Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Encontra-me

por Ana sem saltos, em 10.04.17

Acorda em sobressalto. Não era a primeira vez. Agora, todas as noites, via-se arrancada dos sonhos à bruta. Senta-se na cama e espera, ofegante, que passe o susto de não se saber mais.
Desta vez levanta-se. Não era dia, ainda, mas também não era noite. Abre a porta de casa e recebe em dádiva o cheiro de uma manhã de primavera,
Contraste absurdo com a tempestade

de,

em,

por si.


Sai de casa, descalça, de alma vazia e flutuante, e desce em ponta dos pés para o jardim. Deita-se na relva, húmida das noites ainda frias, e olha o céu.

Não é negro, não é azul.

Não tem estrelas, não tem sol.

Indefinido ali, em tons de roxo e lilás,

mancha soberba de cor sem nome,

céu enorme, sem cara, sem nada.

 

Desponta apenas, lá no alto, uma lua minúscula que se despede em minguante faminto, ridícula naquela imensidão sem rosto.

Ergue as mãos e olha-as de forma demorada.

Abre-as. Fecha-se. Roda-as sobre si.
Encontra sempre nas mãos uma resposta qualquer. Olha os dedos, as palmas, as unhas. Estão fortes ainda, decididas no abrir e fechar, parar e rodar.

Toca a cicatriz que tem na palma. Agarra uma mão na outra, enlaça os dedos da direita na esquerda, une-as num abraço apertado,

de si, para si.

 

Alma perdida em desassossego, na busca incessante e exaustiva de tudo.

Mas sabe-se, então.

Sabe-se, sabendo quase nada, que enquanto se identificar nas mãos, pode chorar, dormir e acordar, pode correr, procurar e esperar, porque ainda que não se encontre, está, algures, lá. Seja esse lá onde for.

Levanta-se, apoiando as mãos no chão. Ao fundo, no monte, o sol já desponta no céu. E o lilás, que não é lilás, começa a assumir agora o azul do dia. Assusta-se com o vulto sentado no chão, olhando-a fixo de frente.

Amor de sempre, amor para sempre.

 

- Assustaste-me, o que estás aí a fazer?

Mas ele não lhe responde. Olha-a fixo, sentado no chão. Olha-a para dentro, como se nem se quer a visse por fora, sério e absorto, com as palmas abertas pousadas no chão.

Ela ajoelha-se à sua frente. Olha as mãos no chão, e só então expira. Aproxima-se devagar, e põe também ela as palmas na relva, frente a frente com as mãos dele.

Destino traçado e unido nos vincos das palmas,

História vivida, no atropelar dos dias, incessantes na passagem, na descoberta, na procura, no desencontro, no perdão.

 

- Perdi-te?

Pergunta-lhe por fim.

 

Ela levanta as mãos do chão, e pousa-as nas mãos dele. Apoia-se e inclina-se para a frente, aproxima a cara da dele, até ficarem separados apenas por milímetros. Olha-o fundo nos olhos,

Mão direita na sua mão esquerda, mão esquerda na sua direita,

 

- Não meu amor. Encontraste-me.

Acabaste de me encontrar.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor




Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D