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Menina, mãe e mulher

por Ana sem saltos, em 03.04.17

- Sou pequenina, não vês?? Não vês que sou pequenina!

Ela olha-a zangada, vendo a fúria da filha ser engolida pelo desespero, na frase que solta em berro chorado.

E a zanga que sentia, ela mesma, há dois segundos atrás, é então substituída pela surpresa. E a surpresa entrega-lhe em chuva miúda a sensação de queda no vazio, a inesperabilidade de, de repente, não saber como reagir.

E a menina ali, à sua frente, chorando em desespero, zanga e coração, tudo ali exposto, terrível e sinceramente espalhado nas pernas, pele, olhos e lágrimas...

Que sorte tens minha filha... que sorte tens.

 

Limpa-lhe as lágrimas, e toma-a no colo, expulsando-lhe o desassossego e angústia num abraço. Apaga-lhe os medos e a fúria cheirando-lhe o pescoço.

Devia manter-se firme, mas, e sem nunca ter confessado a ninguém, questiona-se se este ceder constante às vontades implacáveis da filha, este poder que, por enquanto, ainda exerce de lhe poder devolver a alegria apenas com um abraço, reconfortará mais a filha menina, ou a mãe mulher.

Larga as palavras que a assombram, cospe-as para bem longe de si, e entrega-se ao quentinho insubstituível do choro ceder na dança, e dar lugar ao sono que vem sem aviso, tão inesperado e repentino como qualquer reação da menina. Conta-lhe a respiração em palavras cantadas baixinho,

Inspira...

Expira meu amor.

 

Só depois de entregar a filha ao sonho, se senta a mãe

A mulher?

 

com o fruto de si seguro no colo. Olha aquele corpo pequenino, ali encaixado em si, como se nunca tivesse esquecido o caminho que a fez pessoa no seu corpo mãe.

Relembra a explosão da filha, indignada com a zanga da mãe, e então inveja a menina, coração  fúria e vontade, espalhados na pele, no rosto, na voz, chorando, berrando, inocente e egoísta, perfeitamente consciente do que quer para si.

Odeia-se profundamente naquele momento, em que conta o respirar da filha aninhada no seu peito de mãe, e sabe que a sua zanga, todas as suas zangas, são fruto da sua necessidade de garantir que passa a herança à menina dos seus próprios filtros de mulher crescida.

Odeia-se mais profundamente ainda, quando se tenta lembrar da última vez que foi voz e coração, na pele, vontade e olhar, e não encontra uma imagem se quer que a conforte, ali no poço fundo das memórias de si,

de menina, mãe e mulher.

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