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Carta de amor

por Ana sem saltos, em 17.11.16

Final de dia. Noite a nascer, dia a morrer... o sol a dizer adeus, morno, laranja, triste.

Sentou-se na secretária em frente à sua janela preferida: de frente para o velho carvalho, abrigo de ninhos e sonhos.

Pegou na caneta e olhou a folha em branco. Fechou os olhos, inspirou aquele ar de mudança, de viragem da noite devorando a luz. No peito um mundo de palavras para materializar numa carta de amor, 20 anos depois.

Como se faz isso?...

“Meu amor, meu sol, minha vida...

 

É neste momento que a cabeça costuma parar, a mão trabalha sozinha ao comando do coração. É assim que faz. Inspira, para o tempo, fecha os olhos e a mão vai sozinha.

Navegou sem rumo pelos 20 anos. Mergulhou de cabeça na ingratidão da tristeza quando tudo sempre fluía de forma boa e alegre.

“Meu amor, meu sol minha vida

 

20 anos depois, meu amor meu sol minha vida, o óbvio, o típico. Tudo tão cheio em si e a mão sem ir com o coração, ao comando de frases feitas:

“sem ti não sei viver... por ti não quero morrer

 

Com o sol a pôr-se, laranja, morno, e triste, o primeiro beijo que se repetiu todos os dias por vinte anos, os risos na madrugada, quando o tempo era ainda uma promessa. O ombro grande e forte, recebendo-lhe o queixo, secando-lhe as lágrimas. E de noite, o corpo a dar voz ao coração.

“Meu amor, meu sol, minha vida...

 

É mais do que um cliché, um amor que navega vida fora, caindo, levantando-se, sarando feridas, redescobrindo-se a cada curva, a cada desilusão, a cada perdão.

 

Olha a janela. Olha a folha,

Amor, sol, vida, tudo riscado. Tudo esborratado com a lágrima massuda que ensopa o papel.

A janela aberta, e agora a noite francamente vencedora,

A noite e a vida que corre de forma fluida e leve de mão dada contigo, e eu que te amo e não sei como o dizer...

 

As lembranças seriam reais?...

Sai porta fora de papel esborratado na mão. Senta-se de baixo do carvalho, e espera. Ele vai voltar e eu não tenho nada para lhe dar.

 

Olha a folha, riscada, esborratada, molhada.

E lá  no meio a sua carta de amor, sobrevivente aos riscos, às lágrimas, aos rasgões, na única poesia que conseguia escrever 20 anos depois,

“Amo-te.

 

Sem sol, sem vida sem clichés

Amo-te e não sei como o dizer.

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