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Sonhar e morrer

por Ana sem saltos, em 05.02.18

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(Fotografia tirada no inspirador café da quinta) 

 

- Não posso deixar de sonhar, se não morro.

 

Foi esta a frase derradeira, mesmo antes de fechar os olhos e partir, definitivamente, para o mundo dos sonhos.

Pelo menos é assim que quero crer que aconteceu.

Abriu-se, nesse segundo, um fosso irremediável dentro de mim. Fiquei destinada a ficar partida para sempre, porque por mais que tentasse

e tento, juro que tento, tento tanto que dá dó,

nunca consegui sonhar como ele. Os meus sonhos têm sempre rédeas, sobrecarregados de “e se’s” que me impedem de pensar em levantar voo mesmo antes de tentar.

 

Conheci-o, tipicamente, num daqueles acasos da vida, que nos faz acreditar que há por aí um qualquer astro que alinha as coisas.

- Não me lembro de ver um sorriso assim...

Consigo vê-lo a coçar o queixo olhando o céu, e eu incrédula com a ousadia daquele belo estranho, e ele, de repente, a sorrir-me de volta, e eu,

em boa verdade, acho que nunca lhe cheguei a dizer,

mas eu é que não me lembro de alguma vez ter visto um sorriso assim.

 

Apaixonei-me irremediavelmente pelo homem com quem acabei por casar. Não sei que brilho terá ele visto em mim, mas sei que a partir desse momento, resolveu dar-me a mão e tomar-me como seu projeto de vida.

 

- O teu problema é que és linda mas morres de pena de ti.

Disse-me isto num dos nossos primeiros encontros, e eu tive vontade de o matar para morrer de seguida. Mas nem o matei, nem morri, pelo contrário, levantei voo para não voltar a pousar, depois de chorar de raiva, e ele calar-me as lágrimas, e a voz, os medos, e sim, a pena de mim própria também, com o nosso primeiro beijo, que foi mãos e corpo e voz e anseio, tudo entregue logo ali.

Chora, meu amor. Deixa-me amar-te enquanto choras.

 

O que fazia dele o homem amante dos meus segredos, era também o que o fazia estrela cadente amante da vida. Energia radiante entregue em cada projeto, cada sonho, cada erguer todas as manhãs.

 

Até naquele dia, naquele consultório gigante, sufocante, gélido e branco, debaixo do olhar verdadeiramente triste do médico que, creio agora, também se apaixonou perdidamente por ele,

Lamentamos, não há nada que possamos fazer, lamento, lamento muito, lamento imenso,

até aí... ele foi desmedidamente ele.

 

- 6 meses meu amor. Já viste quanto mundo se pode ver em 6 meses?

E vimos, sim, tanto mundo e com tanta força, que não cheguei se quer a ter tempo ou fôlego para lamentar o meu destino. Não há beijo como o primeiro, nem amor como o último, e assim foi, ele morreu-me a falar de sonhos, e eu parti-me, outra vez, aos bocadinhos.

 

- Não posso deixar de sonhar, se não morro.

Não tive tempo para lhe dizer que ele é que não podia morrer, se não deixaria eu de sonhar...

Mas seria eu, mais uma vez, linda e a morrer de pena de mim.

 

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8 comentários

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De Ana a 05.02.2018 às 17:06

😭
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De Ana sem saltos a 06.02.2018 às 08:44

Beijinho Ana!
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De Anónimo a 05.02.2018 às 19:19

Que arrepio. Um exagero de beleza e drama. Adorei o final vazio e redondo que a deixou novamente consciente da solidão. A verdade é que depois a solidão não era a mesma, era ainda maior, encerrando uma imensa saudade! Apesar da falta de ar, gostei muito. Magnífico Ana!
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De Ana sem saltos a 06.02.2018 às 08:45

Ainda bem que gostou! :)
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De Anónimo a 06.02.2018 às 11:28

Bonito texto
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De Piaf a 19.02.2018 às 22:24

Lindíssima história Ana, por demais comovente é elevada. Que se viva e se sonhe, perante a alternativa, não existe opção. Parabéns

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