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Velha de dentro

por Ana sem saltos, em 25.10.17

Sentada na poltrona antiga e debotada, perto do fogo quente da lareira, afugenta, em vão, o inverno sombrio que a invade. Ela, a senhora bonita. Fecha os olhos. Sonolenta e cansada, velha por dentro mas nova na carne, fecha os olhos procurando apagar a exaustão.
Mas é inútil o seu esforço, na verdade, porque o cansaço que sente está longe de ser esgotado com o sono. A carne é nova, velho é somente o coração.
Lá fora começa a chover, primeiro em tímido chuviscar, para segundos depois desabar em rios imensos enublando os vidros da janela.


Troveja.


Abre os olhos.

Vida bonita e triste.

Levanta-se, sabe que tem pouco tempo. O tempo...


Encosta o nariz na janela, como fazia em menina por fora e já adulta por dentro. Lambe a janela.
Está escuro, tão escuro lá fora. Como ela também, cedo nas horas mas tarde no céu.
Odeia o inverno. Ama o ódio que lhe tem.
O silêncio invade-a devagar, como onda mole em vazar de maré, e sente, de repente, uma fome insaciável. Afasta-se da janela, vê as suas marcas no vidro. As palmas das mãos, dedos longos e esguios, treinados em horas de sonatas ao piano. Vê a boca, treinada em beijos longos e grandes. Vê as marcas do seu corpo novo, carne bonita, casa de alma cansada.


E lá fora o céu troveja em fúria.


De repente as luzes apagam-se. E o silêncio ganha toda uma nova dimensão nesta ausência agora de formas. Mas a lareira em brasa, alenta ainda a fome que sente. A luz laranja e morna permite-lhe saber quero mundo é real, sim, na noite de fora, nos contornos da poltrona, na marca dos lábios e dedos no vidro da janela.
Senta-se no chão, cruza as pernas, envolve-se num abraço todo seu. Liberta-se em suspiro chorado.

 

Nova e bonita por fora. Tão velha e cansada por dentro.


A porta abre, e ele entra. Olham-se em silêncio no escuro lambido pela leve luz da lareira.


A porta fecha.

E lá fora troveja.


Olham-se sem voz, quase sem se ver, ele de pé, sustendo o ar, ela sentada, chorando em suspiro.
Ele aproxima-se, devagar, e ajoelha-se em frente dela.
- És tão bonita...
E ela desaba em soluço, porque é nova na carne, nos lábios, nas mãos que mancham o vidro da janela. Mas é velha, tão velha por dentro.
Segura-lhe o queixo com as pontas dos dedos, e eleva-lhe o olhar, novamente de frente para o seu. Mas ela fecha os olhos, perdida num choro sofucado por milénios. E então ele beija-a da boca, nova e bonita, sugando-lhe a tristeza antiga que lhe mora por dentro.


- És minha meu amor.


As mãos procuram-se no choro dela, no sussurro dele. E a carne junta-se, funde-se, une-se, num para sempre jamais inquebrável.


E lá fora troveja,

e chove

e é escuro.


Mas lá dentro ela é nova por dentro de novo, e ele devora-a faminto, não pela carne nova e bonita, mas pela velha  que se evapora em cada suspiro.
- Perdoas-me senhor de mim?


E engolem-se, agarram-se, procuram-se tão além do corpo.


- Amas-me menina de mim?
- Amo tanto que dói.
- Então perdoo-te tudo. Perdoo-te sempre.

O céu cala-se.
As luzes regressam às lâmpadas.
E eles, acordados de novo, reencontram-se na luz, em meia vida já passada juntos,

e mais meia ainda por viver.

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2 comentários

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De j.campião a 01.11.2017 às 11:15

Gosto da tua abordagem a este amor maduro, usado, vivido, reparado (já o tinhas feito noutros textos). Gosto do facto de não te esqueceres que as coisas nunca são simples...
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De Ana sem saltos a 07.11.2017 às 08:49

E não são mesmo. Nada é simples, e ainda bem que assim o é.

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