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O recomeço depois do fim

por Ana sem saltos, em 16.03.17

Fim.
Escreve de punho cerrado na areia molhada, renovada em beijos lambidos no fim das ondas.
Fim na areia salgada, fim no salgado de si, cravado à força do punho, evaporado em sonho perdido. Se é no fim que se arruma, seja, então, o fim.

Sabe o recomeço, claro que sabe, pois se lhe grita a razão ao ouvido nos intervalos do coração?
Olha o fim no chão, levanta os olhos ao mar. Grande e imenso, canta-lhe músicas que não entende, nas dores que agora assume.

Se é no fim que se arruma, seja então, entregue-se de vez na entrega que sempre foi.

Ri-se com a cara entre as mãos. Primeiro leve e em sorriso, mas que rápido se expande, bruto e em soluço, bruto e franco na ironia de tudo aquilo. Passa a gargalhada cuspida nas mãos que lhe seguram a cara. E então chora, chora muito, chora com lágrimas, ventre e coração. Chora ali o absoluto, porque é em tudo ou nada que se define, que se procura, que, eventualmente, se encontrará.
A praia está deserta e o mar sossega naquela dança triste, escutando-lhe o fim cravado na areia.

Passa a mão nas letras, fecha os olhos. Assume a palavra. Assume o mar e dor que a rasga por dentro. Venha então o recomeço. Venha então o amanhã.
E o mar sorri-lhe em onda, vindo leve e lento beijar-lhe

o F,

o I,

o M.

Toca-lhe os joelhos, lava-lhe as mãos, envolve-a no seu pequeno todo de fim de onda. Para e assim fica, ali, parado. Despede-se e volta atrás, levando-lhe grão a grão, lágrima a lágrima, segundo a segundo, as letras do fim na areia.

Abre os olhos, levanta-se, vira costas ao mar, e segue caminho, um passo depois do outro, despedindo-se ali do fim.

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