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Reino da rainha menina

por Ana sem saltos, em 21.03.17

Tinha a certeza que ainda se lembrava do caminho. Os anos passaram, inevitáveis e precipitados, num arranque inesperado de criança a adulta.

Mas, se fechasse os olhos, tinha a certeza, ainda se lembrava do caminho. Abre as palmas das mãos, e caminha de olhos fechados, como se fosse possível regressar ao passado, numa breve viagem pela memória em cheiro e tato,

em sorriso inocente e feliz de quem ainda espera que a vida aconteça.

 

A sorte de quem sonha, é a de poder viajar pelos confins do já vivido e por viver. E ali, a mulher menina caminha devagar, sentido nas palmas das mãos as ervas bebidas pelo calor do verão, o cheiro quente do jasmim em flor, a terra seca por baixo dos pés. E sabe que volta, passo a passo, aos segundos onde já foi feliz.

Abre os olhos. Ali estava, o seu palácio de menina, erguido no carvalho antigo e cansado, nas raízes expostas ao sol, no céu absurdamente azul.

Senta-se à sombra,

trono imenso feito de sonhos,

trono imponente de rainha menina,

 

e olha à volta, devagar, devagarinho, centímetro a centímetro, o espaço que a coube pequenina, a memória que a sabe, agora, mulher.

E, se fechar os olhos, volta de novo atrás, aos atrases que bem entender, porque tem sorte, muita sorte, e cabe-lhe na entrega em forma de fé, a possibilidade de viver de novo o que passou, de reviver ao detalhe de cheiro, cor e sabor, tudo aquilo que pode ter ficado por viver.

E tem sorte, tanta sorte. Ali, no seu reino de rainha menina, de cheiro a terra quente e jasmim, pode lavar-se das magoas, pode renovar os votos de entrega, pode ser e viver tudo aquilo que lhe couber, tudo aquilo que quiser.

Sabe-o com toda a incerta certeza, sabe-o porque ali tem as mãos abertas pousadas na pedra quente, sentada na velha raiz erguida do chão, que é rainha senhora e menina, dona do mundo, dona do rio que já foi, dona do oceano que há de vir. Sabe certa e segura, que é dona de si. De todos os si’s das suas histórias, cravadas em tinta de alma no livro que lhe recebe as memórias.

Do que foi, do que não chegou a ser, e do que, se Deus quiser, há de estar para vir.

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6 comentários

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De Malik a 21.03.2017 às 11:43

Muito bom!
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De Paulo Simões de Almeida a 21.03.2017 às 15:20

Extraordinário!
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De Ana sem saltos a 21.03.2017 às 16:23

Que orgulho :) O meu pai no meu blog! <3
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De Anónimo a 22.03.2017 às 14:46

Emocionamte. Aplauso menina mulher. :)


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De Ana sem saltos a 23.03.2017 às 11:37

Vénia! :) Obrigada!

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