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Chuva

por Ana sem saltos, em 03.02.17

Abre a porta de casa. Olha a chuva que cai bruta no chão, destruindo os pequenos canteiros em torno dos plátanos, lavando com violência o ar, o céu, as estradas, as paredes. Fecha a porta num estrondo e sai a correr.

Só assim. Sai. E a correr.

Uma perna, depois a outra, rápidas e ritmadas, levando-a de metro em metro, sem destino.

Só assim. Um passo. Depois o outro.

A chuva ensopa-lhe a roupa tornando a corrida mais pesada. Mas a dor do peso não é nada, é só carne dorida, e isso, ainda assim, é vida.

As pernas continuam ritmadas, ultrapassando os segundos, levando-a sem destino, levando-a, só, daqui para ali.

Chora o céu em cascata, na alma que lhe escorre dos poros, nas nuvens pretas e carregadas, nas ruas desertas e limpas.

O mundo é dela naquele momento. Inspira, traz para dentro de si o ar lavado, expira, libertando parte da água estagnada no peito. E as pernas levando-a ritmadas, uma, depois a outra, em frente e indiferentes. Ao como, ao onde e ao porquê.

Passa os primeiros quarteirões, cantam agora os trovões, como som de fundo à chuva furiosa, vira à direita e entra no parque. Continua a correr pelo meio das árvores, sem pensar, deixando apenas sair a energia, a dor, a água podre que lhe ensopa o sangue.

Pisa uma poça enlameada, perde o sapato e cai de joelhos no chão, molhada, suja, ferida, exausta. Grita do fundo de si, na esperança leve e ténue de lhe chover o coração.

Mas a chuva cai do céu, apenas. E a tempestade morta que sente na alma, foge-lhe da voz e cola-se na lágrima que não consegue chorar.

 

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