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Eternidade

por Ana sem saltos, em 07.02.17

- Que queres que te diga?

Olhavam-se de frente, procurando no olhar a réstia do que outrora foi. As mãos cerradas, pousadas no colo, o presente em contraste bruto com o passado.

- Não vou discutir mais contigo...

- Claro que não. Óbvio que não.

 

Prende o cabelo num gesto rápido e nervoso. Olha para o lado, consumida pela desilusão. Foi-se o ódio e a raiva, já, e sobra agora um vazio que lhe invade de forma inesperada o peito.

 

Lembro-me daquela manhã que juntos projectamos filhos, um jardim, uma lareira e vinho... Lembras-te? Pedi-te um pássaro também, mas negaste-me o desejo, disseste-me que os pássaros não são feitos para gaiolas...

 

A vida é assim mesmo, diz-lhe a mãe, a amiga, a irmã, consolando-lhe as queixas, as lágrimas, a tristeza perante o fim.

 

Assim como? Ninguém me preparou para a inexistência do eterno, e agora, o que faço? Não tenho mais chão, e ninguém me ensinou a voar...

 

- Então ficamos assim?

Ela olha-o incrédula.. Ficamos assim, pergunta-lhe de forma leve e leviana, como, aliás, sempre fizera com tudo. Com a sua existência bruta e dramática, leve e leviano sorrindo quando chorava, quando se zangava, e quando, por fim, deixou de o fazer.

 

Ficamos assim como? Assim? Mãos no colo, olhar para o lado? Onde estás, onde foi que nos perdemos, meu amor?

 

- Sim. Ficamos assim, não queres discutir não é verdade?


Se ao menos lutasses, reagisses, se ao menos me tivesses levantado quando caí..

 

- Não quero mesmo. Fiquemos assim - diz levantando-se.

Ela fica a vê-lo levantar-se, calmo, sério e sereno. Indiferente.
Baixa a cabeça para esconder a lágrima.


Não sei porque choro se não te quero...

 

- Não me vais dizer quem é ela?

Ele continua, impávido, apertando o casaco.

- Não... Não vou Joana. Já te disse que não quero discutir.
- Vai à merda. A sério. Vai à merda.

Levanta-se, põe a carteira a tiracolo e solta o cabelo. Vira costas e começa a andar.
Ele fica a vê-la partir. Ela e a sua prepotência infantil, dona do mundo, do tempo e da verdade. Sorri vendo-lhe o tique a ajeitar o cabelo.

 

Também nunca te perguntei quem foi que te levou o coração, amor da minha vida...

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