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Mulheres

por Ana sem saltos, em 09.02.18

Sai de casa. Deixou tudo limpo e arrumado, apesar de existir sempre um leve caos na organização do lar. Pequenos sinais que são vida, a mancha de leite no sofá, a manta aberta, o jarro de chá do dia anterior no canto da bancada da cozinha. Hortelã, outrora fumegante e agora desfeita em cheiro fresco.
O dia apresenta-se em vénia mal abre a porta. Imaculado, brilhante, luz. Toneladas de luz infiltradas no mundo e nas coisas, e o verde é mais verde, e o azul mais azul. Ao fundo há canto sagrado de passarinho.
Caminha em frente, se há luz no mundo e nas coisas então quer-a para si também.

 

Que cor terá a sua alma, assim exposta ao dia em estoiro?

 

Muda de rumo, embrenha-se no mato. O sol está agora atrás de um manto espesso de copas de árvores. Aparece só em leves gotas, mais fortes que a imensidão de folhas. Naquele ambiente escuro e fresco, presságio de gotas de luz, invade-a uma sensação milenar, devoram-na um milhão de encarnações. É mulher mãe, mulher amante, mulher rainha, mulher escrava.
E no meio de tantas mulheres que a tecem por dentro, todas elas abraçadas numa só carne, todas elas fracas e fortes, capazes de destruir mundos, chorar por milhões de segundos, rebenta em voz e vontade a que a domina.
É mulher menina, e sofre, às vezes, em leve canto de anjo rapaz, porque sonha e acredita, sabendo sempre da viagem que é miragem.

Ele aparece à hora combinada.
Ela sorri-lhe, vestida de musgo, de luz, de sol, de mar.
Ele estende o manto do chão. Deita-se e chama-a.
Ela deita-se ao seu lado.
Olham ambos o céu que se faz prever por detrás do manto de folhas. Sorri certamente, há luz nas coisas visíveis e invisíveis.
Mulher mãe, mulher guerreira, mulher amante, mulher menina. Todas ali esquecendo a miragem.

 

Há uma dança que se faz. Não é óbvia nem estudada, é instinto e curva e salto, e acontece passo a passo na caminhada que nos leva do ontem para o hoje, do hoje para o amanhã. Danças comigo?

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4 comentários

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De Ana a 10.02.2018 às 18:42

Somos tanto 😍. Obrigado Ana.
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De Ana sem saltos a 12.02.2018 às 08:49

Obrigada eu, Ana :)
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De Piaf a 19.02.2018 às 22:50

Que ode grandiosa à feminilidade! Uma escrita que lhe faz jus, repleta de mística, de exagero celestial. Não se lhe conhece a cor mas, pela descrição, parece irradiar luz suficiente para envergonhar um dia quente de sol radiante. Muito bom.
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De Ana sem saltos a 20.02.2018 às 10:05

Muito obrigada caro Piaf! :)

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