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Primeira página

por Ana sem saltos, em 15.02.18

Benvinda à minha loucura! Estás preparada?

 

Olhando à volta, tudo está pronto. Arrumado, limpo, organizado. Bebe um copo bem cheio de absinto. Torce a cara num esgar de dor.

Dor que é prazer.

Ah agora sim. O mundo está embaciado. Olha! Dança e tudo! Que maravilha, um mundo embriagado olhando para mim sóbria nesta loucura… fico feliz mundo. Olha-me na minha decadência.

Senta-se no chão, satisfeita com aquela sensação morna e suave, tonta e irreal, que o absinto sempre lhe devolve. Descobre-se apenas no estado de devolução de alma que o álcool lhe dá. Agora sim. Pode fechar os olhos e praticar aquelas porcarias que aprendeu na aula de yoga, sobre purificar a mente, descobrir o eu mais profundo.

Solta uma gargalhada perante a imagem do eu profundo.

Nem se quer há eu quanto mais profundo.

Inspira. Guarda o ar dentro de si. Expira.

Devagar o cérebro é irrigado por um milhão de micro partículas, que lhe dão espasmos de realidade. Abre os olhos.

Sou uma farsa.

Levanta-se, cai na bebedeira irreal do absinto, e real do que é.

Sou uma farsa.

Fica deitada no chão imune à dor, imune a força que não tem, imune a tudo.

Tempos remotos de uma vida que se foi. Ah, a luz do passado, que coisa bonita. Uma casa pequenina à beira mar plantada, três crianças correndo. O lume aceso. Ele.

 

Amas-me?

Sempre amei…

És uma farsa.

Pois sou.

Morre.

 

Não sou capaz de morrer percebes? O meu cargo é este, a minha cruz, puta que pariu isto tudo.

 

A janela da sala está aberta e um pardal pousa e observa-a. Ela está deitada no chão, imóvel, sem pestanejar, talvez nem respire.

E o pássaro olha-a no beiral da janela. Depois vira costas e levanta voo.

Então invade-a uma paz estranha, vendo a liberdade daquele pequeno ser. Vem-lhe à memória um tempo tão remoto como a história da vida. É menina pequenina, alma liberta do podre que a vida entretanto lhe deu, corre num descampado amarelo. É primavera, julga, olhando o estoiro de cor e brilho à sua volta.

 

Vem amor.

Tenho medo…

Tens medo de quê? Eu estou aqui, eu ensino-te.

E eu aprendo, não é?

Vem amor…

 

E ela corre livre, corre segura. Afinal, o mundo o que é mais se não um deslumbrante arco-íris.

A imagem foge-lhe de novo.

 

Porque é que a tua dor tem de ser sempre maior que a minha?

Porque a tua vida é um arco iris.

Vai à merda. O arco iris faço-o eu.

 

Levanta-se. Senta-se na secretária. Pega uma caneta, abre o caderno em branco, virgem para a receber por inteiro.

Escrever alma é fazer amor com deus.

 

Querida filha,

 

Começa

 

Esta é a minha história.

Benvinda à minha loucura. Estás pronta?

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