fora o dia, brilhante e colorido, quente e harmonioso, como música de natal de coro infantil.

- As pessoas não entendem, sabes querido? Mas também nunca entenderam... quem se ama ao fim de mais de sessenta anos juntos?

E ri-se olhando de frente, de olhos quase fechados, de chávena quente junto ao peito.

Rugas antigas contam aos mais sábios os seus caminho de vida, mãos sapientes de quedas e curvas.

Acaba o café, e levanta a loiça da mesa, lava devagar, como sempre fizera, o prato, a chávena, os talheres, olhando o mundo do lado de lá da janela, verde e vaidoso, quente e provocante.

- Não vais dizer nada hoje? Está um dia lindo...

O silêncio irrita-a. O dia excessivamente brilhante, excessivamente colorido, excessivamente vivo, também. Olha para trás zangada, deixa cair o prato no chão, que se despedaça em mil pedaços de loiça fina, antiga, cuidada toda uma vida, polida diariamente, ali, atirada no chão.

- Vês? Vês? Olha o que me fizeste fazer, a loiça antiga da minha avó, francamente, olha para isto!

Olha de frente para a cadeira, zangada, tão zangada, como há milhões de anos não se zangava.

Ajoelha-se no chão a apanhar os cacos, um a um, na esperança de os colar de novo, na esperança de restituir a calma roubada pela fúria inesperada.

- A sério, nem se quer me vais ajudar?

Levanta-se, com uma vontade bruta de chorar. Assusta-se olhando a cadeira vazia.

- Onde estás?

Invade-a o pânico, invade-a a desesperança,

- Onde estás, vá lá, é só um prato querido, não faz mal. Onde estás?

Abre a porta de casa, leva um estalo do dia, da vida quente e brilhante em cheiro, cor e flor.

Dói-lhe o corpo, antigo e cansado, doem-lhe os olhos, do estoiro de luz, dói-lhe a alma, em desassossego, na memória que puxa mas não vem, ali mesmo à porta de si, no pânico de se ver ali sozinha.

Desce o alpendre, e caminha descalça, indiferente às silvas que a arranham nas pernas, ao sol que lhe fere a vista, à dor de dentro que a puxa para baixo, fixa no pensamento em alucinante rodopio,

Volta

Perdoa-me,

 

caminha andando, caminha chorando,

 

Volta

Perdoa-me,

 

até chegar ao cume da ravina,

Volta

Perdoa-me.

 

Respira por fim. Acalma-se na linha do fundo, sempre gostou de linhas. A retidão do horizonte devolvendo-lhe a rédea ao coração, o direito ali definindo o fim do mar, estabilizando-lhe o ritmo da respiração.

Inspira fundo, de repente profundamente calma. Entra o dia, entra o mar, entra o cheiro a sal e flor, o som de onda e calor, e vêm, como dádiva, as memórias, uma a uma, devolver-lhe o eu, restaurar-lhe o que é seu.

Abre os olhos, sorri, sorri muito, com alma corpo e coração, e vê-se nova de novo, é  jovem outra vez, capaz de mundo e fundos, dentro daquele corpo antigo e dorido.

Em baixo o mar brilhante, chama-a em onda mole, lânguida, cantada.

E então, velha de vida, mas, de súbito, nova de novo, sorri, sorri muito, sorri com alma corpo e coração, e canta também, baixinho, em melodia morna de canção de embalar,

Já aí vou querido, já aí vou...

 

Fecha os olhos,

Inspira fundo,

Abre o braços, num abraço infinito ao dia em flor,

E dá um passo em de dança de valsa, voltando, finalmente, ao início de si.

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2 comentários

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De Sofia Silva a 27.03.2017 às 12:05

Que texto tão bonito!

Um beijinho,
Sofia
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De Ana sem saltos a 27.03.2017 às 13:37

Obrigada Sofia!

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