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Lenho para lágrimas

por Ana sem saltos, em 30.08.17

Entra no quarto. Está escuro, demasiado escuro,

Fizeste o jantar?

Vai-te foder.

Odeio que estejas zangada comigo...

 

Mora-lhe na pele um desassossego insaciável, uma comichão na alma, uma fome de mais.  Aos poucos a visão habitua-se à escuridão transformando o preto da noite em vultos do que lhe é familiar.

Ontem pensei em ti sabes?

Não quero que penses em mim, já te disse.

 

Vê a cama, vê a escrivaninha, amontoado de folhas amachucadas, pedaços de historias sem principio, nem meio, nem fim.

Um amor eterno e valente, carne em explosão, sede que não morre.

Uma mãe solenemente triste, entregue à impotência de não saber amar.

Uma velha que nunca viu o mar.

 

Vê as portadas da janela, madeira antiga e pesada, fechadas, trancadas. Odeia de morte as janelas fechadas. Abre-as e observa a lua.

Quarto crescente vês filha? É agora que deves cortar o cabelo, já está comprido de mais.

Oh avó deixe-se de coisas.

 

Deitado na cama dorme o seu amor maior. Acalma-se na respiração dele, conta-lhe em palmos o infinito de alma que lhe mora. Sorri-lhe chorando, mas ele dorme sossegado.

A tua bondade é uma afronta sabes?

Quero morrer a beijar-te na boca mulher bonita.

 

Sai do quarto zangada. Sai do quarto dessossegada,

Desassossego de alma que não morre nem atenua, que não dói, mas mói.

 

Passa a sala, na penumbra do descanso, atravessa o corredor, abre a porta e sai. Inspira o orvalho da noite, de cheiro a terra e a vida, dor de vésperas de chuva.

Chora céu. Lava-me. Leva-me.

 

Atravessa o jardim, e senta-se perto da lagoa, vê o seu reflexo na água inacreditavelmente parada.

Casas comigo?

Já casei.

Casas de novo?

 

No topo do céu a lua em estoiro. No topo de si um súbita calma. Inspira, e olha-se,

Estou em paz sabes? Mas não sei se estou feliz...

És linda de mais para não estares feliz.

 

Chora parada. A boca não mexe, os olhos não piscam, o ar não entra nem sai, rola-lhe em massa densa e gorda um milhão de lágrimas ensopadas de si. Tira do bolso uma navalha.

Já te disse que não quero essa porcaria à vista,

Olha, porquê?

Porque não, odeio essa navalha.

 

A noite é uma coisa maravilhosamente assustadora. Dançam as estrelas ao ritmo de soluço estagnado, parado como a água da lagoa que lhe mostra em estalo o reflexo impávido de si.

Abre a navalha, encosta-a no rosto, enterra-a devagarinho, e abre um lenho fundo, definindo, finalmente, um  caminho e destino para as lágrimas que solta em cascata.

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