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Espero-te

por Ana sem saltos, em 27.02.17

Pediu um café, sentou-se no melhor lugar da esplanada. Olhou o mar ao fundo, apertou as mãos uma na outra. Olhou o relógio, nervoso, ansioso, expectante.

Faltava ainda meia hora para ela chegar.

Tirou o bloco de notas, acendeu um cigarro e escreveu,

 

Vem e entra.

Espero-te há mais de um milhão de anos, sabias?

Vês-me aqui, sentado no jardim da vida?

 

- Aqui tem o seu café.

- Obrigada.

 

Até aqui tudo fluiu normalmente. Gosto de todos os momentos que me fazem, acho que posso dizer que sou feliz.

Mas esperava-te, sem o saber, há mais de vinte encarnações, neste novo desassossego, nesta inquietação feliz, nesta angustia viciante.

Anda lá, vá, entra...

 

Pousa a caneta, mexe o café, olha o horizonte, na esperança de a ver chegar. Olha o relógio.

O tempo, quando se quer urgente, amolece na passagem dos segundos.

Bebe o café de um golo, volta novamente à caneta,

 

Deste lado apresento-te a minha história.

Nasci, cresci, fiz-me pessoa.

Errei, caí, levantei-me.

Amei uma e outra vez, mas vejo hoje, que nunca por inteiro.

Venci algumas vezes. Outras falhei.

Sorri e chorei muito, sozinho, acompanhado, com lágrimas, sem voz.

Quis morrer e viver, aprendi, desaprendi e voltei a aprender. Mas nunca tive medo de me levantar.

 

Acende outro cigarro.

Nunca teve medo de se levantar, mas enfrenta, pela primeira vez, o pânico de cair.

Ignora a ânsia,

no horizonte o vazio de um dia esplêndido.

Volta, sofrego, ao papel,

 

Mas anda, despacha-te, não esperes mais.

Espero-te sem saber que te esperava,

E é urgente a minha espera,

Por isso, entra, e senta-te.

Ouve o que te digo sem falar, lê-me nas mãos, no olhar.

Sei que me olhas, mas vês-me?

Percebes quando me dou, na pele, no respirar?

 

Levanta uma vez mais o olhar. Vê-a ao fundo, ao telefone, vindo para ele em passo rápido. Acena-lhe descomprometida.

Ele finge não a ver, protegido por de trás dos óculos de sol. Ainda lhe faltavam palavras,

 

Desse lado está o resto, aquele que me falta viver. Páginas em branco, imprevisíveis, limpas, infinitas.

Se é há mais de mil vidas que te espero, quando tempo tenho ainda para te amar?

Diz-me, vá lá,

não me faças mais esperar,

tens aí o livro,

quantas páginas nos vais dar?

 

Quero que me leias, que me tomes, que me bebas,

não me peças um bocadinho só, não o sei dar.

Por isso, anda, senta-te, põe-te à vontade. Faz de mim a tua casa.

E a levar, peço-te, leva tudo, leva-me por inteiro.

Afinal, espero-te há mais de um milhão de vidas.

Senta-te, toma a caneta.

Escreves-nos? 

 

- Então não falas oh ordinarão? – diz-lhe pousando a mala na cadeira.

Ele dobra o papel, e sem a olhar responde-lhe:

- Estou há horas à tua espera minha menina. Agora diz-me uma coisa, antes que me esqueça, casas comigo?

- Ui, já vi que estás inspirado. Vou pedir, já volto.

 

Com as mãos debaixo da mesa, olhando fixo a linha do horizonte no mar,

inspira fundo, amassa o papel, dobra-o, vinca-o, rasga-o,

desfiando-o, por fim, em mil pedaços que deixa cair no chão.

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