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Sonho azul

por Ana sem saltos, em 07.02.18

Ao fundo vê-se o mar. Parece realidade mentida, fingida, pintada num quadro que guarda memorias do que não chegou a ser.

Foca-se naquele azul, numa ânsia sangrenta de paz. Inspira fundo tentando ignorar o caos à sua volta. Cama queimada, espelho partido, alma no chão. Tudo espezinhado, sujo, quebrado.

Mas não faz mal, está tudo bem.

Ao fundo o mar é azul e promete-lhe paz.

Eu dou-ta mulher ridícula, mas tens de agradecer.

Senta-se no chão e ri cravando as unhas nos braços, num abraço vertiginoso que faz cair e doer. Ri-se forma descontrolada, estridente, assustada. Ri, ri muito, ri em vómito. Ouve um grito ao fundo, mas ignora, perdida na gargalhada.

E as unhas entrando, desbravando, ferindo, abrindo.

Talvez rindo, rindo muito, de forma louca, descontrolada, desenfreada, talvez, assim, consiga esquecer a pessoa que era e que a memória em estrondo oco resolveu apagar.

 

Abre os olhos numa vertigem que vem de dentro. A cama está no sítio. A janela mostra a enorme montanha ao fundo. Não há mar ali, e o verde explode omitindo o azul. Senta-se, situa-se na vida, olha as paredes, o teto, as mãos. Tem a certeza que naquele momento o relógio para. Incrível o seu poder. Parou o tempo. Magnânima mulher que sonha com um mundo partido pintado de mar e acorda num segundo que ela mesma para ver o verde rebentar em esperança.

Sorri, agradece, acalma-se, e só então se levanta para limpar o sangue que escorre em lágrimas vermelhas do braço que no sonho azul ela mesmo rasgou.

 

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5 comentários

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De Anónimo a 07.02.2018 às 22:15

Triste ... Muito forte!
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De Ana a 10.02.2018 às 18:47

😭
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De Piaf a 19.02.2018 às 22:40

Um primeiro parágrafo extraordinário! E um mar que nos sorve as angústias, sempre digno de agradecimento tão profundo quanto o mesmo. Bonito ser na natureza que a personagem acalma a sua realidade. Uma redação forte que ilude e parece manuscrita. 🙂
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De Ana sem saltos a 20.02.2018 às 10:06

A natureza acalma e preenche... sempre. É o mal de uma sociedade que vive afogada em betão. Obrigada!

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