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Lá fora chove. É cedo mas é escuro. Dentro de ti aquela névoa peganhenta e grossa que te tapa a alma de tempos a tempos.

Porque não choras?....

 

Levantas-te e olhas a janela. Há algo de trágico na água que escorre na janela. Por oposto ao seco dos teus olhos.

E de mim?...

Se nascesse de novo...

 

O rumo das coisas foi aquele que era suposto, negociado sabe-se lá com quem, atrás das estrelas, antes ainda de seres. Nasceste perfeito. Cresceste normalmente, numa família grande e meiga. Aos fins de semana apanhavas bichos da conta e escondias tesouros em cabanas de trapos no monte. Alimentavas-te de azedas e mergulhavas no rio ainda em março.

Lembras-te do gelo que te invade os ossos naquele segundo em que a tua carne mergulha na água virgem dos primeiros dias de primavera.

 

Não mudava isso.

Se nascesse outra vez não mudava isso.

 

E lá fora a chuva é varrida pelo vento. Leva as últimas folhas da árvore do jardim. Há algo de trágico no silêncio ensurdecedor de uma noite de chuva. E lá dentro, seca de lágrimas a tua alma. Seca de alma a tua vida.

 

Sabes que tiveste sorte. A vida foi generosa contigo. Não existe nada de trágico a apontar, nunca foste o melhor, mas também nunca foste o pior. Cresceste ao ritmo lento de uma infância feliz. Sem nenhum sobressalto passaste de menino a homem. Casaste num dia solarengo de inverno. Lembras-te das promessas que te fizeste naquela interminável caminhada dela até ao altar. A esperança apaixonada que sentias.

 

Não mudava isso

Se nascesse de novo não mudava isso.

 

De repente, sem estares à espera, dos confins de ti mesmo, atrás das memórias, antes ainda do coração, vem em onda um soluço que te atira ao chão. A chuva para, dando-te a vez naquela dança triste. É salgado teu sabor. E choras com fome de ti, e choras uma vida, lágrimas e voz num soluço atafulhado de tanto tempo travado. Preso no dia a dia, no suposto cumprido sem sobressalto. Preso nas correntes da rotina, do correto, do bonito que se vê no papel brilhante da fotografia da sala.

 

Se nascesses de novo o que mudavas?

Se nascesse de novo, não nascia... Dava a vez a outro que soubesse ser feliz.

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