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Medo

por Ana sem saltos, em 16.02.17

Fere-me o medo. Acima da dor, da angústia, da fome que tenho sempre e nunca sei de quê, aquilo que mais me sangra cá dentro é o medo.

 

Ela chega e senta-se:

- Estou aqui conforme pediste. Diz, não tenho muito tempo.

- Aí está a pressa. Vou tentar estruturar tudo em tópicos, como tu gostas.

Soubesses tu a força que me obrigas a ter...

 

- Podes parar?

- Bom, então, fiz aquilo que me disseste para fazer. Separei-me.

Reage. Quero beber-te a reação, mais do que te quero voltar a provar.

 

- Nunca te pedi isso.

- Não? Ia jurar que sim...

Olham-se. A relatividade do tempo, ali, esparramada na contagem dos segundos em milésimas,

nesse olhar que te vejo, e onde sei que te encontro.

 

- Vou-me embora. Não estou com tempo nem pachorra para ironias.

- Vai então.

 

Ela olha-o. O muro não cai.

Ele devora-a descarado, ali sentado no café.

 

- Vou mesmo. Isto foi tudo um gigantesco erro.

Arrasta a cadeira, pronta para se levantar, no muro erguido, forte e seguro. Implacável.

 

Ele agarra-a com força pelo pulso:

 

- Não te atrevas a ir assim.

- Não te atrevas a dizer-me o que fazer.

 

Olham-se,

É aí que te encontro...

e quando se olham, morrem aos cachos as palavras.

 

- Sabes o que mais me dói?

- Está tudo a olhar para nós. Vou-me embora.

- Estou-me lixando para quem olha para nós.

- O teu mal é esse. Estás-te lixando para tudo.

- Sabes bem que o meu mal não é esse...

 

Ela arruma a cadeira e vai-se embora.

Ele acende um cigarro e recosta-se, vazio até à medula de si.

Depois de te ter plena, no cheiro, na boca, na pele, na carne, aquilo que me rasga ao meio é esse teu medo.

 

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