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Livro de vida (II)

por Ana sem saltos, em 10.05.17

(Primeira parte aqui)

 

Olho-te daqui, do alto da minha experiência, do alto do fim, na verdade, porque falta um pequeno salto, consigo sentir. Mas nos olhos que te dei, novos e brilhantes, revejo parte de mim na esperança cansada, mas esperança ainda assim, e sei que vais sofrer. Vais sofrer minha querida, porque quem tem brilho e esperança, por mais que se canse, não deixa de sonhar. E sonhar, meu amor, é a única coisa que te exijo, mas aviso-te desde já: sonhar faz chorar.

 

- És feliz minha querida?

Ana sorri, Ana a menina crescida, mulher criança e esperança, sorri de verdade olhando o copo de vinho.

- Oh avó, tenho muita sorte na vida.

- Não foi isso que te perguntei.

 

Vera a matriarca, a sempre mãe, avó e mulher, balança a cadeira de forma leve e ritmada, olhos de mil anos que vêm muito além do que se olha. Olha a neta, e espera-lhe abertura, palavras e coração.

 

- Sou avó. Acho que posso dizer que sou.

- Ainda bem. Ainda bem minha querida.

 

Ficam assim as duas, uns segundos em silêncio, esperam e escutam-se ainda no que se conta sem palavras. E então a avó, matriarca e senhora da fé e do destino que passou, para a cadeira, pousa as mãos antigas no colo, e diz fechando os olhos:

- Conheci o teu avô num dia de chuva.  

 

Dentro de si, nas imagens que a escuridão lhe permite voltar a reviver, Vera passa em vendaval de tempo de senhora a menina, e está sentada nas escadas da capela, debaixo de uma chuva furiosa. Chove-lhe em cascata o coração também, jovem e inocente, doce e frágil, endurecendo naquela que é a dor gritante e aguda de uma primeira desilusão.

 

(Continua aqui)

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