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Reflexos

por Ana sem saltos, em 14.11.17

Ama-me sem pressa. Ama-me com vagar.
Vale pouco a vida, feitas as contas, afinal. A corrida que nos move, que nos ultrapassa tantas vezes, retira toda a magia das coisas. E as coisas que têm magia não são as grandes. São as pequenas que só vê quem não corre a fugir do ontem. Quem não corre no desespero do amanhã. É por isso que te peço, neste que é o meu último desejo. Ama-me sem pressa, meu bem. Ama-me com vagar.

 

Dobra o papel. Coloca-o com cuidado no envelope. Lambe-o selando-o. Guarda-o dobrado no bolso do casaco e olha-se no espelho antes de sair. Assusta-se com o que o reflexo lhe devolve. Aproxima-se devagar, finta-se no olhar, aquele do outro lado, aquele que deveria ser o dela. E fecha os olhos entregue ao cansaço, entregue à desilusão da cara bonita e de olhos vazios que não reconhece mais do lado de lá. Abre a porta de casa e sai.

O dia lá fora está em vias de terminar. Está um frio gélido e limpo, respirar faz doer o coração. Conta os passos que a levam,

Um, dois, três, quatro,

E aperta a carta no bolso do casaco.

Ama-me.

Vira a esquina, entra no parque. Segue os trilhos de terra, como se soubesse exatamente onde tem de ir. Como se soubesse exatamente de onde vem. Mas caminha sem destino com uma carta de amor, sem destinatário nem remetente,
no bolso.

O céu fecha-se em noite escura. As estrelas despontam, uma a uma no céu. O ar arrefece ainda mais.

Para. Olha á volta e vê-se, mulher sozinha, no parque, na noite. Aproxima-se do lago, e vê despontar a lua, gorda, grande e vaidosa. Olha a água parada e vê-se em vulto.

Mulher ingrata, sozinha, na noite, no lago, no parque.

Retira a carta do bolso, senta-se na erva húmida à beira do espelho de água.

- que fazes aqui?

Não olha a voz. Baixa o olhar amachucando com força o papel. Tem frio e treme. Tem frio e chora a alma, em derrame morno caindo dos olhos

- e tu, que fazes aqui?

Pergunta, estudando a voz. Pergunta, entregando uma raiva que não sente ao timbre que cospe boca fora.

- provavelmente o mesmo que tu.

Surpreende-se com o tom suave e levanta a cara para o olhar de frente. Homem bonito, sozinho, na noite, no parque.

- queres mesmo dizer adeus?

- estou cansada.. estou tão cansada.

- que se foda o cansaço. Olha para mim. É isto que queres?

Ela levanta-se novamente fria, novamente vazia, sacode as calças com a mão.
Olha-o de frente nos olhos.

- sabes o que quero?

Ele espera a resposta retribuindo-lhe, sem medo, o olhar.
Ela entrega-lhe a carta, amachucada, selada, dobrada.

- quero que tu te fodas.

E altiva, bonita e vazia, vira costas e segue o trilho que a trouxe de lado nenhum.

Caminhando segura para destino algum.

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2 comentários

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De Anónimo a 14.11.2017 às 17:48

É mesmo muito fácil sentir o que escreve! Não é fácil ter a capacidade de chegar assim a quem lê.
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De Ana sem saltos a 15.11.2017 às 08:44

Bom saber isso caro anónimo!

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