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Livro de vida (III)

por Ana sem saltos, em 12.05.17

 

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

 

A sensação primeira, foi a de queda no abismo. Queda a pique no vazio.

A reação à queda foi a de fugir. Abrir a porta e andar, andar depressa e a direito, passadas em frente, na procura de um destino ao soluço que a entope por dentro.

Não existe propriamente um pensamento, uma racionalização, só uma raiva enojada, um enjoo dorido e peganhento, e de repente o espaço é pequeno, as paredes esmagam-na, os castiçais e serviços de prata, os criados e as salas e salões, de repente o grande e bonito é minúsculo e sinistro, e esmaga-a, pisa-a de cima, mostra-lhe o pó por de trás das molduras.

Um vida inteira direita e regrada, tão bonita de se ver de fora, na casa e jardim, nome em figuras de cristal, a família elegante e imponente,

Uma senhora senta-se direita.

Uma senhora não se ri, sorri

Uma senhora não chora, sorri,

engole a lágrima, não sejas vulgar.

Endireita-te, olha para baixo,

Não interrompas, concorda,

Não fales de mais,

Não te cales tanto,

Segue atrás o teu pai, baixa o olhar,

Ajoelha-te na igreja, comunga de olhos fechados,

 

És uma senhora Vera, há um nome que carregas. Endireita-te e sorri,  é isso que esperamos de ti.

 

Dá-se conta, de repente, que não respira. Não sabe há quanto tempo, continua em frente direita, em passada rápida e ritmada, o céu escurece de forma drástica,

Costas direitas, não sejas vulgar,

Estarei a sorrir?

 

e o céu estoira em pranto.

E Vera expira, finalmente, num grito surdo que solta para dentro. Ensopada por fora, cabelo emaranhado, molhado, despenteado,

uma senhora...

 

o vestido cola-se nas pernas, sente peso no andar. Ao fundo vê a capela, e sente esperança, de súbito, no conforto dos bancos de madeira, cheiro a incenso e fé, para de andar e começa a correr, finalmente com um destino aos passos e lágrimas, finalmente com esperança de calma e respostas. Ordem. Desejo profundo de ordem na desordem.

Sobe as escadas, e a porta grande da pequena capela está fechada. Chove a cântaros, percebe, de repente, que a sua figura deve assustar, percebe, de repente, que a porta está fechada.

Não há ordem na desordem, nem respostas às perguntas.

Vera, que se espera senhora, é menina apenas, e não sabia do verniz que estala, não sabia da aparência que apenas parece, não sabia de nada, afinal. Senta-se nas escadas, já indiferente à chuva e ao que pode parecer vista de fora, indiferente ao vestido enlameado e pesado, à cara sem sorrir e assumidamente a chorar, é vulgar apenas, no choro em chuva em coro com o céu.

 

- Precisa de ajuda?

 

Assusta-se, levanta a cara, e olha à sua frente um rapaz senhor, como ela menina senhora, direito, alto, debaixo de um enorme chapéu preto. Baixa-se, entrega-lhe o chapéu e tira o casaco para lhe cobrir os ombros. Senta-se ao seu lado e acende um cigarro.

E Vera esquece que tem um nome e um peso, esquece que chove por dentro e por fora, esquece o que lhe esperam, de que lhe vale afinal?

 

- Peço desculpa, eu, bem, desculpe...

- Chamo-me João, cheguei agora. Esteja à vontade, a sério.

 

E encosta a cabeça no ombro do rapaz senhor, finalmente abrigada da chuva de fora, libertando sem pudor a chuva de dentro.

Só então permite que lhe venha em tiro a imagem,

 

Passa o corredor, é hora do chá,

o pai não está mas a mãe vai gostar de me ver a horas,

 

 

lembra-se do leque da mãe, volta atrás, tão bem posta e orgulhosa de saber as regras, mas não é perfeita,

és tão vulgar Vera,

tão gélida e limpa a sua voz, mãe,

 

 

e entra sem bater no quarto dos pais.

E o que primeiro não percebe em penumbra morna e de novo cheiro, visualiza em murro no estômago,

uma senhora não ri,

 

a gargalhada gemida de baixo dos lençóis,

Uma senhora não quer,

 

e a senhora querendo ali, deixando-se querer, despida, no vulto, nos vultos dos dois que não conhece,

Reconhece?


a mãe e o outro, no cheiro, na carne, no escuro, no riso, ombros, cabelos, mãos e pernas.

Uma senhora bate à porta Vera, endireita-te.

 

E Vera bate a porta e sai, engolindo o vómito que lhe sobe sem aviso a garganta.

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